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Archive for novembro \26\UTC 2008

Antes de mais nada – a confissão: roubado do blogue: http://vidaincoerente.wordpress.com/, HehEHE. Tá pensando o quê? Aqui se faz, aqui se paga, queridinha! AHUAHAHA

… Sim, tenho pensado bastante. As coisas que acontecem ao meu redor (muitas, acredite), as coisas do dia-a-dia, os filmes que tenho assistido e um livro, em especial, me deixa em ebulição.

Recomendado por uma amiga na sexta, comprei no sábado: “A arte de ter prazer. Por um materialismo hedonista”, do filósofo Michel Onfray. A leitura não é das mais fáceis e tb não é de sacanagem, como muitos vão pensar.

O livro explica a visão de alguns filósofos sobre o corpo. To reduzindo beemmmm o contexto do livro porque não é sobre isso que quero falar, mas sobre as primeiras páginas. Sério, se tivesse parado a leitura por ali já estaria preenchida. Foi a descrição mais perfeita de um enfarto que já li em toda a minha vida. Sei que nunca enfartei, pelo menos não fisicamente, mas consegui sentir, como leitora, cada dor expremida naquelas palavras. Um texto belo, corrido, perfeito. Fiquei fascinada. Queria muito escrever daquela forma.

Eis um trecho: “Meu corpo parecia se escoar por uma fenda talhada a navalha que eu sentia como o avesso do meu coração. A brecha engolia minha carne, meu sangue e tudo o que pudesse apresentar-se sob forma de alma. Os músculos se retesavam até a tetanização, a mineralização, e o ritmo cardíaco se transformava em estridências. A consciência desaparecia naquele apocalipse que se tornara seu único objeto; eu já não era mais que uma imensa dor acompanhada de contorções, buscando desesperadamente uma posição aplacadora. Em vão. Às vezes, num jogo de reflexos, eu me via metamorfoseado em sofrimento puro, como que diáfano ou cristalino, prestes a me quebrar em estilhaços e fragmentos múltiplos. Eco singular de uma decomposição de tipo geológico.

A concentração da dor em um ponto de atordoante  densidade abolira toda distância entre a dor e a consciência que pudesse apreendê-la. Uma estranha alquimia liquefazia a carne em energia ardente. Cada instante ameaçava uma pulverização que siginificaria o fim – que eu desejava.

O médico diagnosticou um enfarte, eu ia fazer 28 anos, e naquela segunda-feira, 30 de novembro, meu corpo experimentou uma sapiência que se transformaria em hedonismo”

Perfeito, não? E tem mais. Saca como termina este primeiro capítulo:

….”Os batentes da porta se abriram, o leito foi retirado da sala de reanimação e o cadáver se foi, para outro lugar, passando coberto pelo sudário diante das visitas e da família que esperavam no corredor. Ao meu lado, eu não conseguia desviar o olhar do buraco deixado pelo lugar vazio da cama que fora levada. Morrer era, portanto, muito simples. Depois daquela lição das trevas, restava fazer do corpo um parceiro da consciência, reconciliar a carne e a inteligência. Toda existência é construída sobre areia, a morte é a única certeza que temos. Trata-se menos de dominá-la do que de desprezá-la. O hedonismo é a arte desse desprezo.”

E isso sem falar das citações ao longo do livro. “Viver de modo que imperiosamente desejes reviver, é esse o teu dever”, Nietzsche. ou “Desfruta e faz desfrutar, sem fazer mal nem a ti nem a ninguém: essa é, creio eu, toda a moral”, Chamfort.

Não é pra mexer com a cabeça de qq um? Pois a minha está fervendo.. que bom !

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Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes? O mar da história é agitado. As ameaças e as guerras haveremos de atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas. Maiakovski ( 1927)

por: Pedro Celso Campos

Do grego dia ( troca ) e lekticós ( apto à palavra ) o termo dialética tem a mesma raiz de diálogo: troca de palavras. Enquanto método e enquanto filosofia, "a dialética é a ciência das leis gerais do movimento, tanto no mundo externo quanto do pensamento humano", segundo Engels. Ela é a estrutura contraditória do real. Através dela compreendemos que as coisas estão sempre em relação recíproca, nada acontece por acaso, tanto nos fenômenos da natureza como nas relações entre os homens. Nada pode ser entendido isoladamente, fora da realidade à sua volta. Tudo e todos pertencem a uma "totalidade dialética", isto é, fazem parte de uma estrutura.

Já em Heráclito ( 544-484 AC) há esse conceito do "mundo dialético", da multiplicidade do real, das contradições que levam às mudanças, do novo que já começa a envelhecer ao nascer para dar lugar ao mais novo, dentro da dinâmica universal onde tudo muda, tudo se transforma o tempo todo. Heráclito reconhece, dialeticamente, que o ser é múltiplo por estar constituído de oposições internas. E dessa luta interna é que brota, incessantemente, o novo: novo homem, novas abordagens, novas idéias, novas realidades…num imenso e contínuo processo de expansão que envolve tanto o átomo como todo o universo cósmico. E isto é assim há 12 bilhões de anos, desde o big-bang, sabemos hoje.

Heráclito foi precursor de Hegel e de Marx ( Séc XX ) na formulação da lógica dialética.

No plano social, a dialética marxista estuda as transformações do mundo material em função das contradições surgidas com a oposição das classes no processo de produção. É da contradição entre senhor e servo, no Feudalismo, que o homem chega ao Capitalismo. É da contradição entre capitalista e operário que se chega ao Socialismo ou algum outro regime onde o individualismo não seja a filosofia norteadora da vida entre os homens ao ponto de levá-los "de volta" à barbárie.

Estudiosos como os frankfurtianos questionam um sistema que nega ( no exato momento que o afirma ideologicamente ) ao homem o direito à própria vida: biológica, social, intelectual, política, econômica etc. Conscientes do poder mistificador da ideologia, eles se revelam melancólicos na busca por um mundo melhor e mais justo, criticando, inclusive, a indústria cultural que é usada para manipulação das massas e para matar, na raiz, as legítimas manifestações culturais dos seres sociais. A melancolia decorre do poder de alienação do sistema que anestesia as consciências reificando o ser humano que se torna uma peça sem importância na engrenagem da máquina devoradora descrita por Kafka ( A Colônia Penal-1919).

Superar a alienação significa acordar para a realidade em volta, compreendendo que toda realidade é fruto de uma realidade anterior que lhe deu causa, compreender que há um processo histórico na formulação de todas as realidades, de todas as políticas, de todas as atividades humanas. Discutir o processo, negar suas premissas para buscar a verdade legítima é a tarefa a que se propõe a "dialética negativa" em oposição à Teoria Positivista que confirma e legitima o sistema através da ideologia.

