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Archive for the ‘Dostoiévski’ Category

Texto muito interessante, que compara Dostoiévki, com seu enrredo caótico e circular (como uma banda de Death Metal!?); e Tonstói, o qual versa seus comances de forma harmoniosa (como uma sinfonia!?). Mas (MANUEL DA COSTA PINTO) faz isso, não sem antes dar uma “apanhado geral” das literaturas alemã e francesa (cita, inclusive, a nossa Clarisse lispéctor). O autor do artigo nos dá, inclusive, um panorama (e comparações) dos principais livros (e suas personagens), tanto de Dostoiévki, quanto de Tolstói. [o texto é grande, mas vale a pena 😉 ]

Avaliar a obra de um escritor por meio de comparações com outros autores é, na esmagadora maioria das vezes, uma confissão de fracasso de quem não consegue explicar para outros (e para si mesmo) as razões de sua identificação profunda com esta ou aquela obra. Afinal, é perfeitamente possível ler Camões sem citar Petrarca, chorar com Racine e rir com Molière ou recitar Drummond sem excluir João Cabral da estante.
Fotos Reproduação

Fiódor Dostoiévski (1821-1881) e Liev Tolstói (1828-1910)

Mas a história da literatura oferece alguns exemplos raros de escritores que sempre se apresentam associados ao espectro complementar de um "duplo": é o caso de Voltaire em relação a Rousseau, de Goethe em relação a Schiller, de Balzac em relação a Stendhal e, sobretudo, de Tolstói em relação a Dostoiévski, autor cujas obras vêm sendo sistematicamente editadas no Brasil em traduções feitas diretamente do original russo.

Todos eles giram, com seus respectivos pares, em torno dos mesmos problemas, que são as linhas de força de cada época: a oposição entre racionalismo e natureza no Iluminismo francês, a estetização do sujeito e o panteísmo transcendental do romantismo alemão, a tensão entre a energia individual e a força alienante das relações econômicas no realismo do século 19.

A diferença, quando se fala de Tolstói e Dostoiévski, é que eles são a síntese, o apogeu e, simultaneamente, a dissolução desse processo de constituição (e de representação literária) do que entendemos por sociedade moderna. Praticamente todos os temas presentes nas obras de Rousseau, Schiller ou Stendhal (o "bom selvagem", a aspiração ao sublime, as verdades parciais da vida afetiva) reaparecem de modo concentrado em seus livros. Antes de Tolstói e Dostoiévski, podia-se, sem grandes dificuldades, classificar a literatura segundo categorias como "romance picaresco", "romance social", "romance psicológico" etc. Porém, obras como "Crime e Castigo" (de Dostoiévski) ou "Ana Karênina" (Tolstói) reúnem em suas personagens —e muitas vezes em uma única personagem— todo o mosaico possível de acepções do humano: os abismos interiores de desejo e culpa, os determinismos materiais e a tentativa de transcendê-los social e espiritualmente, as utopias políticas e religiosas, a fronteira tênue entre sanidade e demência, lucidez e possessão.

Aquilo que os une, no entanto, é justamente o que os separa. A percepção do drama humano em sua totalidade fraturada, que se verifica tanto em Tolstói quanto em Dostoiévski —e que faz da literatura anterior uma espécie de pré-história da arte de representar a pluralidade do real—, tem soluções que designam aos dois escritores russos papéis praticamente antagônicos na história da literatura. Tolstói é o remate perfeito da épica burguesa, da arte do romance; Dostoiévski aponta para sua falência e ultrapassamento. Romances monumentais como "Guerra e Paz" e "Os Irmãos Karamázov" são, respectivamente, o panorama e o apocalipse de uma era.

Nesse sentido, Dostoiévski é muito mais contemporâneo dos apocalipses cotidianos de nosso tempo do que Tolstói. É difícil encontrar na literatura universal um sucedâneo da escrita aristocrática do autor de "A Morte de Ivan Ilitch" (o mais forte candidato seria Thomas Mann, não por acaso autor de um ensaio intitulado "Goethe e Tolstói").

Em contrapartida, um livro como "Memórias do Subsolo"—que foi lançado também pela Editora 34, com tradução de Boris Schnaiderman— gerou uma profusão de personagens "subterrâneas" que ruminam sua inadaptação visceral ao mundo em monólogos autodestrutivos, desconstruindo qualquer ilusão de reconciliação do homem com a sociedade e com a natureza. Há referências evidentes a "Memórias do Subsolo" na forma alegórica do conto "A Construção", de Franz Kafka, na personagem da peça "Dias Felizes", de Samuel Beckett (que passa o tempo todo enterrada em um buraco), no diálogo sem interlocutor de "A Queda", de Albert Camus, e no monólogo existencial de "A Paixão Segundo G.H.", de Clarice Lispector —o que por si só dá uma idéia do impacto de Dostoiévski sobre diferentes momentos da literatura do século 20.

Mas "Memórias do Subsolo" teve importância, acima de tudo, no interior da própria produção dostoievskiana, projetando-se sobre seus quatro romances de maturidade: "Crime e Castigo", "O Idiota", "Os Demônios" e "Os Irmãos Karamázov". Cada um desses livros mereceria um artigo à parte, mas a recente publicação de "O Idiota" pela Editora 34 (688 págs., R$ 54; da mesma editora, "Crime e Castigo", 568 págs., R$ 49, "Memórias do Subsolo", 152 págs., R$ 23, "Niétotchka Niezvânova" 224 págs., R$ 25, e "O Crocodilo e Notas de Inverno sobre Impressões de Verão" 168 págs., R$ 23), em tradução do original russo feita por Paulo Bezerra (que também traduziu "Crime e Castigo"), acaba lançando o foco sobre aquela que talvez seja a mais complexa personagem de Dostoiévski: o príncipe Míchkin.

Comparado aos outros três romances citados acima, o enredo de "O Idiota" oscila entre a ingenuidade e a banalidade. "Crime e Castigo" é um romance policial estruturado a partir de uma espécie de "assassinato filosófico" (o herói, Raskólnikov, comete o crime para provar sua superioridade moral); "Os Demônios" é um retrato das disputas ideológicas no seio de um grupo de revolucionários e "Os Irmãos Karamázov" é um drama familiar tecido ao redor do tema mítico do parricídio.

Já "O Idiota" é a história, aparentemente sem grande complexidade narrativa, do retorno do jovem Míchkin à Rússia, após vários anos de internação na Suíça (para tratamento da epilepsia), e de seu envolvimento em um triângulo amoroso no qual os outro dois vértices são Rogójin (um devasso perdulário que dilapida a herança paterna) e Nastácia Filíppovna (uma mulher ao mesmo tempo ultrajada e altiva, além de arrebatadoramente bela).

Mas o que importa no romance, como de resto em qualquer obra de Dostoiévski, é a criação de um cenário ficcional em que tudo conflui para uma esfera que poderíamos chamar de "escatológica" (entendida aqui no sentido da discussão teológica sobre o fim dos tempos e o juízo final). Essa dimensão apocalíptica, religiosa, impregna cada frase ou ação das personagens de "O Idiota". Míchkin é uma espécie de iluminado que cativa ao primeiro olhar com sua simplicidade e parece ver através da alma alheia. Mas sua ingenuidade e pureza quixotescas, que tangem a idiotia, não o impedem de, logo na primeira cena, no trem que o leva de volta à terra natal, conhecer Rogójin e penetrar na trama passional que este e Nastácia vivem, percebendo ali um desejo de expiação e de exercício do "mal" em estado puro que transforma essas figuras sensuais em emanações arquetípicas, em encarnações da essência degradada do homem após a "queda".

A partir daí, o romance se desenrola em uma sucessão de cenas vividas por uma miríade de personagens que constituem uma espécie de afresco da Rússia do século 19: seres mesquinhos e frívolos como Gánia (o pretendente de Nastácia) ou Aglaia (o amor "terreno" e, por isso, inviável do príncipe Míchkin); figuras acanalhadas (como Totski, Liébediev ou Fierdischenko) e moribundos desesperados (como Hippolit, o jovem tísico e jacobino que faz um longo discurso anunciando seu suicídio para uma audiência desinteressada).

