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Archive for the ‘Economia’ Category

Você está na maior expectativa em relação às Reformas que uma vez aprovadas vão aquecer o mercado financeiro? Então não fique na ilusão! Confira como a “lei da oferta e da procura” te auxiliará a entender as garantias trazidas pela ‘modernização’ das leis trabalhistas.

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Quem gosta de ter uma suposta presidANTA como representante? Quem gosta do direito (obrigatório) de voto? Ora, por qual motivo exigir o exercício do seu direito de voto, se você pode abrir mão disso e deixar que o congresso, os rentistas ou a lei do mercado escolha o seu representante no seu lugar? Isso é o que determinada estirpe da mídia repercutia: “não é preciso uma nova eleição, magina! A solução é simples, rápida e flexível: abra mão do seu direito de escolher; abra mão das suas garantias! Basta deixar a gente derrubar, de maneira não democrática, a presidANTA que tudo melhora”.

Ora que melhora!!! A realidade é que o desemprego está perto dos 14%. Atualmente os mesmos políticos, bancos e a ‘grande mídia’ querem te botar mais fés: “se você, trabalhador, abdicar dos seus direitos, garantias e aposentadoria, tudo vai melhorar, sorria! Haverá mais emprego e seu salário vai ser maior”. Isso é uma mentira!? Não! Veja bem, isso não é uma mentira. É uma expectativa. Querem que você tenha fé, que você confie neles! Estão dizendo que você tem apenas uma chance e um único caminho de melhorar de a sua vida. Que isso só vai acontecer quando você abrir mão dos seus direitos previdenciários, se aposentar somente aos 65 anos, e renunciar garantias trabalhistas como férias remuneradas e 13º salário. Portanto, se você confiar neles, você perde direitos, mas ganha a expectativa de que o desemprego vai diminuir e além disso você vai ganhar mais dinheiro – parece um sonho, que felicidade!

Apesar do êxtase que essa grande esperança traz, vamos parar para pensar. Vamos deixar a Reforma da Previdência de lado (PEC 287), porque está claro que o objetivo é duplo: que as pessoas não consigam se aposentar, e que os bancos ganhem dinheiro dos pobres com a previdência privada. Assim, vamos pensar somente no caso da reforma trabalhista. Porque ela, inclusive, vai causar grande rotatividade no emprego e contribuir para que as pessoas não consigam se aposentar.

Pensemos com base na realidade, com base em fatos. É um fato que o desemprego atualmente é muito grande e tende a piorar. Existe ainda um outro fato, que é a lei do mercado, da qual o mercado de trabalho depende, segundo ela: quanto maior a oferta, menor a procura, isto é, quanto maior o desemprego, menor é o salário. Existe também o novo Projeto de lei da reforma trabalhista (PL nº 6.787, de 2016) que visa retirar diversas garantias, ou seja, com a “reforma trabalhista” o trabalhador tem a garantia de menos garantias, e a garantia de menos dinheiro, porque a escolha das férias remuneradas e do 13º vai depender do contrato elaborado por uma empresa, que por sinal está submetida às leis do mercado. Assim, há por um lado um empregador com seus interesses e o mercado com suas leis, e por outro a expectativa, a esperança, do trabalhador (desempregado) de ganhar mais e de não perder o emprego para conseguir se aposentar. Com isso, por um lado temos a expectativa, o sonho, a promessa, e por outro somente a realidade.

A realidade, como temos visto, é que se esse PL for aprovado, as novas contratações serão feitas no contexto atual de alto desemprego. Com isso, por conta da lei da oferta e da procura, quando for contratado certamente terá o salário mais baixo do que o emprego anterior. Mas além disso, o PL permite que o empregador te contrate na condição de trabalhar durante 12horas por dia, sem direito a férias remuneradas nem 13º. Essa é a realidade.

Com o PL, dizem, as demissões e contratações serão mais flexíveis, e você pode negociar as condições de trabalho. Então vamos refletir. Como é que você vai conseguir negociar se na fila lá fora tem mais de 5mil desempregados com filhos para sustentar, financiamentos e aluguel para pagar? Qual argumento você vai utilizar? Há milhares de pessoas que vão dar graças a Deus por qualquer humilhação.