O texto a seguir ( Origen de la Dialectica Negativa – Theodor W. Adorno, Walter Benjamin y el Instituto de Frankfurt. Susan Buck-Morss. Madrid: Siglo Veintiuno Editores, 1981) discute os modelos adotados pelos frankfurtianos em seus estudos filosóficos sobre a sociedade humana.

Enquanto Benjamin (1892-1940) inicia suas pesquisas com base nos primeiros românticos (Friedrich Schlegel-1772-1829 e Friedrich Novalis-1772-1801 e outros), realizando, mais tarde, experiências com narcóticos e com o esoterismo, aderindo, afinal, ao surrealismo de Louis Aragon e André Breton, Adorno prefere acolher com mais entusiasmo o teatro épico de Brecht (1898-1956) que defendia a reformulação do surrealismo de modo que a arte não fosse apenas um artigo decorativo mas um instrumento de luta e de conscientização política dos povos.

Entretanto, observando melhor o surrealismo, Adorno concluiu que ele não era nada dialético porque não contemplava as relações e os contrastes a serem estudados na própria relação sujeito-objeto. Com profunda formação musical, Adorno encontrou na música de seu mestre Arnold Schönberg (1874-1951) o modelo ideal para o estudo da sociedade ao pesquisar o sistema dodecafônico que revolucionou a história da música do séc. XX. Na técnica dodecafônica, Adorno antevia, utopicamente, a sociedade de homens livres sonhada por Marx (1818-1883)

No final, a autora conclui que nem a obra de arte surrealista, nem a música dodecafônica podem dar conta da interpretação filosófica sem os preceitos da sociologia marxista e da psicologia freudiana.

Antes de passar a uma tradução livre do texto ( situando cronologicamente os autores citados para efeito de contexto histórico) é pertinente conhecer alguns detalhes sobre a obra de Schönberg, já que ela foi tão determinante no pensamento filosófico de Adorno (1903-1969).

A música de Schönberg

Schonberg foi um pesquisador da obra do alemão Wilhelm Richard Wagner(1813-1883) , o mais influente músico do século XIX, criador do drama musical que destacava a ação teatral sobre a música. Vivendo em plena idade de industrialização e burguesia como se caracteriza a segunda metade do seu século, Wagner era um tradicionalista e empregou todos os recursos musicais do passado para realizar o ideal musical do Romantismo, daí ter sido amplamente aceito pela burguesia e ferrenhamente combatido pela ideologia liberal da época. Levando o cromatismo típico da música romântica às últimas conseqüências, Wagner chegou, em Tristão e Isolda, às fronteiras do sistema tonal.

Shönberg partiu do cromatismo de Tristão e Isolda para chegar ao Atonalismo e, depois, ao Dodecafonismo, sendo considerado legítimo representante do Modernismo na música. Sua pesquisa levou à abolição das fronteiras entre as tonalidades, até que não existissem mais tonalidades diferentes e sim uma única escala de 12 tons: o Atonalismo. Mas o Atonalismo poderia degenerar em caos. Era necessário estabelecer novas regras de composição sem tonalidades, da mesma maneira que se necessitou de novas regras quando a música evoluiu do sistema monofônico ( como o cantochão ou canto gregoriano, a una voce, do séc. VI ) para o sistema polifônico, com arquiteturas de 30 e mais vozes ( séc. XV). As novas regras configuraram o Sistema Dodecafônico, ou música serial, que é a arte de tratar séries de 12 tons, cada uma das quais inspirando uma obra musical inteira. As obras mais significativas dessa fase de Schönberg são os concertos e a ópera Moisés e Abrão.

O Dodecafonismo veio a ser o mais forte movimento musical do mundo, com adeptos devotados em todos os países, apesar de, no seu tempo, Schönberg ter sido aceito mais como teórico do que como criador. Deixou inúmeros escritos. Refugiou-se nos EUA quando a Alemanha nazista anexou a Áustria em 1938.

Agora sim vamos ao texto de Susan Buck-Morss:

A Experiência Estética

Os escritos de Adorno assemelham-se a uma obra musical por sua densidade de textura, complexidade na composição, inversão e variação do motivo temático. Ele rejeitava a dicotomia entre ciência e arte surgida com a revolução newtoniana no séc. XVII, quando os campos da arte e do conhecimento, da mera ficção e da verdade fática haviam se dividido em campos opostos, ficando os iluministas do séc. XVIII com o partido da ciência. Adorno não aceitava a idéia de transformar a filosofia, de investigação científica, em uma forma artística.

Os filósofos iluministas hostilizavam a arte por não considerá-la uma forma de verdade em si mesma, mas apenas uma ferramenta pedagógica, um meio de persuasão moral. A arte vista assim pelos iluministas era uma arte secularizada, portanto desprovida de sua aura como símbolo teológico.

Essa arte transformou-se em plataforma para a propaganda política nas revoluções burguesas, como se vê na estética marxista de Lukács (1885-1971) e Brecht, quando usam a arte como meio de instrução política, portanto como conhecimento.

Ao desafiar o princípio dualista, Adorno escreveu em 1939: "Toda arte que merece consideração séria aproxima-se do objetivo da racionalidade por sua própria estrutura e tende cada vez mais para o conhecimento".

No sistema hegeliano reconhecia-se na arte uma função cognitiva racional, mas ela (a arte) era relegada a uma esfera inferior em comparação com a filosofia. Kierkegaard (1813-1855) já havia condenado o modo estético de experiência vivida a um nível menor em comparação com a espiritualidade.

Opondo-se ao idealismo racionalista e ao existencialismo, Adorno sustentava que a experiência estética era, na realidade, a forma mais adequada de conhecimento porque nela sujeito e objeto, idéia e natureza, razão e experiência dos sentidos estavam intercalados, sem que nenhum dos pólos predominasse, proporcionando, afinal, um modelo estrutural para o conhecimento dialético, materialista. Kant (1724-1804) já havia antecipado essa posição mediadora da arte entre o pensamento e a prática.

Adorno foi buscar na composição e na execução musicais sua apreciação sobre o valor cognoscitivo da experiência estética. Seu orientador, Schönberg, era, até certo ponto, um romântico e rechaçava a noção do artista-gênio, vendo no artista um artesão.Ele via na música não a expressão da subjetividade, mas uma busca do conhecimento que se erigia fora do artista, como um potencial do objeto, o material musical. Para ele, compor era descobrimento e invenção através da prática do fazer musical. Seu objetivo era o conhecimento da verdade.

Ao sustentar que a produção estética não era expressão ( nem racional, nem irracional) da subjetividade, o procedimento de Schönberg, na verdade, assemelha-se à ciência.