São personagens que se digladiam, discursam, gritam, agonizam, defendem idéias com a mesma intensidade com que vivem paixões carnais; vão do reles ao sublime num piscar de olhos. Por trás de cada uma das cenas de escândalo social que se desenrolam ao longo de "O Idiota", o leitor percebe a atmosfera de horror metafísico que aguarda Míchkin, Rogójin e Nastácia no epílogo narrativo. É como se Dostoiévski fizesse de cada bêbado, agiota ou seviciador que desfila diante de nossos olhos uma fresta pela qual vislumbramos uma redenção sempre adiada.

Aliás, esse é um dos traços estilísticos mais marcantes de Dostoiévski: fazer com que as questões metafísicas mais pungentes se imiscuam na vulgaridade das ações ordinárias (conservando assim seu realismo) e, ao mesmo tempo, fazer com que encontros miraculosos e cenas improváveis, dignas dos romances de folhetim, adquiram uma gravidade tal que pareçam ser a consequência lógica de um universo que caminha para a consumação.

Tudo nos romances dostoievskianos está às portas do juízo final. Daí o paroxismo de cada gesto e a extrema compressão espacial e temporal de "O Idiota". A cena da festa na casa de Gánia (em que cada personagem expõe suas piores iniquidades e que termina com Nastácia lançando ao fogo o pacote de dinheiro com o qual Rogójin queria "comprá-la") seria inconcebível em qualquer romance naturalista, nos quais personagens de origens sociais diferentes só convivem em espaços públicos e no qual as separações de classes se fazem sentir o tempo todo.

Em Dostoiévski, porém, um simples cubículo é capaz de comportar nobres, burgueses, funcionários públicos, estudantes e vagabundos que debatem acaloradamente entre si —todos envolvidos em questões metafísicas que pairam acima das determinações materiais e das segregações entre o público e o privado.

Da mesma maneira, toda a ação da primeira parte do livro (cerca de 200 páginas!) se desenrola ao longo de um único dia, arrastando o príncipe por uma quantidade inimaginável de experiências, como se nada pudesse ser postergado, como se cada ação tivesse um caráter de urgência, como se todo movimento guardasse uma promessa só atingida em momentos de intensidade sobre-humana (a exemplo dos ataques de epilepsia de Míchkin).

Essa compressão do espaço e do tempo aponta para um fato desconcertante: o grande escritor realista era no fundo um místico, no sentido bizantino do termo, leitura defendida pelo filósofo Luiz Felipe Pondé em livro que será lançado no início do próximo ano ("Crítica Religiosa a um Humanismo Ridículo: uma Introdução à Filosofia da Religião em Dostoiévski", Editora 34).
Reprodução

Camponeses russos no final do século 19

O que isso significa exatamente? A crítica tradicional muitas vezes interpretou sua conversão ao cristianismo ortodoxo como um fato político: depois de militar no Círculo Petratchévski (grupo de socialistas utópicos) e ser preso por conspirar contra a vida do czar, Dostoiévski foi condenado à morte em 1849, tendo a pena comutada para quatro anos de prisão na Sibéria quando já estava diante do pelotão de fuzilamento (na verdade, a cena toda fora uma perversidade das autoridades, já que a comutação havia sido concedida por Nicolau I antes da data prevista para a execução).

Alquebrado pelos anos de degredo, Dostoiévski teria transferido da política para a religião seu sentimento de revolta, dando conotações messiânicas a sua adesão ao movimento eslavófilo (uma forma de nacionalismo que contrapunha a pureza da alma russa ao desenraizamento provocado pela ocidentalização da Rússia). A religião, todavia, não teria conseguido sufocar seu anarquismo essencial, e a prova disso estaria na parábola do Grande Inquisidor, episódio alegórico (narrado em "Os Irmãos Karamázov") no qual Cristo retorna à terra e é preso pela Igreja Católica espanhola porque sua mensagem de liberdade seria insuportável para o homem. A Igreja Católica, segundo uma interpretação recorrente, seria aqui uma metáfora de todos os poderes temporais, incluindo o czar (que Dostoiévski se furtara de atacar para não se ver novamente enredado em problemas políticos).

Embora consistente, essa leitura deixa num plano meramente instrumental ou ideológico o misticismo de Dostoiévski e, aqui, a intervenção de Pondé é preciosa, pois desvenda no escritor russo uma dimensão "vertical" (ou sobrenatural) sem a qual a crítica da auto-suficiência humanista, contida em um livro como "Memórias do Subsolo", seria incompreensível ou meramente patológica. O anônimo e irascível narrador dessa novela, que do fundo de sua tocaia investe contra "os palácios de cristal", as quimeras construídas pelo "homem de ação", seria simultaneamente um instantâneo do estado de agonia do homem na natureza e uma abertura para as visitações do transcendente.

Essas "visitações" não ocorrem em "Memórias do Subsolo", mas despontam ao fim de "Crime e Castigo" (com a redenção de Raskolnikov) e nas crises de epilepsia do príncipe Míchkin, esses momentos de iluminação mística, de experiência interior de Deus, que se dão justamente a partir da doença e da desagregação da natureza (na qual um cientificismo estreito gostaria de nos encerrar).

O anticlericalismo de Dostoiévski, dentro dessa perspectiva, não seria uma defesa política da Igreja Ortodoxa contra a igreja de Roma, mas a expressão de uma teologia negativa, bizantina, que evita a pretensão dogmática dos escolásticos (que buscam em vão "provar" a existência de Deus) e percebe o sobrenatural a partir de nossa disfunção essencial e da própria incapacidade de descrever ou contemplar um Deus entrevisto pelo homem em seu exílio "vertical".

Essa leitura, longe de destituir o valor propriamente literário de Dostoiévski, ajuda a compreender melhor o caráter antiestetizante e antiliterário de obras como "Memórias do Subsolo", "O Idiota" ou "Crime e Castigo" —cujas asperezas e redundâncias são recuperadas pelas traduções de Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra, sepultando as versões feitas a partir do francês (que suavizavam a escrita dostoievskiana).

É conhecido, por exemplo, o repúdio de Tolstói ao estilo "mal-acabado" dos romances de seu "duplo" literário. Também Tolstói tinha uma preocupação com o desenraizamento do povo russo e pregava o retorno à simplicidade da igreja primitiva e aos valores da vida camponesa —uma fuga do mundo tematizada no livro "Padre Sérgio" (publicado pela Cosac & Naify Edições em tradução de Beatriz Morabito, 128 págs., R$ 30; da mesma editora, "O Diabo e Outras Histórias", 284 págs., R$ 35).

Mas, em Tolstói, as crises religiosa, política (sua renúncia aos privilégios de nobre latifundiário) e até mesmo estética (sua rejeição da arte ao final da vida) são expressão das frustrações de uma utopia inspirada em Rousseau (e, portanto, "ocidentalizante"). A crítica ao "homem inútil"—contida em "A Morte de Ivan Ilitch"— deságua no vazio sem consolo do humanista confrontado com a morte e com um mundo que lhe escapa por entre os dedos. Algo bem diferente, portanto, da superação metafísica que se antevê ao final de "Memórias do Subsolo".

Enquanto escreveu, Tolstói jamais conseguiu se libertar de seu próprio talento literário. Em nenhum momento ele consentiu em transgredir as regras da grande arte como forma de superação de suas limitações: quando a arte se demonstrou incapaz de transformar o mundo, abdicou dela. Mesmo "Ana Karênina", que deveria ser uma condenação da vida "mundana", se desdobra em dois enredos paralelos (a história da adúltera Ana Karênina e do camponês aristocrático Liévin) que resultam numa sinfonia perfeita e fazem da protagonista uma figura feminina cuja complexidade consegue suplantar até mesmo a Emma Bovary de Gustave Flaubert.

