Em “Ensaio sobre a Cegueira”, Fernando Meirelles deixa o naturalismo dos filmes anteriores e parte para o maior desafio de sua carreira: filmar o abstrato
Elenco internacional personifica personagens vítimas de uma
cegueira branca repentina e inexplicável
Por Heitor Augusto
“Ensaio sobre a Cegueira” é um novo passo na carreira de Fernando Meirelles. Seus três últimos filmes tinham um pé no naturalismo, especialmente “Cidade de Deus” (2002), que reconta ficcionalmente o crescimento do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, e “O Jardineiro Fiel” (2005), que descortina as manipulações da indústria farmacêutica. Ambos estão localizados em um espaço geográfico, com personagens inspirados em pessoas que de fato existiram ou situações reais que poderiam acontecer com qualquer um alçado àquele contexto.
“Ensaio sobre a Cegueira”, que estréia nesta sexta-feira (12/09), é diferente. A começar que a premissa é uma limitação (ou desafio) intrínseca à linguagem cinematográfica: filmar uma situação abstrata. Adaptação do livro homônimo de José Saramago, a história se passa em um não-lugar. Os personagens não têm nomes, o drama que os envolve – a epidemia de cegueira – é uma parábola, metáfora de uma patologia sociopolítica das loucuras do mundo contemporâneo.
Quando publicou o livro, em 1995, o escritor português prenunciou a dificuldade em imaginar os limites de pessoas trancafiadas em um hospital, cegas, isoladas do mundo como infectados de uma epidemia contagiosa, reduzidos a estômago, sexo e briga por espaço. “Nenhuma imaginação, por muito fértil e criadora que fosse em comparações, imagens e metáforas, poderia descrever com propriedade o estendal de porcaria que por aqui vai”, escreveu Saramago.
Meirelles colocou em imagens o limite humano. Em uma metrópole não identificada, um jovem japonês fica cego, repentinamente, no meio do trânsito. Outro rapaz o ajuda a chegar até a casa, mas rouba seu carro – e fica cego. Um médico oftalmologista consulta uma jovem, uma criança e um velho de venda preta, que viriam a cegar instantes depois. O médico também fica cego. A única que vê é sua mulher. Está formado o núcleo que conduz as ações dramáticas, dilemas éticos e morais do filme.
Os sete são trancafiados em um hospital como medida de prevenção tomada pelo governo. Sobreviver sem a visão torna até mesmo atos simples, como urinar, uma tarefa complicada. Sem revelar que enxerga, a Mulher do Médico ajuda seu marido a organizar a ala onde vivem e manter o mínimo de dignidade e higiene entre eles. Com a chegada de um cego “mais esperto” na ala oposta, o respeito sai de cena para dar lugar à disputa por comida. O conflito vira a palavra de ordem.
Mesmo com personagens zumbis, o tema político, concentrado na metáfora da cegueira coletiva, sobressai-se. “Eu me perguntava como o espectador iria se identificar com um filme que fala de uma epidemia que não existe e nunca vai existir, numa cidade e regime genéricos, com personagens que não têm história e sequer nomes”, reflete o diretor Fernando Meirelles. “O fato de termos alguns atores conhecidos ajudou um pouco, pois apesar de os personagens não terem um passado, os atores trazem algo de sua carga pessoal para eles, dando-lhes algumas referências”. Entre os atores que deram pele aos personagens estão Julianne Moore (“As Horas”), Danny Glover (“Manderlay”), Gael García Bernal (“O Passado”), Alice Braga (“Cidade Baixa”) e Mark Ruffalo (“Zodíaco”).
Um filme de personagens
O núcleo central é formado por personagens complexos, nem bons, nem ruins. Nem heróis, nem vilãos. No cinema, eles ganharam mais corpo na discussão moral do caos da humanidade, enquanto, na literatura, Saramago adota um estilo seco e descritivo da luta pela sobrevivência (nem sempre honesta) e da latrina ambulante em que se transforma o hospital onde os cegos estão isolados.
A Mulher do Médico (Julianne Moore) inicialmente é apresentada como alienada à realidade externa e uma parceira inseparável do marido. Quando todos ficam cegos e ela se torna a única a enxergar, seu personagem ganha uma nova camada, assumindo uma maturidade inesperada e liderança necessária, sem abandonar o companheiro.