Ao mesmo tempo, os cientistas contemporâneos de Schönberg, teóricos da nova revolução científica, reconheciam que sua própria atividade tinha poucas afinidades com o racionalismo atual do positivismo científico e do formalismo lógico, e que, ao contrário, como "construção" objetiva e verdadeira da racionalidade, convergia para a arte.

O positivismo científico havia se transformado no selo distintivo do marxismo oficial. Mas até 1931 Adorno havia tido acesso aos recentemente descobertos manuscritos econômico-filosóficos de Marx e deve ter-se impressionado com a semelhança entre a concepção da dialética do trabalho como experiência cognoscitiva no jovem Marx e a concepção da experiência estética da composição de Schönberg. Nas duas, os processos de criatividade e de conhecimento, de produção e de reflexão, eram iguais.

Portanto, quando Adorno baseava sua filosofia marxista na experiência estética, seu objetivo não era "estetizar" a filosofia ou a política, mas reconstituir a relação dialética entre sujeito e objeto que acreditava a base estrutural correta de todas as atividades humanas: conhecimento, práxis política e arte. Neste sentido, tanto a filosofia como a arte tinham uma função moral-pedagógica, a serviço da política e não como propaganda manipuladora, mas ensinando com o exemplo.

O Surrealismo

Walter Benjamin também estava convencido de que a experiência estética era fundamental para a compreensão filosófica correta. Mas seu desenvolvimento intelectual e o lugar a que chegou não eram iguais ao caso de Adorno.

Influenciado por experiências místicas e religiosas, Benjamin sentiu-se atraído pela estética de Friedrich Schlegel, de Novalis e outros românticos alemães. Sustentava que as duas operações da filosofia crítica, pensamento ( consciência ) e pensamento sobre o pensamento ( reflexão crítica ou autoconsciência) tinham seu paralelo na estética de Schlegel através da criação da obra de arte, por um lado, e de sua interpretação crítica por outro.

Isto significava que o ato de interpretação era necessário para completar a obra de arte, porque só nesta segunda operação se fazia manifesta a verdade da obra de arte, sua idéia. A crítica literária era, então, em si mesma, revelação cognoscitiva. Para os primeiros românticos, apontava Benjamin, a crítica era "um conceito totalmente esotérico", algo "que descansava sobre premissas místicas em relação ao conhecimento. Novalis considerava os textos como "hieróglifos" e "códigos", cuja interpretação dependia de uma linguagem sagrada que só uns poucos podiam ler. A arte, que alcançava sua concretude com a crítica, convergia para a filosofia e para a religião, enquanto revelação da verdade, segundo os primeiros românticos que influenciaram Benjamin.

Mas, a partir de 1926, após ler o texto surrealista de Louis Aragon "Le paysan de Paris", Benjamin ficou vivamente impressionado. O livro utilizava uma linguagem sagrada para retratar o amor sensual e glorificava o profano como origem da verdade revelada, combinando elementos dos extremos do misticismo e do materialismo, que formavam, agora, os pólos do pensamento de Benjamin.

Enquanto elemento estético, o surrealismo parecia muito mais compatível com os propósitos do filósofo frankfurtiano que o Romantismo do período burguês anterior. O livro de Aragon se transformou na inspiração de seu estudo sobre a Paris do séc. XX, sobre o qual Benjamin trabalhou pelo resto de sua vida. Em 1927 começou a passar certo tempo em Paris, o centro do movimento surrealista. Em 1929, escreveu que o surrealismo demonstrava a verdadeira superação criadora da iluminação religiosa, agora transformada em "uma iluminação profana de inspiração materialista, antropológica…"

O próprio fundador do surrealismo, André Breton, proclamou, em 1926, a solidariedade do movimento com o partido comunista, ainda que, a exemplo de Adorno e seus amigos, tenha continuado independente, sem uma filiação real.

Influenciado – como Benjamin – pela cabala, subscrevendo entusiasticamente a teoria freudiana ao mesmo tempo que abraçava o marxismo ao fundar o movimento surrealista em 1924, Breton via na arte um conhecimento crítico que implicava um pedido de ação. "Transformar o mundo, disse Marx, ´transformar a vida´, disse Rimbaud (1854-1891). Ambos os objetivos são um só para nós", proclamou Breton.

Anarquista inconformado e estrategista cujo objetivo era fazer explodir a arte para mudar o mundo antigo pelo novo, Breton defendia a reconciliação do sonho com a realidade "em um tipo de realidade absoluta, uma surrealidade". Acreditava na transformação da sociedade de acordo com os desejos humanos, levando ao pé da letra a frase de Marx: "Então se verá que o mundo possui há muito tempo o sonho de uma coisa, da qual basta tomar consciência para possuí-la realmente".

Era a técnica artística do surrealismo que fascinava Benjamin. A arte surrealista retratava os objetos cotidianos em sua forma material, existente ( sendo "exata" neste sentido literal ), mas, ao mesmo tempo, esses objetos eram transformados pelo fato mesmo de sua apresentação como arte através da colagem de extremos remotos e antitéticos.

As obras de arte surrealistas – protótipos das imagens dialéticas de Benjamin – iluminavam a verdade não-intencional através da justaposição de "duas realidades distantes", da qual surgia "uma luz particular…a luz da imagem", como escreveu Breton no primeiro manifesto surrealista.

Depois de ler uma novela de Herman Hesse (1877-1962) em 1927, Benjamin sentiu-se impelido a documentar não apenas os sonhos em seus escritos, mas a fazer experiências alucinógenas registrando, de 1927 até 1934, suas sessões com uso de haxixe, ópio e mescalina. Em seu testamento, entretanto, concluiu que "a verdadeira transcendência criativa da iluminação religiosa não reside nos narcóticos".

A experiência com as drogas era especialmente significativa para a secularizada teoria da "aura" dos objetos de Benjamin. Emanada da superfície dos fenômenos e revelando a essência interna, esta aura se tornava visível, dentro da "zona de imagens" das drogas, e podia ser reproduzida na tela do artista como nos quadros tardios de Van Gogh (1853-1890). O objetivo das imagens dialéticas de Benjamin era capturar a aura também no texto escrito.

A Crítica ao Surrealismo

Em 1930 Adorno criticou a incorreção do modelo surrealista pela natureza essencialmente estática das "imagens dialéticas" ( que Benjamin chamava de "dialéticas em repouso" ), embora não escondesse seu entusiasmo pela representação crítica da fragmentação e decadência da realidade burguesa, elogiando, por exemplo, no mesmo ano, a primeira ópera surrealista, de Brecht: Mahagonny.