Comparado a Tolstói, portanto, Dostoiévski é o avesso do artista que lança um olhar olímpico sobre a realidade. Seus livros de enredo caótico e o discurso circular de suas personagens não estão a serviço da representação do existente ou da autonomia do objeto estético, mas de uma outra ordem, mais obscura e transcendente —por isso Joseph Frank deu ao quinto e último volume de sua biografia do escritor russo (que vem sendo editada no Brasil pela Edusp) o título de "Dostoiévski: o Manto do Profeta".

Obviamente, é preciso cautela quando se lê um escritor a partir de um recorte extraliterário. Mas talvez se possa dizer que Dostoiévski foi o profeta de todas as convulsões que marcaram a história da literatura depois sua obra.

Manuel da Costa Pinto, 36,é jornalista, editor da revista "Cult" e autor de "Albert Camus – um Elogio do Ensaio" (Ateliê Editorial). Tentou aprender russo para ler Dostoiévski no original, mas desistiu na terceira aula.

17/12/2002 – 02h43
As duas faces do romance russo
por: MANUEL DA COSTA PINTO
especial para a Folha de S.Paulo

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u246.shtml

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Porque – de fato – vale a pena.

Querido diário: hoje fui na Festa do Livro, foi muito legal e …. AHUaH – to brincando…

A Festa estava cheia! – odeio isso: a maior disputa para conseguir os objetos de desejo. Fiquei o maior tempão esperando “O Idiota” aparecer. E eu não podia chegar em casa sem “Os Demônios” – não podia, de jeito nenhum! Então me agarrei ao “Fausto” e comecei a namorar “Niétotchka Niezvânova” – o nome é feio, mas o conteúdo, meu amigo… hehe.

Confira o horário de funcionamento, bem como, a lista de editoras, aqui

Mas “Os Demônios” não saia de minha cabeça – fiquei impaciente (enfurecido) e comecei a desejar “A Morte de Ivan Ilitch” – mas desejei com fundo mesmo, com todo meu ser! Fiquei chateado em pensar que não encontraria “O Grande Inquisitor”… Então não pensei duas vezes: abracei “Os Irmãos Karamazov” – mas abracei com força – e não larguei mais: os dois, de uma vez só, por 50 reais!? Imagine!

Mas “ O Idiota” não vinha… “está chegando, tá chegando”, diziam. E isso fez com que eu ficasse carente, e todos os outros já não faziam mais sentido. Então saí à procurar “ANNA KARENINA” (“Niétotchka” – ficou com ciúme e, juntamente com “A Dama do Cachorrinho…” fizeram o maior escândalo. Mas eu conversei com ela, e ficou tudo bem (mulher é assim: é só tomar “A teoria do Romance”, que se sabe como lidar) . E “A dama do cachorrinho…”!? – ah… essa aí deixei de lado: eu a pego na próxima vez… HehEhe). Resolvido os conflitos corri atrás da “Anna Karenina” – Oh… E nada de encontrá-la… Tentei pegar “O Caminho de Swann” – e quem sabe, apartir dele, eu alcançaria ela!? Oh, doce “Ilusões perdidas” – ficaram todos para trás… Uma lástima!

Ah, mas parei de lamentar… Ora! O que adianta ficar “Em busca do tempo perdido”? – pois é: nada! Então pensei: “ deixo esses para depois; vou voltar na 34, e não saio de lá sem ‘O Idiota’” – eu ia fazer o maior escândalo – porque eu já estava com “Os Demônios”!! – afinal de contas, aqueles livros eram o sonho de “Minha Vida” (Tchekhov! – dei um espirro!), em seguida pisei no pé de uma mulher, não deu outra: “Crime e Castigo” – ela ficou brava, mas lembrei que já tinha, pedi desculpas, e deixei pra lá.

Por fim, depois de passar pela “Duas Cidades” cheguei na “34” – e adivinhe quem estava lá a me esperar!? Isso mesmo: “O Idiota”, e acompanhado por “Um Jogador” – mas o último… bom, ele é meio perigoso, então o evitei – deixei de canto…

Bom, somando tudo foi uma maravilha – mas a brincadeira foi cara… Fiquei devendo até minha alma (o pior é que ela não vale muita coisa…). E para se perder naquele mar de volúpia é fácil: cheque pré, détito automático (Visa e MasterCard) – dá até para parcelar! (bom, sozinho você não sai da Festa – eu graranto!)  Pois é, mais um “Fausto, uma tragédia” financeira – e só de pensar que essa foi, apenas, a primeira parte… Mas amanhã terei a “Segunda parte da tragédia”, mas não tenha dúvidas – nem que seja a última coisa que eu faça! E é tudo culpa (influência) daquele “Um Jogador” de uma figa. Ah, meu amigo, mas amanhã… Ah! amanha eu volto lá e pego ele – ah se não pego – daí vai ter “Assassinato e outras histórias” na certa – pode escrever! E eu saio (de lá) com a “AnnA KareNinina”, em meus braços – má nem que seja arrastando pelas orelhas!

Cheguei em casa um caco, o maior trânsito, o maior peso – foi uma verdadeira odisséia! Tomei banho, mas quando fui dormir… “Niétchka” me pegou de jeito… Tentei resistir – JURU. Mas a olhei, ela estava daquele jeito – não pensei duas vezes: a despi e mandei brasa – pelo nome você não dá nada, mas – meu amigo!!! – ao pegar na sua lombada, tão delicada, deitar suas costas na mesa e abrir suas partes íntimas… Nossa!!! Que volume! – estou zonzo até agora!

Bom, mas não vejo a hora de chegar amanhã: espero ainda ter crédito (e quem sabe um paitrocínio), porque hoje eu deixei até minhas cueca por lá (sic) – na verdade não deixei, bem que tentei, mas ela estava furada, daí o rapaz não gostou. Bom, espero em Deus, que amanhã seja “A divina Comédia”, espero que ainda tenha, né? e tudo dará certo! Bom, isso se “O diabo e outras histórias” não atormentar minha cabeça…

Boa noite, já que a minha será maravilhosa – porque a famigerada “Niétochka” fez referência à “Mulher abandonada”, e “Os Irmãos…” está, juntamente com “Fausto”, louco para entrar na brincadeira – au, au, au: vai rolar o bacanal, AHuaHAHa

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“Ele escreve sobre algo em que não acredita”, disse Tolstói; “este paraíso na terra, que Dostoiévski não define de outra forma, será ele Cristão?” – indaga Pierre Pascal                          

Ao se ler hoje a obra de um grande autor, vem imediato a pergunta do quanto dela ficou, o quanto permanece válida em nossos dias que se vêem continuamente desapossados de tantos dos valores do passado. De Fiódor Dostoievski (1821-1881), fica o estilo mais que atual, pois, como se sabe, não apenas escrevia de forma muito ágil – inicialmente para se manter dentro dos prazos dos editores, pois dependia dos adiantamentos para sobreviver, e depois por hábito – mas, uma vez esboçados, ele costumava ditar seus textos que, muitas vezes, nem pareciam revisados. Além disso, tal como Tchekhov, em alguns de seus contos, ele mimava a maneira de se expressar característica de cada personagem. O tradutor de Os irmãos Karamázov, Paulo Bezerra (veja mais sobre o tradutor aqui), comentou as suas dificuldades com a fala do irmão ilegítimo Smerdiákov, cheia de artimanhas, de modo que o resultado era uma linguagem muito viva, e o é agora, felizmente, sem aquela homogeneização a que era submetida via traduções indiretas. Fica a engenhosidade dos romances: neste, o último, iniciado dois anos antes da morte do autor, ele conseguiu reunir todas as vertentes de sua arte. "É um romance policial psicológico, como Crime e castigo; é, quanto a Dmítri, a história de um idealista mal julgado, como O idiota; é, quanto a Ivan, o romance dos intelectuais ateus, como Os demônios; é, quanto a Aliocha, a história da formação de um (homem) novo, como O adolescente" (Otto Maria Carpeaux , prefácio à edição da Ediouro, com tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes).