Longe de ser perfeita e exemplar, é apenas uma mulher com olho em terra de cegos. “Eu e a Julianne lutamos o tempo todo para que sua personagem não virasse uma heroína. No início do filme ela é meio tola e parece viver apenas para o marido; o mundo que vê é estreito. Quando vai para o asilo, demora a perceber que pode mais do que imaginava. Aos poucos vai assumindo a liderança não por ser uma heroína, mas por não ter outra opção, como ela mesma diz. Se passamos a impressão de ela ser uma heroína é porque erramos em alguma coisa”, avalia Meirelles.
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Os personagens “maus” são pintados com tintas assustadoras em vez de serem descritos como vilões tradicionais. “Sou sempre favorável a colocar áreas cinzas nos personagens”, diz Meirelles. Um deles é o Rei da Ala 3, interpretado por Gael García Bernal, personagem que entra no meio da trama e que é um dos responsáveis por tirar a tranqüilidade até então presente na Ala 1 (liderada pelo Médico e sua mulher). Inesperadamente, o Rei reúne um bando de cegos a seu favor e impede o acesso dos membros de outras alas do hospital à comida, ameaçando-os com um revólver.
“No livro, ele entra na história como uma pessoa má, por isso pensei no início em chamar um ator mais velho com pinta de bandido para fazer o vilão. Pensei novamente e decidi chamar o Gael justamente para ir em direção oposta. O Gael é um jovem boa praça e boa pinta que tendemos a gostar. Meu Rei da Ala 3 não é um bandido, é apenas um garoto normal que provavelmente também se surpreende ao se ver e descobrir do que é capaz. Não gosto nem um pouco dos personagens só pretos ou brancos, bons e maus. Os personagens ambíguos me pareceram além de mais ricos também mais assustadores do que os que são meramente maus.”
Outro personagem que no filme assume uma camada além do livro é o Médico, interpretado por Mark Ruffalo. Apesar de apresentar-se como o líder da Ala 1, depende quase que integralmente das ações de sua mulher – a única que enxerga. Defensor da paz e do consenso, assume, não raro, uma aura inocente, também presente na Mulher dos Óculos Escuros, interpretada por Alice Braga – única brasileira do elenco.
O centro filosófico de “Ensaio sobre a Cegueira” é o Velho da Venda Preta, que ganhou traços de maturidade e experiência na interpretação de Danny Glover. O Velho entra no meio da trama, e todas as suas ações são planejadas, pois é o único cego com capacidade de “olhar” ao redor e avaliar qual o caminho a seguir. “O Homem da Venda Preta parece o mais tranqüilo, pois de certa forma ele é quem melhor compreende o que se passa ali dentro. Aquela venda dele é bem simbólica. Ao entrar no asilo ele já era meio cego, então já vivia num mundo onde as aparências da superfície não cegavam a sua compreensão. Um mundo mais ‘interno’, digamos assim”, analisa o diretor.
Para filmagens em São Paulo, produção fechou todo o centro
da cidade, espalhou lixo pelas ruas e trocou nomes de placas
Filmagens no Brasil, Japão e Canadá
Desde a publicação do livro, José Saramago relutou em vender os direitos de adaptação. Uma das frases atribuídas a ele é “o cinema destrói a imaginação”. Mas o roteirista Don McKellar (“O Violino Vermelho”) e o produtor Niv Fichman, ambos canadenses, conseguiram convencer o escritor. E chamaram Fernando Meirelles para a empreitada.
A produção, cujo orçamento é de US$ 25 milhões, envolveu Brasil, Canadá e Japão, com cenas rodadas, em 2007, nos três países e também na cidade de Montevidéu (Uruguai), reforçando o caráter de metrópole genérica. Em São Paulo, cidade que abriga as cenas nas quais os cegos acabaram de ser libertados do hospital, houve um forte trabalho de pré-produção para dar ares de “terra arrasada”. Placas foram substituídas, transformando o Viaduto do Chá, região central, em W 30rd Street. Lixo cinematográfico foi espalhado pelas ruas e toda a região do Anhangabaú teve o acesso bloqueado. Moradores chegaram a reclamar do transtorno.
* Vídeo: Assista ao trailer do filme
Para quem está acostumado com as ruas paulistanas, não haverá dificuldade em identificar o cenário. Porém, o esforço é para torná-lo genérico, pois os personagens são trancafiados em um hospital localizado no Canadá, perambulam pelas ruas de São Paulo e entram em uma casa em Montevidéu para comer e se proteger dos cegos famintos.