Se você já tem emprego poderá ficar tranquilo? Então vamos pensar melhor. Uma das leis do mercado é: comprar barato para vender caro. Ora, a nova lei trabalhista proporciona uma nova tendência de mercado de trabalho. Que é a mão de obra mais barata. Então o seu patrão terá que entrar na nova tendência e contratar a mão de obra mais barata. Caso contrário, ele corre o risco de ser engolido pelo mercado. Entretanto, comparado com os funcionários contratados pela nova lei, você é muito caro. Isso é ruim para a empresa. Caso você não seja demitido, você realmente acredita que, quando seu contrato acabar, seu novo contrato será na antiga lei? Se tiver sorte será (re)contratado pela mesma empresa na lei recente para trabalhar mais e, como vimos, ganhar menos e sem direitos.

O abatimento da folha de pagamento garante a redução do desemprego? Ora, vamos considerar uma outra lei de mercado: quanto menor o custo maior o lucro. Não podemos esquecer que o funcionário é custo! Vamos supor que a lei foi aprovada. Considerando que empregado é custo e que a empresa tem 4 trabalhadores sob a antiga legislação. Então este empresário está em maus lençóis, porque ele tem muito mais custo do que os empregadores que adotaram a nova lei. O que esse empresário será forçado a fazer? Demitir os funcionários caros e contratar os baratos. Portanto, o desemprego tende a aumentar, e como já vimos, quanto maior o desemprego, menor é o salário.

Será que o barateamento da contratação garante que o empresário vai contratar mais? Ora, se a empesa tinha 4 funcionários e isso para ela era o suficiente, faz sentido contratar mais? Mas, tem outro fato. A nova lei permite jornadas de 12 horas, além disso, não se esqueça que funcionário é custo. Ora, se o empresário tinha 4 trabalhadores com jornadas de 8 horas, por que ele vai manter 4 funcionários, se ele pode contratar 3 ou 2 que vão trabalhar 12 horas rezando para não perder o emprego?

Assim, considerando as realidades mencionadas, estão te prometendo uma expectativa ou uma ilusão? Como vimos, portanto, o mercado tem leis que independem da beatitude do empresário bonzinho que gera empregos. Note bem, o objetivo primário de uma empresa é o lucro, é o que ela precisa para sobreviver, a mão de obra é um meio, e quando mais barata ela for melhor será para a empresa que está submetida às leis do mercado. Leis que, como vimos, estimulam o desemprego que por sua vez incentiva a diminuição do salário. A CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), por outro lado, foi feita por volta de 1945 para equilibrar as coisas. Para que o trabalhador não ficasse tão à mercê das leis do mercado. Atualmente a CLT não é mais essencialmente igual à de 1945, porque já passou por diversas modificações. No entanto, a atual “modernização” da legislação trabalhista traz quais garantias ao trabalhador? A única garantia que ela traz é a ausência de qualquer garantia exceto a expectativa. Ou seja, querem trocar as suas garantidas por expectativas, por sonhos, que como vimos, são ilusórios. Nesse sentido, a suposta “modernização” é um verdadeiro retrocesso.

Mas afinal de contas, quem se beneficiaria com tudo isso, o trabalhador ou o empresário? Ora, nenhum dos dois! Quem ganha são os bancos, e as empresas que vivem de exportação. Porque as pessoas ganhando menos, consequentemente comprarão menos. Por conseguinte, as empresas que vivem do mercado interno se não sucumbirem, ficarão com a corda no pescoço. Os bancos, por outro lado, ganharão muito dinheiro porque os empresários à beira do enforcamento vão fazer empréstimos para equilibrar as contas; grande parte dos trabalhadores ficarão condenados a viver de empréstimos e do famoso “pagamento mínimo da fatura”. As empresas que vivem de exportação, por outro lado, ficarão bem porque elas pagarão pouco para seus trabalhadores em Reais, mas ganharão em Dollar ao venderem o produto para o exterior.

Sendo assim, devemos ficar atentos. Porque os mesmos que pediram para você confiar que, por meio de um Golpe Parlamentar, o seu país iria melhorar; esses mesmos querem que você acredite que, ao trocar suas garantias por uma ilusão, a sua vida será uma benção. É um acontecimento histórico, nós, os brasileiros, ficaremos eternamente conhecidos pelo povo que tirou do poder uma presidente eleita que não cometeu crime de irresponsabilidade, para colocar no poder um interino que cometeu diversos crimes, inclusive de irresponsabilidade. Um interino que apoiou, incentivou e aprovou os piores retrocessos jamais imaginados.