"Permanece a inteligência da urdidura, a universalidade dos temas, o gigantesco das personagens" (Joseph Frank, O manto do profeta – Edusp 2008), mas permanece também a pergunta, por sinal reforçada por Freud em Dostoiévski e o parricídio, de 1928: "Como é que o primeiro Dostoiévski, o de Gente pobre, exaltado pelo crítico populista Bielínski e condenado à morte (depois comutada) pelo czar por seu socialismo utópico (a crença num mundo melhor, nessa terra), se transforma no último Dostoiévski, submisso a esse mesmo czar, amigo do seu temível conselheiro K. P. Pobedonóstsev, invocando a fé não apenas nos valores morais cristãos, mas nos seus pressupostos sobrenaturais, como os proclamados por Aliocha na última página do romance "a única coisa que podia dar um sustentáculo seguro?". A resposta de Freud, que não vamos comentar aqui e que implica sado-masoquismo e sentimento de culpa, é – como a grande maioria das suas grandes respostas – brilhante, apesar dos pequenos deslizes que o tempo revelou (não há certeza de que tenham sido os servos revoltados a matar o pai de Dostoiévski, como não era o abutre, mas sim o milhafre, a ave simbólica de Uma lembrança infantil de Leonardo da Vinci).

A resposta que dá o contemporâneo e, num certo sentido, rival, Lev Tolstói, (sete anos mais jovem que Dostoiévski, mas que morreu 29 anos mais tarde), ao escritor Maksím Gorki que o visita, já ancião, na Criméia (3 Russos- Martins-Martins Fontes, 2006) é seca e contundente: "Ele escreve sobre algo em que não acredita".
Já Otto Maria Carpeaux propõe uma interpretação (aristotelicamente) dialética: "O romance Os irmãos Karamázov passa-se em dois níveis diferentes. Embaixo, a Rússia dos Karamázov, envolvida nas névoas da paixão sexual desenfreada, das bebedeiras e orgias, do crime mascarado e da justiça cega, das filosofias subversivas e das visões satânicas; o diabo aparece em pessoa para conversar com Ivan, que, por sua vez, dirige a mão do parricida. Em cima, o convento, luminoso como um reflexo de glória celeste. Essa dicotomia representa a visão dostoievskiana do futuro: o cristianismo salvará a Rússia (não o da Igreja de Roma, porém); e a Rússia fará o cristianismo vencer no mundo. Eis a mensagem de Dostoiévski, que ele lança contra a mensagem escondida na filosofia de Ivan e de todos os Ivans que esperam que a revolução salvará a Rússia e que a Rússia salvará o mundo. Pelo seu romance, afirma Dostoiévski que a primeira tese, a sua, é evangélica e que a outra é satânica. Mas não escapa à inteligência insubornável do escritor o fato de que as duas teses são, no fundo, idênticas: basta trocar um substantivo para transformar uma na outra". Outros críticos e filósofos chegaram a uma descoberta próxima. Em Dostoiévski e a consciência cristã, hoje (1971), Pierre Pascal pergunta: "Mas este paraíso na terra, que Dostoiévski não define de outra forma, será ele cristão?”

Os autores que trataram dessa noção em Dostoiévski vêem nela uma sobrevivência do antigo entusiasmo dele pelo "socialismo utópico". Bem, dentro da polifonia dos romances dostoievskianos, a fala que mais impressiona o leitor, no livro, é a do "herético" Ivan Karamazóv, embora – quem sabe – a fala do autor se escondesse atrás das palavras do puro Aliocha. Aí, como provou Bakhtin, está a revolução literária do autor Dostoievski – não é a voz dele a que necessariamente se impõe. Ivan das torturas infligidas às crianças, Ivan que recusa o bilhete desse mundo de Deus, Ivan que compõe A lenda do grande inquisidor. Ainda mais paradoxal, as sementes de trigo da epígrafe produziram fruto sim, mas curiosamente, no sentido oposto ao que Dostoiévski esperava. O "nosso pobre povo" quer o Milagre, o Mistério e a Autoridade em que se apoiar, enquanto o deus Capitalismo – o que o narrador execrava na figura do velho pai hedonista, Fiódor Pávlovitch Karamázov – continua regendo os destinos do mundo, até sua utópica derrocada.

Aurora F. Bernardini é professora de pós-graduação em Literatura Russa da USP

Por: Aurora Bernardini

Fonte: Revista Cult

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Domingo, 05 de Outubro de 2008

Atenção!!! O ministério da saúde se diverte – esse texto contém spoilers!!!

Quem, afinal, matou o velho Karamázov? É o mais rico dos livros de Dostoiévski e nele aparecem os temas que atormentavam o autor nos últimos anos de sua vida.

Texto  escrito por Boris Schnaiderman, que infelizmente faleceu no inicio de 2016 aos 99 anos. (Publicação original).

Os Irmãos Karamázov, que sai agora em tradução do russo por Paulo Bezerra, é certamente o mais rico dos romances de Dostoiévski e aquele em que aparecem de modo mais incisivo os problemas vitais que o atormentavam nos últimos anos de vida. Os grandes temas da sociedade russa na época e também os grandes temas do homem no mundo surgem ali numa trama admiravelmente urdida, que tem algo de romance policial. Quem matou, afinal, o velho Karamázov? Todos os indícios apontavam para um dos três irmãos, Dmítri, o impulsivo, o incontido, embora o verdadeiro assassino fosse Smierdiákov, um criado da casa, também filho do patrão, mas com a mendiga Lisavieta Smierdiáschaia, isto é, a Fétida, pois era como a chamavam.

Dá pena resumir assim aquela trama, que é simplesmente magnífica e serve de arcabouço a todo um mundo de idéias e sentimentos, com uma intensidade rara em toda a literatura.

Nesse sentido, adquire especial ressonância a conversa entre os irmãos Aliocha e Ivan numa taverna, o primeiro um noviço, que recebera ordem de seu chefe espiritual de ir para o mundo, o segundo, um homem de razão e de análise, de pensamento cortante e expressão incisiva, que apresenta sempre os argumentos mais arrasadores, em contraposição às convicções religiosas do noviço.

Realmente, é extraordinário que um homem tão profundamente religioso como Dostoiévski tenha podido formular as objeções mais categóricas que é possível apresentar a um crente. No capítulo A Revolta, Ivan relata uma série de episódios noticiados pela imprensa, em que as vítimas eram crianças entregues à crueldade dos adultos. Aliás, o que ele não teria a dizer-nos hoje, diante dos horrores de nossa crônica policial?

O momento culminante daquele encontro ocorre depois que Ivan narra o caso de um general reformado que vivia em sua propriedade, cercado de tratadores de cães e criados de serviço. Certo dia, um dos cães apareceu com a pata machucada e, interrogados os de casa, constatou-se que o culpado era um menino de oito anos, filho de uma das criadas. O general mandou então reunir todos os seus servos, o menino foi conduzido ao local da reunião e, na presença da mãe, despido e jogado aos cães.

Horrorizado, Ivan indaga então se é possível buscar a harmonia universal à custa das lágrimas de uma só criancinha que seja. E acrescenta: “Não é Deus que eu não aceito, Aliocha, estou apenas lhe devolvendo, do modo mais respeitoso, o meu bilhete de ingresso”.

E é depois desta conversa tão incisiva que Ivan expõe a Aliocha o seu poema não-escrito, O Grande Inquisidor, em que Jesus volta à terra, em Sevilha, no século 16, no dia seguinte a um auto-de-fé em que se queimaram perto de cem hereges. Ele passa no meio do povo, na praça central, e todos o reconhecem. Pratica ali mesmo vários milagres e acaba encontrando o velho cardeal, o Grande Inquisidor. Este ordena que o prendam e vai visitá-Lo no calabouço. Tudo isto para dirigir-Lhe a palavra e dizer-Lhe que era uma ilusão a liberdade que Ele quisera dar aos homens, pois estes somente se sentiam bem na condição de rebanho e só ansiavam dobrar a cabeça diante de uma autoridade.

Esta alocução sobre a liberdade e a conversa sobre o bilhete de ingresso no mundo parecem servir de fundo a toda a trama do romance. E aí aparece, com todo o vigor, o pulso de Dostoiévski como o verdadeiro ficcionista-pensador, insuperável no gênero.