Porém, dentro das técnicas surrealistas existiam certos impulsos do movimento e de sua adoção de Marx e Freud (1856-1939) que eram diretamente incompatíveis com a concepção de Adorno. Especificamente, violando seu compromisso prévio com a desmitificação, o surrealismo afirmava o irracional: intencionalmente entrava em cumplicidade com o encantamento, e isto se manifestava tecnicamente no imediatismo da representação em suas obras de arte. As montagens surrealistas eram conjuntos aleatórios de objetos existentes em sua forma imediatamente dada, isto é, reificada. Se sua justaposição casual era interpretada de alguma maneira, certamente não o era em termos marxistas, quer dizer, como manifestações da realidade sócio-histórica, e sim em termos do significado projetado pelo sujeito. No entanto esses mesmos significados eram reproduzidos na arte surrealista como " uma fotografia do pensamento".

Seguindo o princípio freudiano da livre associação, o projeto surrealista era "escrever rápido, sem nenhum tema preconcebido; tão rápido que não se possa recordar aquilo que se está escrevendo, nem tentar reler aquilo que já foi escrito".

O próprio Freud via nisto só a metade do processo de iluminação da verdade. Não só a imagem do sonho e sua associação, mas também a interpretação dessa configuração de elementos, conectada com as experiências conscientes do sujeito, eram necessárias para revelar uma lógica oculta no interior do absurdo manifesto. "Nos escombros do mundo do surrealismo, o em-si do inconsciente não se revela", criticou Adorno em 1956, registrando que o surrealismo agrupava os elementos do sonho sem resolvê-los e, portanto, suas imagens eram "fetiches mercantís" nos quais se contemplava a libido, sendo seu verdadeiro modelo a pornografia.

Decididamente, portanto, o surrealismo não era dialético. Ele fundia sujeito e objeto na imagem artística e não revelava, como queria Adorno, os antagonismos que caracterizavam sua mediação mútua. No surrealismo, o papel do artista como sujeito se reduzia à recepção passiva das imagens. O perigo consistia em que essa arte não alcançaria a objetividade materialista desejada, apenas proporcionaria o reflexo mágico do mundo das aparências.

Brecht percebeu essa falha do surrealismo e, em seu teatro épico, insistia na reformulação, transformando as técnicas surrealistas em ferramentas dialéticas como meio para a educação política.

Mas Adorno achava isto difícil devido ao grau de contaminação do surrealismo pelo irracionalismo. Em resposta aos esforços de Benjamin no sentido de trabalhar com o surrealismo como modelo para a filosofia materialista, Adorno publicou um ensaio, em 1934, sobre Schönberg como "compositor dialético".

Se o artista surrealista procurava fundir sujeito e objeto transformando-se em um meio passivo através do qual o material do inconsciente se expressava na realidade empírica, se, como resultado, as imagens surrealistas eram reificadas e "não-dialéticas", então, sustentava Adorno, Schönberg, como compositor, não era somente o meio, mas o mediador ativo em um processo dialético entre o artista e seu material.

Enquanto no surrealismo uma fantasia anárquica, arbitrária, convergia para a tendência aparentemente oposta da duplicação do dado, intensificando a mistificação mais que desenvolvendo-a, Schönberg desenvolvia o material até o ponto de sua inversão dialética: A tonalidade levada a seus extremos resulta na Atonalidade que desmistificava a música demonstrando que as "leis" tonais não eram naturais nem eternas.

Para Adorno essa reversão permitia a reapropriação autoconsciente dos meios de "produção" musical, precisamente o objeto do projeto marxista. Segundo ele, esse caráter inerentemente revolucionário de demolir a tonalidade da música burguesa implicava também uma reversão da função externa, social, da música, transformando-a de uma função ideológica em uma crítica. A própria estrutura das composições de Schönberg proporcionava a "imagem de uma música liberada" e Adorno chegou a ver nesta imagem a visão utópica da sociedade, uma sociedade sem classes, de homens livres, como queria Marx. Ele se referia à liberação dos 12 tons da dominação do tom dominante, que o conduzia, não à anarquia, mas à construção da fileira dodecafônica, na qual cada nota tinha um papel igualmente significativo, embora único, na totalidade musical, análogo aos cidadãos iguais, embora não idênticos, na desejada sociedade sem classes.

O ensaio de Adorno guarda clara correspondência com a composição dodecafônica de Schönberg. Por exemplo:

1. Afirmação da fileira tonal: "Toda história é natural" ( e, portanto, transitória);

2. Reversão da fileira: "Toda natureza é histórica" ( e, portanto, socialmente produzida);

3. Inversão da fileira: "A história real não é história" ( e sim pura reprodução da segunda natureza);

4. Inversão retrógrada: "A segunda natureza não é natural" ( porque renega a transitoriedade histórica da natureza).

Se Adorno desenvolvia suas idéias filosóficas do mesmo modo que Schönberg desenvolvia suas idéias musicais, e se cada um de seus ensaios era construído através de todas as permutações possíveis entre pólos opostos, mostrando a identidade das contradições ( a história é natural ) e a contradição das identidades (a história não é histórica ), então também era certo, até por sua decisão de não permitir que qualquer um dos aspectos do paradoxo dominasse o todo, que a estrutura de seus ensaios pode ser lida como a mimesis de uma estrutura social, livre de dominação.

Será este, talvez, o momento positivo oculto na "dialética negativa" de Adorno?

Em cada ensaio, precisamente por sua incessante negatividade, será, talvez, o emblema utópico, a secreta afirmação?

Pelo menos é indiscutível a significação para Adorno de um procedimento cognoscitivo correto entendido como uma estrutura ou "modelo" que pode ser traduzido de modos diferentes e domínios diferentes do discurso intelectual. Daí que pudesse ver paralelismos entre a estrutura da composição em Schönberg e o procedimento analítico freudiano.

Em 1966, na Negative Dialektik, Adorno escreveu: "Uma filosofia que imitasse a arte, que aspirasse a se definir como obra de arte, eliminar-se-ia a si mesma".

Adorno criticava a relativização da diferença entre arte e ciência. Para ele, a divisão entre ambos era uma necessidade histórica que não podia ser suprimida: A ciência não devia ser "estetizada" nem a arte devia ser fato científico. Sustentava, dialeticamente, que enquanto "experiências" subjetivas do objeto, arte, ciência e filosofia tinham estrutura dialética similar. Porém, enquanto processos de conhecimento, cada uma era diferente.

Para ele a estética surrealista era ainda menos adequada que o romantismo de Schlegel e Novalis – os quais insistiam em que o conteúdo da verdade da arte não emergia até que ela fosse criticamente interpretada. A música, como modelo, não apresentava os mesmos problemas. Sua modalidade era diferente da imagem artística. Esta condensava o material, enquanto aquela o desenvolvia. Enquanto a imagem artística existia já pronta, a música devia ser reproduzida, traduzida do texto escrito ao som, e isto significava que devia ser pensada, "interpretada" para poder existir.