Um dos aspectos que auxiliaram o diretor a dar à imagem e às situações o ar metafórico da cegueira foi a fotografia, assinada por César Charlone, parceiro de longa data com quem Meirelles trabalhou em “Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”. Charlone recorre a móveis claros, cores frias, iluminação nos objetos brancos e à dilatação da luz até torná-la totalmente branca, com textura de leite. O ambiente criado por esses mecanismos permite ao espectador compartilhar com os cegos a “cegueira branca” descrita por Saramago e apropriada por Meirelles no filme.
Na montagem, outra parceria com Daniel Rezende, iniciada em “Cidade de Deus”. Responsável por trabalhos como “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias” e “Tropa de Elite”, Rezende teve sua montagem identificada com velocidade e cortes secos. Ele nega o rótulo. “Boa montagem não se mede apenas pela quantidade de cortes”, afirma. Para “Ensaio sobre a Cegueira”, diretor e montador deram outro ritmo, deixando o frenesi de lado para dar ao espectador tempo de reflexão e absorção do choque das situações na tela.
Pessoas que não enxergam
Na sua primeira exibição mundial, na abertura do Festival de Cannes deste ano, o filme teve uma boa recepção do público. A crítica internacional, porém, dividiu-se. A revista “Variety” chamou-o de “superelaborado, mas submotivado”, posição semelhante à do britânico “Telegraph” e do francês “Le Monde”. Do lado oposto da trincheira estão o britânico “The Guardian” e o norte-americano “Los Angeles Times”, que escreveu: “Meirelles combina com talento o cinema comercial com consciência social”.
Não é cheio de aventuras como “O Menino Maluquinho 2” ou bem-humorado como “Domésticas”, nem agitado e frenético como “Cidade de Deus”. Também não tem o drama político em primeiro plano como em “O Jardineiro Fiel”. “Ensaio sobre a Cegueira” carrega um quê de low profile, com picos dramáticos, que não foram feitos para deixar o espectador em êxtase. “É um filme meio frio no começo. Muitas pessoas que o assistiram duas vezes disseram que gostaram mais da segunda, talvez pelo fato de já conhecerem os personagens e se relacionarem mais facilmente com eles ao assistirem de novo”.
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Ao menos, o espectador mais cativo, o autor do livro, gostou. Saramago não viajou a Cannes para assistir a projeção por estar doente. Meirelles, então, se deslocou a Lisboa para mostrar o resultado a ele – a reação do escritor foi registrada pelo filho Quico e foi parar no YouTube. “A projeção foi feita a partir de um DVD, num daqueles projetores mequetrefes que usam para projetar publicidade. Confesso que ao ver o nome do cinema que nos arrumaram em Lisboa, Cine São Jorge, já fiquei desconfiado, e ao entrar constatei que a sala era mesmo do tempo em que São Jorge ainda enfrentava o dragão”, ironiza.
A fotografia tão trabalhada para ambientar a “cegueira branca” foi para o espaço. “A imagem era mais lavada que as escadarias do Bonfim; nas cenas escuras não se via nada além de um cinza homogêneo cobrindo tudo. O som 5.1, que levou quatro semanas para ser mixado, foi comprimido em duas caixinhas escondidas atrás da tela e não chegava nem na metade de onde deveria chegar”. Mesmo assim, o resultado foi além do esperado. No fim da projeção, Saramago diz: “Fernando, me sinto tão feliz ao ver esse filme como estava quando acabei de escrever o livro”.
O escritor português, na epígrafe do livro, cita um fictício Livro dos Conselhos: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Meirelles não acredita que um filme tenha essa potência. “Se um filme pudesse modificar a esse ponto uma pessoa, estaríamos muito bem (ou muito mal, dependendo do filme). De qualquer maneira, acho que este é aquele tipo de filme em que vale você se imaginar na situação dos personagens e se perguntar: ‘se ninguém estivesse olhando, estupraria ou trocaria sexo por comida?”. Meirelles reflete um pouco mais e propõe uma nova resposta. “Quem se colocar no lugar dos personagens pode descobrir alguma coisa sobre si mesmo. Pensando assim e contradizendo o início desta resposta, quem sabe um toque de um filme possa mudar algo em alguém também?”. Vale aguardar até a estréia para que cada espectador descubra sua própria cegueira.
Créditos – Revista de Cinema em 11/9/2008 12:23:11
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