Já se gastaram rios de tinta na interpretação daquelas páginas, mas elas continuam a desafiar-nos com a sua linguagem simbólica. Ademais, é realmente muito rica a galeria de tipos do livro, mas sempre em conexão com o debate de idéias. Num curto preâmbulo, o autor afirma que o mais importante da obra viria num segundo romance com o mesmo personagem central, mas ele não chegou a escrevê-lo. No entanto, inacabado como ficou, este nos desafia com a sua riqueza e profundidade.

Neste sentido, basta lembrar os episódios relacionados com Catierina Ivânovna, a noiva de Dmítri, e Grúchenka, sua companheira de muitas farras. Parece até obsessiva a preocupação do romancista de apresentar personagens femininas que a sociedade considera pecadoras e que possuem grandes qualidades de caráter. Mas Grúchenka, além disso, é muito mais enigmática e complexa do que, por exemplo, Sônietchka Marmiéládova, de Crime e Castigo. Veja-se, neste sentido, toda a seqüência a partir do capítulo As Duas Mulheres Juntas, em que se dá o encontro delas. A passagem em que Grúchenka pula no colo de Aliocha é de uma grandeza única e ali o romancista exibe uma capacidade de penetração humana simplesmente demoníaca. Aliás, as artes do demo parecem tão presentes no livro que sua figura aparece a Ivan, conversando com ele, como algo absolutamente normal e cotidiano.

O romancista afirma que pretendia narrar a vida de Aliocha, mas este acaba aparecendo como um dos protagonistas, essencial sem dúvida, mas tão importante como outros personagens.

A narração tem muito das hagiografias russas, das narrativas designadas como jitié. Aliás, a velha Rússia está muito presente praticamente em cada página, o que traz também a sua marca estilística.

Uma estudiosa atual de Dostoiévski, V. I. Viétlóvskaia, tem um ensaio em que aponta a relação de Aliocha com Aleixo Homem de Deus, santo francês que acabou aparecendo também na Rússia, a partir de fontes bizantinas. Existem em russo diferentes versões desta lenda francesa, mas Dostoiévski acabou baseando-se nas mais antigas, que são em verso, ao contrário das oitocentistas, geralmente em prosa.

Enfim, este romance é um dos poucos textos dos quais se pode dizer: depois de lê-lo, a pessoa não é mais a mesma.

Boris Schnaiderman é crítico literário, ensaísta e tradutor do russo

 

 

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Domingo, 05 de Outubro de 2008

 

Tradutor não tem linguagem, é o personagem que tem; Ao falar, um personagem exibe seu universo cultural e social; é um belo texto de ficção, aquele pai só existiu na cabeça de Freud – pecou por ter utilizado o exemplo errado

Paulo Bezerra coroa seu trabalho com Os Irmãos Karamázov, depois de verter Crime e Castigo, O Idiota e Os Demônios

 

por Francisco Quinteiro Pires

O segredo do bom tradutor se resume em uma palavra. Empatia. Coitado do tradutor que não tem capacidade de sentir o que o escritor sente. E mais coitado ainda do tradutor que se identifica com o que Fiódor Dostoiévski sente. Absorver o que pulsa no universo dostoievskiano não é tarefa para qualquer um. "Traduzir Dostoiévski é um desafio diabólico, ele põe o tradutor em tensão", afirma Paulo Bezerra.

Segundo Bezerra, diferentemente da erudição lingüística de Crime e Castigo, a linguagem de Os Irmãos Karamázov é um "amálgama terrível", por mesclar o russo arcaico com o moderno e por exibir períodos longos, pontuação inusual e voltas sintáticas. "Dostoiévski não transgrediu somente na sua visão de mundo, mas nos padrões da linguagem."

Existe uma carga polifônica, apontada por Mikhail Bakhtin, na narrativa dostoievskiana, onde dois e dois dificilmente são quatro. "Ele é importante porque lança o dialogismo literário, as falas fazem com que as personagens se completem." O tradutor precisa nutrir certa "dose de saudável ilusão" para crer honestamente que está vertendo a essência do texto de Dostoiévski.

Ao falar, um personagem exibe seu universo cultural e social. "A boa escrita não podia ser o canal para uma realidade feia e dura." A tensão da forma é espelho da perturbação psicológica. "A linguagem de Dostoiévski é descosida, reflete o estado do personagem que parece ter levado uma paulada na moleira, sacudindo o sistema nervoso."

Uma das maiores dificuldades da tradução de Os Irmão Karamázov, que durou mais de 3 anos, foi a fala do parricida Smierdákov, filho de Fiódor Pávlovitch Karamázov com a pedinte Lizavieta Smierdiáschaia. "Ele tem uma inteligência terrível, apesar da baixa cultura, e fala por enigmas." Bezerra se valeu da tradução de Boris Schnaiderman feita nos anos 1940, mas renegada, para solucionar as passagens mais complicadas.

A tradução de Paulo Bezerra é considerada integral porque se baseou no trabalho de um grupo de filólogos russos feito nos anos 1970. Os estudiosos estabeleceram o texto definitivo após compará-lo com os manuscritos e as diferentes edições. "Nas traduções brasileiras, havia lacunas formadas pelos tradutores franceses que tiravam as partes difíceis", diz.

As traduções indiretas, a partir do francês, pecavam pelo beletrismo. "A tradução direta do russo não estiliza a narrativa, ela quebra a linearidade lingüística, que suavizava as tensões dos personagens." A última edição de Os Irmãos Karamázov, traduzida por Natália Nunes e Oscar Mendes, é da Ediouro e está esgotada.

Um dos lemas profissionais de Paulo Bezerra, nascido na Paraíba e hoje radicado no Rio, é o compromisso ético com a palavra do outro. "Tradutor não tem linguagem, é o personagem que tem." Bezerra aprendeu russo na extinta União Soviética, para onde se mudou em 1963, aos 23 anos, a fim de estudar ciências políticas. Trabalhando como soldador em São Paulo, no fim dos anos 50, ele se envolveu com o Partido Comunista Brasileiro. Os militares tomaram o poder em 1964 – "Castelo sabia que eu estava lá e deu o golpe para eu não voltar", brinca – e adiaram a volta de Bezerra para 1971, "no reinado da democracia do Médici".

No Brasil, ele estudou letras, tornando-se professor de língua e literatura russa na Uerj, USP e UFF. Traduziu mais de 40 obras, entre elas os 4 dos 5 grandes romances de Dostoiévski: Crime e Castigo, O Idiota, Os Demônios e Os Irmãos Karamázov. Após verter O Duplo, no qual está debruçado, Bezerra vai mergulhar em O Adolescente. Além de Gógol e Soljenítsin, Bezerra já traduziu Mikhail Bakhtin – Problemas da Poética de Dostoiévski e Freudismo.

Considerado um escritor filósofo, capaz de acessar os abismos da alma, Dostoiévski abriu caminhos para Freud, Nietzsche e os existencialistas, como Camus. Baseado em Os Irmãos Karamázov, o pai da psicanálise escreveu o ensaio Dostoiévski e o Parricídio (1928), que se tornou discutível com o tempo.

Freud diz que os problemas psíquicos de Dostoiévski eram causados pelo sentimento de culpa com a morte do pai, Mikhail, homem mesquinho e violento que foi morto pelos servos de sua pequena propriedade rural. "Esse ensaio é um belo texto de ficção, aquele pai só existiu na cabeça de Freud, que pegou o exemplo errado", diz Bezerra.

No primeiro dos cinco livros de sua biografia sobre o autor russo – todos os volumes, da Edusp, já foram traduzidos -, o americano Joseph Frank ataca o ensaio freudiano: fatos revelam que Mikhail não era o demônio em pessoa. A afirmação de que Dostoiévski sentiu remorso por desejar a morte paterna foi severamente questionada. Mas permaneceu inquestionável o fato que lhe despertou tanta angústia: não é fácil ser livre num mundo onde é necessário dispensar atenção ao outro.