Mas a música era limitada como modelo de estudo, pois o meio da filosofia era a linguagem e sua prática "a crítica da linguagem". A exemplo da linguagem, a música se compunha da "sucessão temporal de sons articulados que são algo mais que meros sons" e "a sucessão de sons está referenciada na lógica: pode ser correta ou incorreta. Seu procedimento interpretativo era diferente: "Interpretar a linguagem significa entender a linguagem, interpretar a música significa fazer música".

Na verdade, os modelos estéticos, música ou imagem artística, não podiam carregar todo o peso da prática filosófica. Todavia, o que a estética proporcionava era um corretivo para o racionalismo positivista e pseudo-científico que violentava o objeto consumindo-o dentro de um esquema conceitual reificado. Mas a interpretação filosófica não podia ir além da aparência imediata da realidade sem a teoria e os conceitos desenvolvidos pelas ciências, especialmente pela sociologia marxista e a psicologia freudiana.

Ciência e arte, conceito e imagem, análise e expressão formavam os dois pólos da atividade filosófica. A filosofia não superava suas diferenças em uma falsa síntese. Ao contrário, existia no interior da tensão entre ambos e tornava frutífera esta tensão para poder dizer a verdade sobre o mundo.

A título de Sumário

O texto de Susan Buck-Morss mostra, claramente, que tanto Adorno quanto Benjamin tinham a preocupação de procurar o motivo que impede o homem de ser feliz. É exatamente este o relevante serviço que a filosofia presta à humanidade, quando discute os mais diferentes métodos para explicar a vida. A própria autora conclui, entretanto, que nem a música de Schönberg, por mais revolucionária, nem o onirismo surrealista ou a fuga para o mundo das drogas são capazes de estruturar tamanho projeto sem contar com o amparo de teorias mais consistentes, citando, por exemplo, o marxismo e a psicanálise.

No texto "O Mal-Estar da Civilização", de 1930, Freud também procura encontrar uma explicação para os problemas da humanidade, considerando justa e pertinente tal preocupação: "Quando, com toda justiça, consideramos falho o presente estado de nossa civilização, por atender de forma tão inadequada às nossas exigências de um plano de vida que nos torne felizes, e por permitir a existência de tanto sofrimento, que provavelmente poderia ser evitado; quando, com crítica impiedosa, tentamos pôr à mostra as raízes de sua imperfeição, estamos, indubitavelmente, exercendo um direito justo, e não nos mostrando inimigos da civilização". Ele cita o poeta e filósofo alemão Schiller (1759-1805), para o qual "são a fome e o amor que movem o mundo". Para os comunistas, acrescenta Freud, a culpa seria da propriedade privada, mas – ele logo completa – antigamente não havia propriedade privada nos termos atuais e mesmo assim as pessoas não pareciam mais felizes. Para a igreja, o problema estaria no pecado e o que disso resultou foi um enorme sentimento de culpa coletivo que não ajuda em nada na busca da felicidade.

Então o fundador da Psicanálise estuda outra hipótese: o que prejudica o homem no seu relacionamento com as pessoas e consigo mesmo é sua natural agressividade: "Chega a hora em que cada um de nós tem de abandonar, como sendo ilusões, as esperanças que, na juventude, depositou em seus semelhantes, e aprende quanta dificuldade e sofrimento foram acrescentados à sua vida pela má vontade deles". Mas o homem não tem como se livrar da competição e da agressividade porque "a inclinação para a agressão constitui, no homem, uma disposição instintiva original e auto-subsistente, sendo ela o maior impedimento à civilização", esclarece Freud.

Em seguida ele explica porque a civilização evolui apesar de tanta "hostilidade de cada um contra todos e de todos contra cada um: "O significado da evolução da civilização não mais nos é obscuro. Ele deve representar a luta entre Eros e a Morte, entre o instinto de vida e o instinto de destruição, tal como ela se elabora na espécie humana. Nessa luta consiste essencialmente toda a vida, e, portanto, a evolução da civilização pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela vida".

Freud também observa, na sociedade, que a busca do prazer é o objetivo principal, mesmo que para tanto o indivíduo tenha que se submeter às regras sociais: " No processo de desenvolvimento do indivíduo, o programa do princípio do prazer, que consiste em encontrar a satisfação da felicidade, é mantido como objetivo principal. A integração numa comunidade humana, ou a adaptação a ela, aparece como uma condição dificilmente evitável, que tem de ser preenchida antes que esse objetivo de felicidade possa ser alcançado".

Na visão de Freud, o homem não tem como escapar dessa "roda viva" em busca da felicidade: " Assim como um planeta gira em torno de um corpo central enquanto roda em torno de seu próprio eixo, assim também o indivíduo humano participa do curso do desenvolvimento da humanidade, ao mesmo tempo que persegue seu próprio caminho na vida".

E quando todos – não apenas os frankfurtianos – estão melancólicos diante da impossibilidade de chegar à plena felicidade sobrevivendo num mundo tão injusto e bárbaro, Freud conclui: "Não tenho coragem de me erguer diante de meus semelhantes como um profeta; curvo-me à sua censura de que não lhes posso oferecer consolo algum, pois, no fundo, é isso que todos estão exigindo, e os mais arrebatados revolucionários não menos apaixonadamente do que os mais virtuosos crentes".

A dúvida que Freud tem, mas nem ele mesmo explica, é:

– Até que ponto o desenvolvimento cultural da espécie humana conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição? Os homens adquiriram sobre as forças da natureza um tal controle, que, com sua ajuda, não teriam dificuldades em se exterminarem uns aos outros, até o último homem. Sabem disso, e é daí que provém grande parte de sua atual inquietação, de sua infelicidade e de sua ansiedade.

Concluindo, o método dialético deve levar-nos à autoconsciência sobre os fenômenos do mundo para que possamos rediscuti-los em novas abordagens e propostas, na luta permanente por um mundo mais justo e, portanto, melhor. Com tal método perceberemos que o mundo em que vivemos é muito mais bárbaro que a Idade das Trevas, quando os bárbaros dividiram entre si o que restou do Império Romano.

Adorno e os frankfurtianos ensinam que é preciso submeter os questionamentos a provas e contra-provas em busca da verdade, ao invés de os tomarmos tal como são ou tal como se nos apresentam à primeira vista

Porque "o todo é falso".

