Max Horkheimer – Crítica da Razão Instrumental1
Prefácio à segunda edição alemã2
O fato de perceber (de aceitar dentro de si) idéias eternas, tais que serviram ao homem como alvo (objetivo) eram chamadas, desde muito, de razão.
Hoje, porém, se considera que a tarefa, e inclusive a verdadeira essência da razão – consiste em alavancar meios afim de desfrutar os objetivos (fins) propostos em cada caso. Os objetivos que, uma vez alcançados, não se convertem em meios são considerados como superstição. Embora a obediência a Deus tenha servido sempre como meio para conquistar seus favores – e por outro lado como racionalização de qualquer tipo de demônio, de expedições conquistadoras e de terrorismo – os iluministas, tanto deístas, quanto ateístas: interpretaram os Mandamentos, a partir de Hobbes, como princípios morais socialmente úteis, destinados a fomentar uma vida livre de tensões; um acordo pacífico entre iguais, bem como, respeitar a ordem existente. Isenta de conotações teológicas — a sentença: “sê racional” equivale a dizer: observa as regras, sem as quais – nem o indivíduo, nem o todo – não se pode viver; não pense apenas em coisas momentâneas. A razão se realiza a si mesma quando nega sua própria condição absoluta – razão com um sentido enfático – e se considera como mero instrumento. Não que não haja sérias intenções de endossar teoricamente a afirmação da verdade racional. A partir de Descartes, grandes correntes da Nova Filosofia intentaram um acordo (harmonia) entre teologia e ciência. “A faculdade das idéias intelectuais (a razão)”3 desempenhava o papel de mediadora. “O divino de nossa alma consiste em sua capacidade para conceber idéias” — lemos nos escritos póstumos de Kant4. Nietzsche acusou semelhante fé na razão autônoma de atraso, porque: “segundo instintos valorativos alemães, tanto Locke como Hume, foram por si mesmos… demasiado lúcidos, demasiado claros”5. Para ele [Nietzsche], Kant foi um “atraso” (demorador)6. A razão não é nada além que um instrumento, e Descartes foi superficial”7. Como no caso de outros fenômenos culturais ofendidos pela decadência, o século XX repetiu o processo histórico. Em 1900, ano da morte de Nietzsche apareceu as “Logische Unterschungen” (Investigações Lógicas) de Husserl, com o objetivo de fundamentar mais uma vez – com rigor científico – a percepção do ente espiritual, a contemplação do essencial. Apesar de Husserl ter se ocupado principalmente das categorias lógicas, Max Scheler e outros estenderam sua teoria para que elas abarcassem estruturas morais. Desde o início, este esforço carregou o signo de renovador (restaurativo). A auto distinção da razão enquanto substância espiritual obedece a uma necessidade interior. A teoria precisa refletir e expressar tanto o processo e a propensão socialmente condicionada, quanto o neo-positivismo, também a instrumentalização do pensamento, bem como os vãos planos de salvação.
Atendendo aos rogos de publicar meus escritos em sua totalidade eu decidi selecionar, por enquanto, os trabalhos que produzi desde meados da década de quarenta. Eles surgiram na fronteira de minha atividade prática, da organização dos Studies in Prejudice, da administração acadêmica, da reconstrução do Instituto de Pesquisa Social, dos esforços em pró da reforma educacional. Me dei conta de que tais pedidos se referem àquele período no qual surgiu a teoria crítica, ante todos os ensaios publicados na revista, editada por Alcan em Paris, que eu dirigia, bem como os estudos inéditos e, não menos importante: a Dialética do Esclarecimento – esgotada há tempos, a qual tem como co-autor meu amigo Adorno. Com o fim do nacional socialismo – assim cria eu então — iria amanhecer, um novo dia, nos países progressistas – seja mediante reformas ou através de uma revolução; e começaria a verdadeira história da humanidade. Junto com os fundadores do “socialismo científico” tinha acreditado que necessariamente se estenderiam pelo mundo os s ganhos culturais da época burguesa, o livre desdobramento das forças, a produtividade intelectual, e tudo isso, sem levar o estigma da violência da exploração.
No entanto, o que verifiquei desde aqueles tempos não parou de afetar meu pensamento. Sem dúvida alguma, os Estados que se dizem comunistas e fazem uso das mesmas categorias marxistas – para as quais minha atividade teórica tanto deve – hoje em dia já não estão próximos do advento daquele novo dia em que os países nos quais, por enquanto, a liberdade do indivíduo não tenha sido extinta 8. Tendo em vista tal situação – há de ser publicado agora – contíguo a ensaios anteriores, as reflexões sobre a razão. Junto com tais reflexões podem hoje servir de base à dúvida – de grande gravidade teórica – a respeito do ponto ao qual o reino da liberdade, uma vez realizada, não há de transformar-se necessariamente em seu contrário: na automatização, tanto da sociedade, quanto do comportamento humano.
Mas Horkheimer
Maio 1967
1Horkheimer, Max. Crítica de la Razón Instrumental.Editorial SUR, S. A., Buenos Aires. 1973
Versión castellana de H. A. MURENA y D. J. VOGELMANN; Título del original en alemán: ZUR KRITIK DER INSTRUMENTEL.L.EN VERNUNFT
2Traduzido do Espanhol por a.topos
3Kant, Kritik der Urteilskraft, Ed. Ak., vol. V, pág 315.
4Iind., XVIII, pág. 130
5Nietzsche, Nachlass, Obras. ed. Kroener, vol. XV. Pag. 217
6Ibid.
7Jenseits von Gut und Böse. III, pág 191
8“no se encuentran hoy día más próximos al advenimiento de aquel nuevo día que los países en los cuales por el momento no se ha extinguido todavía la libertad del individuo” – no original.
[…] Há outros textos sobre o assunto neste blogue: A escola de Frankfurt; Crítica da Razão Instrumental (Eclipse da Razão) – Prefácio à Segunda Edição […]
[…] [5] http://www.theguardian.com/commentisfree/video/2013/jul/23/max-horkheimer-critique-instrumental-reason-video ver também, para bibliografia, https://acoisaforadesi.wordpress.com/2008/10/31/max-horkheimer-crtica-da-razo-instrumental/ [NTs]. […]
[…] também, para bibliografia, https://acoisaforadesi.wordpress.com/2008/10/31/max-horkheimer-crtica-da-razo-instrumental/ [NTs]. [6] Referência a Josip Broz Tito (sobre ele, […]
[…] [5] http://www.theguardian.com/commentisfree/video/2013/jul/23/max-horkheimer-critique-instrumental-reason-video ver também, para bibliografia, https://acoisaforadesi.wordpress.com/2008/10/31/max-horkheimer-crtica-da-razo-instrumental/ [NTs]. […]
[…] [5] http://www.theguardian.com/commentisfree/video/2013/jul/23/max-horkheimer-critique-instrumental-reason-video ver também, para bibliografia, https://acoisaforadesi.wordpress.com/2008/10/31/max-horkheimer-crtica-da-razo-instrumental/ [NTs]. […]