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Dostoiéviski mostrou, através de seus personagens, que a consciência não deixava de torturar os indivíduos com seus gritos; se Deus não existe, tudo é permitido

 

Assinada por Paulo Bezerra, chega em novembro tradução direta do russo do romance Os Irmãos Karamázov, último livro de Fiódor Dostoiévski, que aborda os grandes temas da sociedade russa, da essência do homem e de sua literatura

por Francisco Quinteiro Pires

A coisa mais feia deste mundo é a realidade. Se um escritor deseja retratá-la com justiça, é preciso dominar uma forma literária que a copie – não é permitido dispensar a feiúra. Esse poderia ser o manual do escritor ensinado por Fiódor Dostoiévski (1821- 1881). Seu estilo era duro, porque ele via cruamente a aspereza do universo à sua volta.

Até hoje depreciado como um autor de formas literárias rudes, Dostoiévski padeceu com as traduções indiretas feitas do inglês e do francês para o português. A história começou a mudar em 2000, com Memórias do Subsolo, traduzido diretamente do russo por Boris Schnaiderman. O ápice desse processo é a tradução de Os Irmãos Karamázov por Paulo Bezerra. Sob a chancela da Editora 34 e considerado a síntese das criações de Dostoiésvki, esse romance chega às livrarias em 5 de novembro, dentro de uma caixa com dois volumes, com 1.040 páginas e a R$ 98. Esta é a primeira edição efetivamente integral em língua portuguesa.

Última obra de Dostoévski, escrita um ano antes de sua morte, em 1881, o romance é um esboço profético do século 20 e do começo do 21, quando o capitalismo mostrou suas faces mais selvagens. As certezas e as utopias caíram por terra. “No lugar, aparece o novo deus – o mercado”, diz Bezerra. Segundo o tradutor, o autor russo manifestou em toda a sua obra, em especial no Os Irmãos Karamázov, “o poder devastador do dinheiro sobre o psiquismo das pessoas”. Atualmente soa ridículo ter como perspectiva a irmandade universal, no que Dostoiévski apostava. O negócio é guiar-se racionalmente pelo egoísmo, risco que o autor de Crime e Castigo mais temia.

O centro do romance é o questionamento sobre a possibilidade da coexistência da moralidade com a renúncia a um poder sobrenatural. “A grande dúvida está em saber se uma consciência sem Deus leva ao desastre e legitima a tudo”, diz Aurora Bernardini, tradutora e professora da USP. “Parece que o homem não sabe lidar com a liberdade, ele quer a autoridade e o mistério”, arremata. Com o homem do século 21 não é diferente. A consciência humana não se tranqüiliza sem a crença em algo transcendente. A multiplicação de superstições e a força do esoterismo, segundo Bezerra, são um sintoma. O pânico causado pela crise financeira atual é outro.

Paulo Bezerra afirma que Os Irmãos Karamázov não pode ser reduzido à esfera religiosa. Não se pode restringir o enredo à dúvida sobre a imortalidade da alma como garantia da virtude dos indivíduos. “Dostoiévski tinha profundo sentido histórico, via o homem como um sujeito da história, que devia ter preocupação com a imagem deixada à posteridade”, diz Bezerra. Para o tradutor, a preocupação com as coisas deste mundo resulta no comprometimento ético com o semelhante, apesar de os fatos atuais indicarem o contrário: o enfraquecimento dos laços solidários.

Enquanto isso, como Dostoiévski mostrou por intermédio de seus personagens, a consciência não deixava de torturar os indivíduos com os seus gritos. Sua literatura apóia a ação nos momentos de crise e de catástrofe. Seus personagens são conscientes da condição de humilhados e têm voz própria. “Mikhail Bakhtin dizia que Dostoiévski não inventava os personagens, ele os pré-encontrava na realidade”, afirma Bezerra. E, cedo ou tarde, os escrúpulos – etimologicamente as pedrinhas da alma – desses indivíduos começavam a incomodar. O alerta é dado, mas o que fazer depois dele?

A famosa máxima “Se Deus não existe, tudo é permitido” é atribuída a Ivan Fiódorovitch, um dos três irmãos Karamázov (com o primogênito Dmitri e o caçula Alieksiêi, filhos de Fiódor Pávlovitch). Segundo Paulo Bezerra, Ivan é o personagem que mais se aproxima do alter ego de Dostoiévski, de fala erudita, com a qual questiona a existência divina e rejeita este mundo.

Revolta é o capítulo principal de Os Irmãos Karamázov, de acordo com Bezerra. Nele, Ivan rebela-se ao narrar a história de um criança violentada por um general. Não era possível aceitar uma sociedade em que a inocência infantil, manifestação da presença divina, era manchada. Não era mais possível a anulação do homem como agente da própria vontade diante desse crime. Restava ultrapassar o limite, depois do qual o sujeito não é mais um na manada. Mas como é doloroso ser dono de si mesmo!

Dmitri Fiódorovitch Karamázov, segundo Bezerra, é o representante da decadência da nobreza russa. Sua linguagem vulgar e seu desvario psicológico representam a consolidação dos hábitos burgueses. Para Dostoiévski, o egoísmo desses hábitos ameaçava inviabilizar o destino dos homens na Terra.

Quem promove a mediação entre os personagens é Alieksiêi (Aliócha) Karamázov, o homem de Deus. Eleito como herói pelo narrador de Os Irmãos Karamázov, Aliócha é “a medula do todo”. É o procurado pelas criaturas atrás de “algum sentido comum na balbúrdia geral”. Embora acreditasse nos homens, aos quais dedicou amor incondicional, ele não era considerado simplório ou idiota. Aliócha não condenava ninguém, era respeitado por carregar o conhecimento dos recantos da alma humana. Não só compreendia, mas vivia os problemas dos outros.

Aliócha era monge, mas essa escolha não o livrou das contradições do espírito humano nem da sensualidade dos Karamázov. (No russo, Karamázov pode significar negro, castigo ou borrão.) Sua condição o martirizou. Até o fim ele defendeu verdadeiros valores humanos, como a amizade, capazes de justificar a vida neste mundo.

Enquanto suportava suas tormentas existenciais, Fiódor Dostoiévski acreditou que o mundo podia ser mais bonito – havia a possibilidade de redenção. Esta vida bem podia ser o resultado da prática do amor universal: a entrega a todos e a cada um, sem reservas e com abnegação.

Fonte

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Uma árvore de Natal e um casamento (Conto)

Dostoievski

Um dia destes, vi um casamento… mas não, prefiro falar-vos de uma árvore de Natal. Achei o casamento bem bonito, mas a árvore de Natal me agradou mais. Nem sei como, olhando para o casamento, me lembrei da árvore. Eis como o caso se passou.

Há cerca de cinco anos fui convidado, na véspera de Natal, para um baile infantil. A pessoa que me convidou era um conhecido homem de negócios, cheio de relações e maquinações, e, assim, não se há de estranhar que o baile infantil servisse apenas de pretexto para os pais se reunirem e, no meio da multidão, se ocuparem de seus interesses materiais com ar inocente e surpreendido.

Como houvesse chegado ali por acaso e não tivesse nenhum assunto comum com os outros, passei a noite de maneira muito independente. Havia mais um cavalheiro que, como eu, não tinha, decerto, conhecidos no grupo, e participava casualmente da felicidade familiar. Ele deu-me na vista antes de todos. Era um homem alto, magro, muito sério, vestido muito decentemente. Notava-se que a felicidade da família não lhe comunicava a menor alegria; mal se retirava a um cantinho, cessava de sorrir e franzia as sobrancelhas espessas e negras.

Afora o dono da casa, não conhecia vivalma em todo o baile. Via-se que ele se entediava horrivelmente, mas que resolvera manter até o fim o papel do homem que se diverte e é feliz. Soube depois que era um provinciano vindo à capital a algum negócio importante e omplicado. Trouxera carta de recomendação para o nosso hospedeiro, que o protegia, porém, não con amore, e o convidara, por cortesia, para o baile infantil. Não jogavam cartas com o provinciano, ninguém lhe oferecia um charuto nem com ele entabulava conversação, talvez porque reconhecessem de longe o pássaro pela plumagem, e, deste modo, o meu cavalheiro via-se obrigado, para ter que fazer das mãos, a alisar a noite inteira as suas suíças. Eram, aliás, umas suíças realmente belas – porém ele as acariciava com tanto zelo que a gente, ao fitá-lo, sentia-se inclinada a pensar que primeiro vieram ao inundo as suíças e só depois o homem, para cofiá-las, inserido entre elas.