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Viver é como estar num maravilhoso e belo oceano, cristalino-azul-verdejante, de águas profundas, no qual estamos nos afogando (pode chorar!) – de onde nunca sairemos [com vida] – a.t0pos

[Eu diria que a vida se parece com as mulheres: é bonita, atraente e cheia de mistérios – como as danadas – mas isso não pede que ela seja perigosa! AHuaHAHa.]

Acho engraçado… As pessoas falam em “Felicidade” e tal. Dizem que estão a buscá-la e que – ‘um dia hei alcançá-la’. Dizem com se a famigerada fosse algo objetivo. Como se fossem topar com ela, assim de bobeira, tomando uma fresca no bar da esquia; ou dentro do busão, na ida ao trabalho. Ou até num livro de auto-ajuda, o qual as pessoas lêem com ímpeto (e fé!), como se ao terminar a última frase e fechar o volume – ao levantar a cabeça, a vida da pessoa estará completamente mudada (e pra melhor!).

 

Sonho Impossível

(J. Darion/M. Leigh – versão de Chico Buarque/Ruy Guerra)

Sonhar
Mas um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar no limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Mão me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

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Apenas o primeiro parágrafo – texto completo em PDF clicando no link: dialetica-negativa-como-perspectiva-para-o-pensamento

Um dos cernes da polêmica que venho empreendendo até agora no presente trabalho é a imagem esclarecida da objetividade enquanto mera atualidade radicalmente outra que o sujeito e o pensamento. Em lugar de tal imagem, Hegel pretende indicar que a objetividade e o pensamento encontram-se intrinsecamente relacionados. No entanto, verifiquei que seu programa para tanto consiste em
estabelecer a imagem de uma identidade entre o pensamento e a realidade; no âmbito de meu estudo sobre a subjetividade nos Capítulos I a IV da Fenomenologia, compreendi que este programa tende à realização através de um ataque à própria forma da diferença entre o pensamento e aquilo para o que ele se dirige. Como vimos, na passagem para além da figura do Cético, no Capítulo IV,
este ataque se apresenta como um repúdio ao contraste ou jogo entre a imagem intelectual da realidade e de si mesmo, de um lado, e a consciência da variedade do que é meramente mundano, de outro. Ora, o próprio repúdio em si depende, dialeticamente, do movimento entre os dois extremos, mas Hegel termina propositalmente confundindo este movimento com um dos lados dele: o meramente mundano, a experiência. Hegel, por um lado, não permite que a consciência repouse em sua própria falta de repouso e, por outro, toma o vário em sua unificação como um problema a ser tratado numa perspectiva meramente
gnosiológica.

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O Horóscopo, em verdade, vos diz:

Domingo bom para a criatividade (Deus queira, o que, por sinal, não está acontecendo), pois você está sensível (HeI, dobre sua língua: bixa é você, tá?), captando ondas sutis do infinito (Ai, que romântico… Mas não entendi essa parte… Ah, o que é romântico não é para se entender: é para se sentir!), conectado com o que é preciso  fazer para criar um mundo melhor  e mais aconchegante para você e seus queridos (conectado!? seria com a internet? ou seria com Dostoiévski? Horkheimer, talvez?

Oh, um mundo melhor… Só se esse mundo fosse de… Ah, esqueci a palavra. Mas a idéia é como se fosse um mundo à parte, saca? Aquele que é frágil e seeeeeeempre estilhaça – uma redoma, talvez. Porque o mundo no sentido amplo, meu amigo… Ah, esse tá perdido! É o fim dos tempos – mas não tenha dúvidas! O mundo está acabando – é tanta guerra, tanto tráfico, tanto furacão… Dá medo só de pensar ).

E o Horóscopo continua: Marte entra em Sargitário (UuUui, que pornô! – e além de pornô é Gay, “e homossexualismo é doença, ou sem-vergonhice?”, UhaHa Ah, liga não, esses moralistas são bobos – tanta coisa pra se preocupar, e ficam discutindo o sexo dos anjos: ‘deixa o homi trabalhar’ – ora, já que [Kassab] venceu as eleições: que faça alguma coisa, ‘pelamor de Deus’).

Eo horóscopo diz mais: prometendo mais competições e lutas na profissão (– isso é bom ou ruim? E que profissão!? AUHaHA. Ah é… A de Estudante, HunF! – tá rindo do quê? Dá trabalho, viu? Ademais: a Educação é o futuro do País – xiIIii, então nosso futuro é negro! – é engraçado… dizem isso como se a ‘escuridão’ [o caos] fosse absolutamente ruim.

Eu vejo [o caos, a escuridão, o fim do poço] como a possibilidade de uma renovação, pois como diz meu grande amigo Nietzsche: ‘é preciso o caos, para surgir uma estrela’. Ah, mas tudo bem [que nosso futuro é negro], qual o problema? O futuro dos EUA, também, é negro e ninguém reclama [bom, a não ser a KKK] – AUHaHa, futuro negro! – entendeu o trocadilho!?

Ah, mas é aquele papo: para muitos, tudo o que vem de fora [‘do estrangeiro’, importado], é melhor, inclusive o negro! – o que acontece, no nosso Brasil, é o posto da xenofobia – já notou? – seria algo como endofobia. Acontece de tal forma que – além das importações, envolve as exportações: tudo o que é melhor [destaque] do Brasil é ‘vendido’ para fora: de cientistas, passando pelo café, modelos, e jogadores de futebol).

Bom, agora vou colocar em prática a tal da “criatividade” que os astros prometeram (AHUaHAHa),  e fazer os trabalhos da facul, porque “vo ti conta”, esse semestre tá Russell, AHUaHA tendeu!? Tendeu o  trocadilho???

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A frase “Eu não acredito em Deus” – Proferida por um filósofo existencialista ou por um comunista anacrônico, a declaração não surpreenderia. Mas quem a faz, em meio ao clima atalino dominante, é um pré-adolescente paulistano; O Brasil tem 2,3 milhões de pessoas que se dizem sem religião. Elas são 7,3% da população.

17/12/2002 – 02h59

Crianças que não dizem amém
CYNARA MENEZES
REINALDO JOSÉ LOPES

free-lance para a Folha de S.Paulo

De ascendência judaica por parte de pai e mãe, mas criado em ambiente laico, Leon Guerberoff Gurfein, 12, integra um contingente que, (afirma não acreditar em Deus) embora minoritário, cresce cada vez mais em um país que ainda é considerado a maior nação católica do mundo.

O Brasil entra no terceiro milênio —aguardado como a mais mística das eras— com 12,3 milhões de pessoas que se dizem sem religião. Elas são 7,3% da população. Dados preliminares do Censo 2000, apresentados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostram que os sem-religião cresceram em média 6,7% ao ano na década de 1990. O ritmo só é menos veloz do que o da expansão dos evangélicos, de 8% ao ano.

