É engraçado como, muitas vezes, a pessoa tem a oportunidade de ficar em silêncio – mas mesmo assim se mete a falar algo – e se esquece do concelho do Depeche Mode: “enjoy the silence”, que seria algo como “aprecie” (ou para os jovens: curta) “o silêncio”. E, como se não bastasse, para dar um ar de seriedade ao discurso (vazio, diga-se de passagem) cita autores consagrados – na maioria das vezes filósofos, claro. O pior é que, em geral, a pessoa não tem nada (nenhum conteúdo) a dizer, e para disfarçar essa carência, se empenha na forma: diz o vácuo enfeitado por uma verborragia desvairada, salpicada com palavras difícies – como já dizia Schopenhauer.
Por exemplo: eu estava no ônibus – indo para a faculdade – quando um rapaz me perguntou se o ônibus passaria na frente do metrô Anhangabaú. Eu disse que sim, e ele se contentou. Pronto! simples – pediu a informação… eu dei – ele não tinha mais nada para dizer, nem eu…
Mas é engraçado! a pessoa não se contenta, quer sempre mais – talvez “moivado”, digamos assim, por alguma insegurança; como se sentisse uma necessidade de melhorar, complementar – acrescentar algo como se (ele), por princípio, fosse insuficiente.
Então eu disse: Porém, tem… [e ao proferir essa palavra, maldita palavra! - uma gotícula (gorda, diga-se de passagem) de saliva voou da minha boca e partiu na direção do (rosto do) cidadão. Pensei que poderia ser alguma “partícula” de poeira que tinha voado de algum lugar – isso deve ser aquelas histórias que agente inventa na hora do desespereo, para atenuar as coisas – mas obviamete não era. Pois se fosse, já teria tomado outro rumo: mas a saliva voadora estava decidida! e cavalgava firme, em linha reta – que é a menor distância entre dois pontos! Passei, então, a desejar – com todas minhas forçar, como todo meu ser, do fundo do meu âmago – que algo, como o vento, por exemplo, e até Deus ou anjos (esse pessoal que diz não ter fé é engraçado: basta qualquer dorzinha nas costas e – “ai meu Deus!”) - que qualquer coisa desviasse aquela lástima. Mas não! A saliva voadora prosseguia imponente, toda segura de si – e nada a desviaria de seu objetivo. Então, como se ela estivesse gracejando – como quando aqueles que estão prestes a cruzar a linha de chegada olham para trás (para ter certeza da vitória), e antes de desvirginar a faixa fazem uma comemoração – ela [a 'mardita'] zombeteiramente deu um rodopio e acertou, em cheio, o canto direito da boca de meu interlocutor, que por sua vez – como quando explode uma bomba, ou devido a um fore impácto) piscou os olhos involuntáriamente. ] … que tomar cuidado, porque esse ônibus é circular, ele não fará ponto final – vai passar direto.
Ao terminar de proferir aquelas palavras inúteis, e absolutamente desnecessárias, o interlocutor assentiu com a cabeça (como se estivesse dizendo “eu não precisava dessa”), mas não sem antes limpar, com o dedo médio da mão direita – a famigerada.
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