Além desse personagem, que tomava parte na felicidade do dono da casa, pai de

cinco garotos bem nutridos, do modo que acabo de relatar, outro conviva caíra no meu agrado. Mas este era de aspecto completamente diverso. Era um personagem a quem os outros chamavam Julião Mastakovitch. Percebia-se à primeira vista que era ele o convidado de honra. Estava para o dono da casa como este para o cavalheiro que afagava as suíças. o dono e a dona da casa falavam-lhe com amabilidade extraordinária, cortejavam-no, enchiam-lhe o copo, amimavam-no, e lhe apresentavam, recomendando-os, vários convidados, ao passo que a ele não o apresentavam a ninguém. Notei até uma lágrima nos olhos do hospedeiro quando Julião Mastakovitch observou que raras vezes passara o tempo de maneira tão agradável como naquela noite. Comecei a sentir-me acabrunhadíssimo em presença de semelhante figura, e, depois de haver admirado as crianças, retirei-me a um pequeno salão, totalmente vazio, e fui sentar-me sob o florido caramanchão da dona da casa, o qual ocupava quase a metade de toda a peça.

Eram as crianças incrivelmente gentis, e não queriam, apesar de todas as exortações das mamães e das governantas, parecer-se com as pessoas grandes. Num piscar de olhos desmontaram toda a árvore de Natal, e conseguiram quebrar a metade dos brinquedos antes mesmo de saber a quem eram destinados. Achei particularmente engraçado um menino de olhos pretos e cabelos frisados que à viva força me queria matar com a sua espingarda de pau. Entretanto, mais que todos, atraía-me a atenção sua irmã, menina de onze anos, um amor de criança, meiga, cismativa, pálida, com grandes olhos sonhadores à flor do rosto. Parecia que os amiguinhos a tinham ofendido, pois veio ao salão onde eu estava sentado e, a um cantinho. pôs-se a brincar com as suas bonecas. Os convidados apontavam, com respeito, um rico negociante, pai da menina, e alguém observou, cochichando, que ela já tinha trezentos mil rublos reservados como dote. Voltei-me para ver quem se interessava por esses pormenores, e o meu olhar caiu sobre Julião Mastakovitch o qual, de mãos cruzadas atrás das costas e inclinando a cabeça para um lado, parecia acompanhar com particular atenção o mexerico de alguns senhores. Pouco depois, não pude furtar-me a admirar a sabedoria dos anfitriões na distribuição dos brindes às crianças. A menina que já tinha seus trezentos mil rublos de dote ganhou uma boneca suntuosíssima.

Desde então os presentes foram diminuindo de valor, de acordo com a diminuição da importância dos pais daquelas crianças felizes. Afinal, a última’ um menino de dez anos, magrinho, baixinho, sardento e ruivo, ganhou apenas um livrinho de contos sobre as maravilhas da natureza, Das lágrimas da sensibilidade, etc., sem estampas e até sem vinhetas. Filho da governanta dos meninos da casa, uma pobre viúva, era um pequeno muitíssimo encolhido e tímido, metido num pobre paletozinho de nanquim. Recebido o seu livrinho, andou muito tempo à volta dos brinquedos dos outros. Tinha uma vontade imensa de brincar com as outras crianças, mas não se atrevia; claro, já sabia e compreendia a sua situação.

Gosto muito de observar crianças. São sobremodo curiosas as suas primeiras manifestações independentes na vida. Notei, pois, que o menino ruivo se deixava

seduzir pelos brinquedos dos outros, sobretudo pelo teatro, em que ele se empenhava para representar um papel qualquer, a ponto de aviltar-se. Pegou a sorrir para os outros, a cortejá-los, deu a sua maçã a um pequeno gordo que já tinha o lenço cheio de presentes. e até se ofereceu para carregar outro, só para que não o afastassem do teatro. No entanto, poucos minutos após um rapazinho arrogante deu-lhe uma boa surra. o ruivinho nem teve coragem de chorar. Logo

apareceu sua mãe, a governanta, e ordenou-lhe não se intrometesse nos brinquedos alheios. O menino retirou-se para o salão onde estava a menina bonita. Esta o deixou aproximar-se, e as duas crianças entraram a enfeitar a suntuosa boneca. Fazia já meia hora que eu estava sentado no caramanchão de hera, e quase adormecera ao zunzum da conversa entre o ruivinho e a menina dos trezentos mil rublos de dote, que se entretinham a respeito da boneca, quando de repente vi entrar no salão Julião Mastakovitch. Aproveitando a distração dos presentes com uma briga surgida entre as crianças, saíra do salão principal sem fazer barulho.

Notara eu, poucos minutos antes, que ele mantinha animada palestra com o pai da futura noiva rica, a quem mal acabara de conhecer, explicando-lhe as vantagens de qualquer emprego público sobre os demais. Parou à porta, tomado de hesitação, e parecia calcular alguma coisa nas pontas dos dedos.

– Trezentos. . . trezentos – murmurava.- Onze.. . doze.. . treze… até

dezesseis, são cinco anos… Façamos de conta que sejam quatro por cento, são

doze… cinco vezes doze, sessenta; estes sessenta… bem, calculados por alto,

ao cabo de cinco anos serão quatrocentos. Está certo… Mas naturalmente o

malandro não os terá colocado a quatro por cento! Talvez receba oito ou até dez

por cento. Suponhamos que sejam quinhentos, no mínimo, sim, quinhentos mil, na certa. .. o excedente gasta-se no enxoval, hum…

Acabou a meditação, assoou-se, e, indo a sair do salão, súbito avistou a menina e estacou. Como eu estivesse assentado atrás dos vasos de flores, não me pôde ver. Tive a impressão de que o homem se achava muito excitado. Seria o cálculo que operava esse efeito sobre ele, ou outro motivo qualquer? Não sei. seja como for, o certo é que esfregava as mãos e não conseguia permanecer no mesmo lugar.

Quando a sua agitação chegou ao cúmulo, parou um instante e lançou um segundo olhar, muito resoluto, à futura noiva. Quis aproximar-se dela, mas primeiro olhou em redor. Depois, como quem tem sentimentos criminosos, aproximou-se da criança nas pontas dos pés. Com um sorrisinho nos lábios, inclinou-se para ela e beijou-a na testa. A menina, não esperando a agressão, gritou assustada.

– Que é que você está fazendo aqui, bela menina?;perguntou ele em voz baixa.

E, olhando em torno de si, deu-lhe uma palmadinha no rosto.

– Estamos brincando…

– Com ele? – disse Julião Mastakovitch fitando o menino de esguelha.

E logo acrescentou:

– Escuta, meu amigo, por que não vais para o salão?

O menino fitava-o sem falar, de olhos arregalados. Julião Mastalovitch olhou de

novo em redor e aproximou-se outra vez da pequena:

– Que é que você tem aí bela menina? Uma bonequinha?- Uma bonequinha – respondeu a criança de cara fechada, cabisbaixa.

– Uma bonequinha… Mas você sabe, gentil menina, de que é feita a bonequinha?

– Não sei… – cochichou a pequena, abaixando ainda mais a cabeça.

– De trapos, minha alma… Mas tu, meu filho, deverias ir para o salão brincar com os teus camaradas, – disse Julião Mastakovitch encarando o menino com severidade.

As duas crianças franziram a testa e agarraram-se pela mão. Não queriam separar-se.

– Sabe você por que lhe deram essa bonequinha? – perguntou Julião Mastakovitch baixando cada vez mais a voz.

– Não.

– Porque você é uma criança boa e se comportou bem a semana toda.