Para muitas dessas pessoas, o Natal é uma festa apenas familiar. Sé é difícil encontrar quem desconheça o significado religioso do 25 de dezembro, é cada vez menos difícil achar quem não ligue para isso. Leon sabe que os cristãos celebram o nascimento de Jesus, mas definitivamente não se inclui entre eles. "Eu ganho meus presentes e pronto", afirma. Em seu ateísmo convicto, tem as respostas na ponta da língua. Se não foi Deus, então quem criou o mundo? "O mundo se criou sozinho." Não apela para Deus nem nos momentos difíceis? "Não, confio em mim mesmo."

O crescimento do número de jovens como ele, sem credo formal, obrigou até escolas declaradamente confessionais a alterar os parâmetros das aulas de educação religiosa. O proselitismo foi excomungado; o debate, abençoado. O novo catecismo prega a necessidade de conhecer o aspecto cultural da matéria. Não, necessariamente, aceitá-la.

Quem defende a volta do ensino religioso nas escolas públicas também reza por essa cartilha. "A clientela mudou, a sociedade mudou. Infelizmente, e isso me causa até vergonha, ainda há escolas que tocam a sineta para chamar para a missa, mas são minoria", diz o professor Sérgio Junqueira, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná, que coordena o Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (Fonaper) e é irmão da ordem marista.

O fórum, que existe há sete anos, reúne representantes das várias religiões conhecidas e luta pelo cumprimento da lei aprovada em 1997, prevendo a volta das aulas de religião nos colégios públicos, uma vez por semana, sem avaliação para nota. Atualmente, segundo a entidade, Santa Catarina é o Estado onde a aplicação da lei está mais avançada, com o reconhecimento da habilitação em ensino religioso.

Em São Paulo, uma lei aprovada pela Assembléia Legislativa em novembro estabelece que os alunos não são obrigados a frequentar as aulas de religião, que começaram a ser ministradas neste ano na rede estadual, mas apenas na 8ª série do ensino fundamental. Os professores de história, filosofia e ciências sociais foram considerados habilitados a dar as aulas.

Nelas se aprenderia nem tanto a história das religiões, que o Fonaper defende ser incluída no currículo como matéria de história, mas culturas, ritos e tradições, além do conhecimento dos textos sagrados dos vários credos, numa disciplina cujo teor principal seria "discutir a dimensão do transcendente". O próprio professor Sérgio Junqueira reconhece que o maior desafio, hoje, é formar docentes. "Só temos conhecimento de curso de habilitação de professores de ensino religioso em Santa Catarina e no Pará", diz.

Temas tradicionalmente relacionados à religião, como a ética, a solidariedade, o respeito pelo próximo, a moral e a fraternidade, seriam abordados, mas lateralmente. "Os professores de língua portuguesa, biologia ou mesmo de matemática também são responsáveis por transmitir esses valores", defende o coordenador do fórum. "Não é nossa tarefa ser axiológico." Traduzindo: não seria papel dos professores de religião difundir noções como o bem, o belo, a verdade ou o que é sagrado. Especialistas concordam. "Uma moral autônoma é perfeitamente possível", diz o antropólogo Silas Guerriero, da PUC de São Paulo. "Quando se cria uma ética a partir da racionalidade, você passa a considerar que somos membros da humanidade e que, portanto, a agressão a um ser humano é uma agressão a nós mesmos", analisa.

"Se o ambiente que circunda a criança tem seriedade ética, a falta da religião não causará problemas", secunda Geraldo José de Paiva, do Departamento de Psicologia Social da USP.

O sociólogo da religião Antônio Flávio Pierucci, também da USP, vai na mesma linha. "Estamos presenciando uma separação entre ética e religião. As virtudes não são mais religiosas. Ao mesmo tempo, as próprias religiões vão se desinteressando de inculcar princípios éticos e se voltam para o êxtase, os rituais e o senso de comunidade."

Turbiano, agnóstico, com o filho Francisco, 12, que quer fazer primeira comunhão

Pais sem religião também costumam achar importante que os filhos conheçam o assunto para formar suas próprias opiniões. Agnóstico, o arquiteto Ercules Turbiani, 52, está assistindo ao interesse do filho Francisco, 12, pelos rituais da igreja. Com avós católicos praticantes, Chico pretende fazer a primeira comunhão no próximo ano. O pai já concordou ("Seria repressão discordar", diz) e não acharia mau que houvesse, na escola do menino, algo como "história das religiões", embutido em uma disciplina afim —talvez filosofia.

"É claro que aí teriam de entrar passagens pouco edificantes das diversas religiões, como foi a Inquisição para o cristianismo", defende Turbiani. "Também gostaria que fossem abordadas questões como o fato de as igrejas pentecostais associarem a ligação com Deus à capacidade de consumir bens materiais. Coisas do tipo ‘creia em Deus e terá sucesso na vida’", completa.

A crença em Deus nem sempre tem origem no interesse intelectual pela religião. Muitas vezes ela nasce ou se intensifica nos momentos de dificuldades. A fé no transcendente e a fragilidade humana são indissociáveis. As dificuldades nem precisam ser tão graves. É comum que garotos recorram ao Todo-Poderoso na época de provas. "Perto dos exames, nossa sinagoga lota. Depois, esvazia. Estamos lidando com jovens e compreendemos isso", diz o professor Nelson Rozenchan, diretor da área judaica do colégio I.L. Peretz, de São Paulo. A escola, que se define como "judaica, não religiosa", tem aulas obrigatórias de Torá (Bíblia), história do povo judeu e língua hebraica. Mas o professor admite ter muitos alunos ateus.

O mesmo acontece em outras instituições de ensino religioso, como o Colégio São Luís (católico) ou o Colégio Batista (evangélico), ambos paulistanos. "A educação religiosa é uma disciplina como qualquer outra. Produz conhecimento, tem objeto, conteúdo. Não estamos avaliando a fé", argumenta Ceciélio Côrtes, professor de ensino religioso do São Luís. "Trabalhamos sem doutrinar, dentro de um contexto bem ‘light’, com música, teatro. Tem de ser uma aula muito criativa para eles se interessarem", diz Luci Galdino, coordenadora pedagógica do Batista, onde a matéria não vale para nota.