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MICHAEL LÖWY

Entre os documentos inéditos de Walter Benjamin [1892-1940] publicados em 1985 por Ralph Tiedemann e Hermann Schweppenhäuser no volume 6 de “Gesammelte Schriften” (Suhrkamp Verlag), há um particularmente obscuro, mas que parece de uma atualidade surpreendente: “O capitalismo como religião”. São três ou quatro páginas contendo anotações e referências bibliográficas; denso, paradoxal, às vezes hermético, o texto não se deixa decifrar facilmente. Como não se destinava à publicação, o autor não tinha qualquer necessidade de torná-lo legível e compreensível… Os comentários a seguir são uma tentativa parcial de interpretação, baseada mais em hipóteses do que em certezas, e deixando de lado certas “zonas de sombra”.

O texto de Benjamin é, com toda evidência, inspirado por “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” (Cia. das Letras, 2004), de Max Weber [1864-1920]. No entanto, como veremos, o argumento de Benjamin vai muito além de Weber e, sobretudo, substitui sua abordagem “axiologicamente neutra” (Wertfrei) por um fulminante requisitório anticapitalista.

“É preciso ver no capitalismo uma religião”. Com essa afirmação categórica começa o fragmento. Segue-se uma referência, mas também um distanciamento em relação a Weber: “Demonstrar a estrutura religiosa do capitalismo -isto é, demonstrar que ele é não somente uma formação condicionada pela religião, como pensa Weber, mas um fenômeno essencialmente religioso- nos levaria ainda hoje pelos meandros de uma polêmica universal desmedida”.

Benjamin continua: “Podemos entretanto, desde já, reconhecer no tempo presente três traços dessa estrutura religiosa do capitalismo”. Benjamin não cita mais Weber, mas de fato os três pontos se alimentam de idéias e argumentos do sociólogo, dando-lhes um novo alcance, infinitamente mais crítico, mais radical -social e politicamente, mas também do ponto de vista filosófico (teológico?)- e perfeitamente antagônico à tese weberiana da secularização.

O culto

“Primeiramente, o capitalismo é uma religião puramente cultual, talvez a mais extremamente cultual que já existiu. Nada nele tem significado que não esteja em relação imediata com o culto, ele não tem dogma específico nem teologia. O utilitarismo ganha, desse ponto de vista, sua coloração religiosa.”

Portanto, as práticas utilitárias do capitalismo -investimento do capital, especulações, operações financeiras, manobras bolsistas, compra e venda de mercadorias- são equivalentes a um culto religioso. O capitalismo não exige a adesão a um credo, a uma doutrina ou a uma “teologia”; o que conta são as ações, que representam, por sua dinâmica social, práticas cultuais. Benjamin, contradizendo um pouco seu argumento sobre a Reforma e o cristianismo, compara essa religião capitalista ao paganismo original, também ele “imediatamente prático” e sem preocupações “transcendentes”.

Mas o que é que permite assemelhar essas práticas econômicas capitalistas a um “culto”? Benjamin não o explica, mas utiliza, algumas linhas depois, o termo “adorador”; podemos assim considerar que o culto capitalista comporta certas divindades que são objeto de adoração. Por exemplo: “Comparação entre as imagens de santos das diferentes religiões e as notas de dinheiro dos diversos países”. O dinheiro, em forma de papel-moeda, seria assim o objeto de um culto análogo ao dos santos das religiões “comuns”.

No entanto, o papel-moeda é apenas uma das manifestações de uma divindade mais fundamental no sistema capitalista cultual: o “dinheiro”, o deus Mammon, ou, segundo Benjamin, “Plutão… deus da riqueza”. Na bibliografia do fragmento é mencionada uma passagem virulenta contra o poder religioso do dinheiro: está no livro “Aufruf zum Sozialismus”, do pensador anarquista judeu-alemão Gustav Landauer, publicado em 1919, pouco antes do assassinato de seu autor por militares contra-revolucionários. Na página indicada pela nota bibliográfica de Benjamin, Landauer escreve:

“Fritz Mauthner (“Wörterbuch der Philosophie”) mostrou que a palavra “Deus” (Gott) é originariamente idêntica a “ídolo” (Götze), e que as duas querem dizer “o fundido” [ou “o escorrido’] (Gegossene). Deus é um artefato feito pelos humanos, que ganha uma vida, atrai para si as vidas dos humanos e finalmente torna-se mais poderoso que a humanidade. O único escorrido (Gegossene), o único ídolo (Götze), o único Deus (Gott) a que os humanos deram vida é o dinheiro (Geld). O dinheiro é artificial e é vivo, o dinheiro produz dinheiro e mais dinheiro, o dinheiro tem todo o poder do mundo. Quem não vê, quem ainda hoje não vê, que o dinheiro, que o Deus não é outra coisa senão um espírito oriundo dos seres humanos, um espírito que se tornou uma coisa (Ding) viva, um monstro (Unding), e que ele é o sentido (Sinn) que se tornou louco (Unsinn) de nossa vida? O dinheiro não cria riqueza, ele é a riqueza; ele é a riqueza em si; não existe outro rico além do dinheiro”.

É verdade que não podemos saber até que ponto Benjamin compartilhava esse raciocínio de Landauer; mas podemos, a título de hipótese, considerar esse trecho, mencionado na bibliografia, como um exemplo do que ele entende por “práticas cultuais” do capitalismo.

Sem trégua

A segunda característica do capitalismo “está estreitamente ligada a essa concreção do culto: a duração do culto é permanente”. “O capitalismo é a celebração de um culto “sem trégua e sem piedade”. Não há “dias comuns”, nenhum dia que não seja de festa, no sentido terrível da utilização da pompa sagrada, da extrema tensão que habita o adorador.”

Sem descanso, sem trégua e sem piedade: a idéia de Weber é retomada por Benjamin, quase literalmente; não sem ironia, aliás, evocando o caráter permanente dos “dias de festa”: na verdade, os capitalistas puritanos aboliram a maioria dos feriados católicos, considerados um incentivo ao ócio. Portanto, na religião capitalista, cada dia vê a mobilização da “pompa sagrada”, isto é, os rituais na bolsa ou na fábrica, enquanto os adoradores seguem, com angústia e uma “extrema tensão”, a subida ou a descida das cotações das ações.

As práticas capitalistas não conhecem pausa, elas dominam a vida dos indivíduos da manhã à noite, da primavera ao inverno, do berço ao túmulo. Como bem observa Burkhardt Lindner, o fragmento empresta de Weber o conceito do capitalismo como sistema dinâmico, em expansão global, impossível de deter e do qual não podemos escapar.

Enfim, a terceira característica do capitalismo como religião é seu caráter culpabilizador: “O capitalismo é provavelmente o primeiro exemplo de um culto que não é expiatório (entsühnenden), mas culpabilizador”. Benjamin continua seu requisitório contra a religião capitalista: “Nisso, o sistema religioso é precipitado em um movimento monstruoso. Uma consciência monstruosamente culpada que não sabe expiar se apodera do culto, não para nele expiar essa culpa, mas para torná-la universal, para fazê-la entrar à força na consciência e, enfim e sobretudo, para implicar Deus nessa culpa, para que no fim das contas ele mesmo tenha interesse na expiação”.

Benjamin evoca, nesse contexto, o que chama de “ambigüidade da palavra Schuld” – isto é, ao mesmo tempo “dívida” e “culpa”. Segundo Burkhard Lindner, a perspectiva histórica do fragmento baseia-se na premissa de que não podemos separar, no sistema da religião capitalista, a “culpa mítica” da dívida econômica.

Encontramos em Max Weber dois raciocínios análogos, que também jogam com os dois sentidos de “dever”: para o burguês puritano, “o que consagramos a fins “pessoais” é “roubado” do serviço à glória de Deus”; tornamo-nos assim ao mesmo tempo culpados e “endividados” em relação a Deus. “A idéia de que o homem tem “deveres” para com as posses que lhe foram confiadas e às quais ele está subordinado como um intendente devotado (…) pesa sobre sua vida com todo o seu peso gélido. Quanto mais aumentam as posses, mais pesado torna-se o sentimento de responsabilidade (…) que o obriga, para a glória de Deus (…), a aumentá-las por meio de um trabalho sem descanso”. A expressão de Benjamin “fazer a culpa entrar à força na consciência” corresponde bem às práticas puritanas/capitalistas analisadas por Weber.