Perturbado a mais não poder, Julião Mastakovitch lançou mais uma vez um olhar em roda, e baixou a voz de modo que a sua pergunta, formulada em tom impaciente e embargada pela emoção, saiu quase imperceptível:

– Diga-me, gentil menina: você gostará de mim se eu fizer uma visita a seus pais?

Havendo proferido tais palavras, Julião Mastakovitch quis beijar a pequena mais uma vez; mas o menino, vendo-a prestes a romper no choro, puxou-a pela mão e, compadecido, começou, ele próprio, a choramingar.

Dessa vez Julião Mastakovitch aborreceu-se deveras.

– Vai-te embora – disse ao menino – Vai para a sala brincar com os teus

camaradas.

– Não vá, não – protestou a menina. – Você é que deve ir-se embora. Deixe-o

aqui, deixe-o – disse quase soluçando.

Alguém fez barulho à porta. Assustado, Julião Mastakovitch ergueu no mesmo

instante o corpo majestoso. O menino ruivo, porém, assustou-se ainda mais do que ele, largou a mão da menina e, devagarinho, roçando a parede, caminhou do salão à sala de jantar. Para não despertar suspeitas, Julião Mastakovitch também

passou à sala de jantar. Estava vermelho feito uma lagosta e, mirando-se ao

espelho, parecia até envergonhado de si mesmo, talvez arrependido da sua

sofreguidão. Teria sido o cálculo feito na ponta dos dedos que o arrebatara a

ponto de inspirar-lhe, apesar de toda a sua seriedade e gravidade, um

procedimento de criança? Aproximava-se de chofre do seu objetivo, embora este

não viesse a tornar-se um objetivo real antes de cinco anos, no mínimo.

Acompanhei o respeitável cavalheiro a sala de jantar, e ali testemunhei um

espetáculo curioso. Rubro de raiva e despeito, Julião Mastakovitch perseguia o

menino ruivo, o qual, recuando cada vez mais, já não sabia para onde correr:

– Sai daqui! Que diabo vens fazer aqui, velhaco? Vieste roubar frutas, hem?

Vieste? Fora daqui, patife! Vai, fedelho, procura os teus camaradas!

Espantado, o pequeno recorreu a um expediente extremo: foi esconder-se debaixo da mesa. Então o seu perseguidor, no auge da excitação, puxou do bolso o grande lenço de batista e, brandindo-o, procurou enxotar o menino do seu esconderijo.

Este se encolhia caladinho, sem se mexer. Cumpre observar que Julião

Mastakovitch era um tanto gordo: rapaz bem nutrido, corado, barrigudo, de pernas robustas, – em uma palavra, como se costuma dizer, redondo e forte como uma noz.

Suava, enrubescia, arfava terrivelmente. Estava exasperado por um sentimento de

indignação e, quem sabe, de ciúme.

Não pude conter uma gargalhada. Julião Mastakovitch virou-se e, a despeito de

toda a sua importância, ficou mortalmente acanhado. Nesse instante, na porta

oposta, apareceu o dono da casa. O ruivinho saiu logo do esconderijo e pôs-se a

limpar os joelhos e os cotovelos. Julião Mastakovitch, com um gesto rápido,

levou ao nariz o lenço que tinha na mão, seguro por uma das extremidades.

O dono da casa fitava-nos aos três, perplexo, mas, como homem que conhece a vida e a considera pelo lado sério, resolveu aproveitar a circunstância de

encontrar-se quase a sós com o seu hóspede.

– É este o menino – disse indicando o ruivinho – que tive a honra de lhe

recomendar…

– É? – respondeu Julião Mastakovitch, que ainda não voltara inteiramente a si.

– É filho da governanta de meus filhos – prosseguiu o dono da casa em tom de

solicitação -, uma senhora pobre, viúva de um funcionário honesto; portanto,

Julião Mastakovitch… se for possível. . .

– Mas não é;exclamou sem demora Julião Mastakovitch. – Perdoe-me, Filipe

Alexeievitch, é totalmente impossível. Pedi informações… No momento não há

vaga, e, ainda que houvesse, já se tem dez candidatos, cada um mais qualificado

que este..

– Sinto muito… muitíssimo..

– É pena – disse o dono da casa. – É um menino bonzinho, modesto . . .

– Pelo que vejo, é um grandíssimo vadio, – estourou Julião Mastakovitch, com

uma careta histérica. – Sai daí, menino. Que é que tu queres aí? Vai brincar com

os teus camaradas; disse ainda, voltando-se para o ruivinho.

Não conseguindo mais conter-se, olhou para mim de soslaio. Por minha vez, não

pude deixar de lhe rir deliberadamente nas barbas. Ele desviou de mim os olhos,

e em voz bem alta perguntou ao dono da casa quem era aquele rapaz esquisito.

Saíram os dois da sala cochichando. Vi que Julião Mastakovitch, ouvindo as

explicações de seu hospedeiro, abanava a cabeça, meio desconfiado.

Ri a bom rir com os meus botões, e voltei ao salão. Rodeado de mamães, de papais e dos donos da casa, o grande homem explicava alguma coisa com muito calor a uma senhora a quem acabavam de apresentá-lo. Esta segurava pela mão a menina com quem, dez minutos antes, Julião Mastakovitch representara a sua cena no pequeno salão. Agora ele estava-se derramando em extáticos elogios à beleza, aos talentos, à graça e à boa educação da gentil menina. Manifestamente engodava a mamãezinha, que o escutava quase com lágrimas de enlevo. Os lábios do pai sorriam. o dono da casa alegrava-se com essas alegres efusões. Os próprios convidados tomavam parte no júbilo; até os brinquedos das crianças foram suspensos para não se perturbar a conversa. Era uma atmosfera quase religiosa.

Logo depois, ouvi a mãe da interessante pequena, comovida até o fundo da alma

pedir a Julião Mastakovitch, com expressões escolhidas, que lhe desse a subida

honra de distinguir-lhe a casa com sua preciosa visita, e ele aceitou o convite

com entusiasmo; enfim, ouvi os demais convidados, no momento da de despedida, expandirem-se, como o exigiam as conveniências, em louvores comovidos ao rico negociante, a sua mulher e a sua filha, e principalmente a Julião Mastakovitch.

– É casado esse cavalheiro? – perguntei em voz quase alta a um conhecido que

estava mais perto dele.

Julião Mastakovitch enviou-me um olhar indagador e feroz.

– Não – disse-me o meu conhecido, profundamente penalizado com a leviandade que eu de propósito cometera.

Passava eu, há pouco tempo. em frente à igreja de ***, quando um grande

ajuntamento me despertou a atenção. Em redor falava-se de um casamento. O dia

estava nublado, começava a chuviscar; entrei na igreja abrindo caminho através

da multidão. Logo avistei o noivo. Era um rapaz baixo, gordo, bem nutrido, de

ventre ponderável, muito enfeitado, que corria para todos os lados, se agitava

sem parar, dava ordens. Enfim, levantou-se um murmúrio de vozes anunciando a

chegada da noiva. Fendi a turba de curiosos e vi uma jovem de admirável beleza,

para quem a primavera apenas começava. Mas estava pálida e parecia triste a

linda noiva. Olhava distraída e tinha os olhos vermelhos, o que me deu impressão

de lágrimas recentes. A severidade clássica de suas feições emprestava-lhe à

beleza uma expressão algo solene. Através daquela severidade, daquela gravidade, de toda aquela tristeza, transpareciam os traços de uma criança inocente, algo de incrivelmente ingênuo, juvenil e ainda não formado, que parecia, sem palavras, implorar piedade.

Ouvi observar que ela mal acabava de completar dezesseis anos. Examinando atento o noivo, nele reconheci Julião Mastakovitch, que eu não via desde cinco anos.

Olhei para ela… Meu Deus! Fendi a multidão outra vez para sair da igreja o

mais breve possível. Ainda ouvi um espectador dizer que a noiva era rica, que

tinha quinhentos mil rublos de dote… e não sei mais quanto para o enxoval.

– Então o cálculo era justo; disse comigo.

– E saí para a rua.

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