Apesar dessa adaptação do ensino religioso aos novos tempos, o contingente de não-religiosos não pára de crescer. De acordo com Nilza Pereira, pesquisadora do Departamento de População e Indicadores Sociais do IBGE, ainda não há dados que definam o perfil econômico e social desse segmento. Sabe-se que se trata de um fenômeno sobretudo urbano. Nada menos que 90% dos que se consideram sem religião moram em zonas urbanas. Sabe-se também que, no Rio de Janeiro, a proporção dos sem-religião é o dobro da média nacional: 15% da população fluminense. Além desses dados, que não chegam a explicar muita coisa, o resto é mistério. Não se sabe exatamente o que querem dizer esses brasileiros quando se declaram sem religião. Estudiosos do assunto ouvidos pela Folha concordam que, embora haja cada vez menos pessoas identificadas como seguidoras de religiões formais, isso não significa que não tenham sua religiosidade ou que não acreditem em uma força suprema e num Deus criador.

Mais: à margem do que dizem as estatísticas, há uma quantidade não mensurável de pequenos fiéis em lares ateus ou agnósticos. São crianças que sofrem a influência do entorno familiar ou até das pessoas que frequentam a casa, como os empregados domésticos.

Olívia, 7, nem pisca ao responder se acredita em Deus. "Sim." Seu olhar não trai nenhuma dúvida. Os pais dela, Thiago Ribeiro, 24, cineasta, e Thiana Feisthauer, 27, advogada, não tiveram, eles próprios, educação religiosa. Nenhum dos dois é batizado —assim como Olívia ou sua irmã, Nina, 1. Ribeiro é ateu convicto. Thiana acredita em Deus, mas não em "intermediários", isto é, em igrejas de maneira geral. Olívia tem uma babá evangélica. Na convivência com ela, aprendeu que Deus castiga, mas é bom. Sustenta com segurança que Deus e Jesus são a mesma pessoa, embora sejam pai e filho. Não acredita no Diabo, "o Cão de baixo" no dizer da babá, mas tem medo.

Os pais da menina discordam quanto à necessidade de a escola transmitir informação religiosa. "Eu acho que não faz falta nenhuma", diz a mãe. Para Ribeiro, seria bom que as filhas conhecessem um pouco de religião "para compreender o mundo atual". Ele afirma, contudo, que a iniciativa não será dele, mas delas. "Se elas tiverem curiosidade, vamos procurar alguma coisa na internet. Não vou introduzir esse assunto."

É certo que, sem as aulas de religião, o ônus da educação religiosa acaba, de uma maneira ou de outra, recaindo sobre os pais. E a pressão para que as crianças tenham algum tipo de envolvimento religioso, sobretudo em ocasiões com forte apelo social de confraternização, como o Natal, coloca a família numa situação delicada, que precisa ser manejada com cuidado, dizem os especialistas.

"Os pais devem sempre proteger a criança", orienta o professor de filosofia Mário Sérgio Cortella, do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP. A opção deles não deve causar constrangimento aos filhos. E não há motivo para deixá-los totalmente isolados dessas manifestações, argumenta. Mesmo que a família deixe claro que não tem uma escolha religiosa, eles serão capazes de fazer sua própria opção.

Para seu colega de PUC Silas Guerriero, um ensino religioso que privilegiasse a pluralidade só faria bem. "Nós defendemos algo que funcione até para o aluno que não é religioso, algo que lide com a espiritualidade, os valores, a ética, o sentido da vida —independentemente da crença específica", afirma o antropólogo. "Isso seria importante até para quebrar o preconceito que o aluno não-religioso tem em relação à religião e para mostrar que a escolha dele também é uma escolha simbólica, como a dos religiosos."

"Uma idéia errada do transcendente é tão ruim quanto nenhuma idéia", diz o psicólogo Geraldo Paiva, da USP. "Nenhum contato limita potencialidades. Quando bem direcionado, o sentimento religioso pode conduzir a uma expansão do pensamento, do afeto, do empenho e do compromisso. Mas o fanatismo, as idéias unilaterais sobre a religião —como considerar Deus como alguém empenhado em vigiar e punir— vai perturbar o desenvolvimento psicológico e até gerar neuroses", afirma.

Na contracorrente do censo, opções de ensino religioso, formais ou não, começam a aparecer. Um exemplo: há três anos, a Escola Viva, de São Paulo, particular e leiga, resolveu criar um curso de cultura religiosa extracurricular no ateliê de arte e cultura anexo ao prédio. O curso é pago à parte pelos pais interessados em que os filhos aprendam algo de religião. Sua criação foi estimulada pela diretora Inês Americano a partir de uma experiência pessoal com as netas.

"Um dia as levei à missa, e elas me fizeram muitas perguntas", conta a diretora. "Então tive a idéia de criar esse curso, mais para matar a curiosidade dos alunos." As aulas incluem artes plásticas, criação de vitrais, canto gregoriano e visitas aos templos das diversas religiões. Agora, no Natal, os alunos também aprendem a restaurar brinquedos velhos para serem doados a crianças pobres. Para esse aprendizado, as crianças dizem amém.

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com o endurecimento do regime militar no Brasil, no final da década de 1960, igreja e Estado se afastaram.

17/12/2002 – 02h58
No passado, ser cidadão brasileiro era ser católico
CYNARA MENEZES
REINALDO JOSÉ LOPES
free-lance para a Folha de S.Paulo

Durante muito tempo, a formação religiosa no Brasil permaneceu amarrada ao catolicismo. "No Império e no período colonial, não havia separação entre igreja e Estado. Você tinha de ser católico para ser cidadão, e a educação religiosa era dada pela igreja", diz o antropólogo Silas Guerriero, da PUC-SP.

Se o advento da República significou, na teoria, a separação entre as duas esferas, na prática as coisas permaneceram ligadas por muito tempo. Em 1934, sob o governo de Getúlio Vargas, a Constituição aprovada previa uma colaboração entre igreja e Estado. Para ter a igreja ao seu lado, Vargas atendeu a reivindicações católicas, como o ensino religioso facultativo na escola pública e a citação do nome de Deus na Constituição. Mais tarde, com o endurecimento do regime militar no Brasil, no final da década de 1960, igreja e Estado se afastaram. Em 1988, com a nova Constituição, o ensino religioso voltou à ordem do dia. Entidades religiosas, lideradas pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), conseguiram incluir o artigo 210, que prevê: "O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas do ensino fundamental".

Só nove anos mais tarde a lei regulamentando o artigo constitucional seria aprovada. Nas escolas em que é ministrado, o ensino religioso foi se modificando muito nos últimos dez anos. Não é mais, por exemplo, uma disciplina a ser ensinada por padres, pastores ou rabinos. E mudou sobretudo no respeito à opinião do aluno: ao contrário do que diz o adágio popular, religião se discute.

Livre da missão de propagar a fé e de transmitir valores, o ensino religioso se tornaria, no mundo dos que apregoam sua volta, um difusor da prática da tolerância religiosa, cuja carência continua rendendo guerras planeta afora.

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