Domingo, 05 de Outubro de 2008
Quem, afinal, matou o velho Karamázov? É o mais rico dos livros de Dostoiévski e nele aparecem os temas que atormentavam o autor nos últimos anos de sua vida.
Boris Schnaiderman
Os Irmãos Karamázov, que sai agora em tradução do russo por Paulo Bezerra, é certamente o mais rico dos romances de Dostoiévski e aquele em que aparecem de modo mais incisivo os problemas vitais que o atormentavam nos últimos anos de vida. Os grandes temas da sociedade russa na época e também os grandes temas do homem no mundo surgem ali numa trama admiravelmente urdida, que tem algo de romance policial. Quem matou, afinal, o velho Karamázov? Todos os indícios apontavam para um dos três irmãos, Dmítri, o impulsivo, o incontido, embora o verdadeiro assassino fosse Smierdiákov, um criado da casa, também filho do patrão, mas com a mendiga Lisavieta Smierdiáschaia, isto é, a Fétida, pois era como a chamavam.
Dá pena resumir assim aquela trama, que é simplesmente magnífica e serve de arcabouço a todo um mundo de idéias e sentimentos, com uma intensidade rara em toda a literatura.
Nesse sentido, adquire especial ressonância a conversa entre os irmãos Aliocha e Ivan numa taverna, o primeiro um noviço, que recebera ordem de seu chefe espiritual de ir para o mundo, o segundo, um homem de razão e de análise, de pensamento cortante e expressão incisiva, que apresenta sempre os argumentos mais arrasadores, em contraposição às convicções religiosas do noviço.
Realmente, é extraordinário que um homem tão profundamente religioso como Dostoiévski tenha podido formular as objeções mais categóricas que é possível apresentar a um crente. No capítulo A Revolta, Ivan relata uma série de episódios noticiados pela imprensa, em que as vítimas eram crianças entregues à crueldade dos adultos. Aliás, o que ele não teria a dizer-nos hoje, diante dos horrores de nossa crônica policial?
O momento culminante daquele encontro ocorre depois que Ivan narra o caso de um general reformado que vivia em sua propriedade, cercado de tratadores de cães e criados de serviço. Certo dia, um dos cães apareceu com a pata machucada e, interrogados os de casa, constatou-se que o culpado era um menino de oito anos, filho de uma das criadas. O general mandou então reunir todos os seus servos, o menino foi conduzido ao local da reunião e, na presença da mãe, despido e jogado aos cães.
Horrorizado, Ivan indaga então se é possível buscar a harmonia universal à custa das lágrimas de uma só criancinha que seja. E acrescenta: "Não é Deus que eu não aceito, Aliocha, estou apenas lhe devolvendo, do modo mais respeitoso, o meu bilhete de ingresso".
E é depois desta conversa tão incisiva que Ivan expõe a Aliocha o seu poema não-escrito, O Grande Inquisidor, em que Jesus volta à terra, em Sevilha, no século 16, no dia seguinte a um auto-de-fé em que se queimaram perto de cem hereges. Ele passa no meio do povo, na praça central, e todos o reconhecem. Pratica ali mesmo vários milagres e acaba encontrando o velho cardeal, o Grande Inquisidor. Este ordena que o prendam e vai visitá-Lo no calabouço. Tudo isto para dirigir-Lhe a palavra e dizer-Lhe que era uma ilusão a liberdade que Ele quisera dar aos homens, pois estes somente se sentiam bem na condição de rebanho e só ansiavam dobrar a cabeça diante de uma autoridade.
Esta alocução sobre a liberdade e a conversa sobre o bilhete de ingresso no mundo parecem servir de fundo a toda a trama do romance. E aí aparece, com todo o vigor, o pulso de Dostoiévski como o verdadeiro ficcionista-pensador, insuperável no gênero.
Já se gastaram rios de tinta na interpretação daquelas páginas, mas elas continuam a desafiar-nos com a sua linguagem simbólica. Ademais, é realmente muito rica a galeria de tipos do livro, mas sempre em conexão com o debate de idéias. Num curto preâmbulo, o autor afirma que o mais importante da obra viria num segundo romance com o mesmo personagem central, mas ele não chegou a escrevê-lo. No entanto, inacabado como ficou, este nos desafia com a sua riqueza e profundidade.
Neste sentido, basta lembrar os episódios relacionados com Catierina Ivânovna, a noiva de Dmítri, e Grúchenka, sua companheira de muitas farras. Parece até obsessiva a preocupação do romancista de apresentar personagens femininas que a sociedade considera pecadoras e que possuem grandes qualidades de caráter. Mas Grúchenka, além disso, é muito mais enigmática e complexa do que, por exemplo, Sônietchka Marmiéládova, de Crime e Castigo. Veja-se, neste sentido, toda a seqüência a partir do capítulo As Duas Mulheres Juntas, em que se dá o encontro delas. A passagem em que Grúchenka pula no colo de Aliocha é de uma grandeza única e ali o romancista exibe uma capacidade de penetração humana simplesmente demoníaca. Aliás, as artes do demo parecem tão presentes no livro que sua figura aparece a Ivan, conversando com ele, como algo absolutamente normal e cotidiano.
O romancista afirma que pretendia narrar a vida de Aliocha, mas este acaba aparecendo como um dos protagonistas, essencial sem dúvida, mas tão importante como outros personagens.
A narração tem muito das hagiografias russas, das narrativas designadas como jitié. Aliás, a velha Rússia está muito presente praticamente em cada página, o que traz também a sua marca estilística.
Uma estudiosa atual de Dostoiévski, V. I. Viétlóvskaia, tem um ensaio em que aponta a relação de Aliocha com Aleixo Homem de Deus, santo francês que acabou aparecendo também na Rússia, a partir de fontes bizantinas. Existem em russo diferentes versões desta lenda francesa, mas Dostoiévski acabou baseando-se nas mais antigas, que são em verso, ao contrário das oitocentistas, geralmente em prosa.
Enfim, este romance é um dos poucos textos dos quais se pode dizer: depois de lê-lo, a pessoa não é mais a mesma.
Boris Schnaiderman é crítico literário, ensaísta e tradutor do russo