Amplitude

Mas parece-me que o argumento de Benjamin é mais geral: não é somente o capitalismo que é culpado e “endividado” com seu capital -a culpa é universal. Assim, o próprio Deus encontra-se envolvido nessa culpa geral: se os pobres são culpados e excluídos da graça, e se, no capitalismo, eles estão condenados à exclusão social é porque “é a vontade de Deus” ou, o que é seu equivalente na religião capitalista, a vontade dos mercados.

Bem entendido, se nos situarmos no ponto de vista desses pobres e endividados, é Deus que é o culpado, e com ele o capitalismo. Em qualquer dos casos, Deus está inextricavelmente associado ao processo de culpabilização universal.

Até aqui vimos bem o ponto de partida weberiano do fragmento, em sua análise do capitalismo moderno como religião originária de uma transformação do calvinismo; mas há um trecho em que Benjamin parece atribuir ao capitalismo uma dimensão transhistórica que não é mais a de Weber -e tampouco de Marx: “O capitalismo se desenvolveu no Ocidente como um parasita do cristianismo -devemos demonstrá-lo não somente a propósito do calvinismo, mas também das outras correntes ortodoxas do cristianismo-, de tal sorte que no fim das contas a história do cristianismo é essencialmente a de seu parasita, o capitalismo”.

O resultado do processo “monstruoso” de culpabilização capitalista é a generalização do “desespero”: “Ele está ligado à essência desse movimento religioso -que é o capitalismo- de perseverar até o fim, até a completa culpabilização final de Deus, até um estado do mundo atingido por um desespero que ainda “esperamos” que seja justo. O que o capitalismo tem de historicamente inédito é que a religião não é mais reforma, mas a ruína do ser. O desespero se estende ao estado religioso do mundo do qual se deveria esperar a salvação”.

Não estamos distantes, aqui, das últimas páginas da “Ética Protestante”, em que Weber constata, com um fatalismo resignado, que o capitalismo moderno “determina, com uma força irresistível, o estilo de vida do conjunto dos indivíduos nascidos nesse mecanismo -e não somente daqueles que a aquisição econômica concerne diretamente”.

Ele compara essa coerção a uma espécie de prisão na qual o sistema de produção racional de mercadorias encerra os indivíduos: “Segundo as opiniões de Baxter, a preocupação pelos bens externos não deveria pesar sobre os ombros de seus santos senão como “um leve manto que a qualquer momento se pode retirar”. Mas a fatalidade transformou esse manto em uma jaula de aço”.

De Weber a Benjamin nos encontramos em um mesmo campo semântico, que descreve a lógica impiedosa do sistema capitalista. Mas por que ele é produtor de desespero?

Sendo a “culpa” dos humanos, seu endividamento para com o capital, perpétua e crescente, nenhuma esperança de expiação é permitida. O capitalista deve constantemente aumentar e ampliar seu capital, sob pena de desaparecer diante de seus concorrentes, e o pobre deve emprestar dinheiro para pagar suas dívidas.

Segundo a religião do capital, a única salvação reside na intensificação do sistema, na expansão capitalista, no acúmulo de mercadorias, mas isso só faz agravar o desespero. É o que parece sugerir Benjamin com a fórmula que faz do desespero um estado religioso do mundo “do qual se deveria esperar a salvação”.

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Este texto é uma versão editada da conferência de Michael Löwy na USP no dia 29 de setembro.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

Publicado em:

Folha de São Paulo, Caderno Mais, domingo, 18 de setembro de 2005

Contato:
antivalor@bol.com.br

Fonte: Antivalor

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Os EUA sentem-se hoje profundamente inseguros devido ao fracasso da aventura unilateral; Mesmo uma reforma basilar das instituições centrais das Nações Unidas não seria suficiente; O Estado social é uma proeza tardia e frágil.O mercado arromba a sociedade, e o Estado social a fecha novamente?

O novo presidente precisa se impor contra as elites dependentes de Wall Street e se afastar dos reflexos de um novo protecionismo. Obama, num primeiro momento, não poderá cumprim suas promessar: terá que se ocupar com a economia

habermas Um dos mais importantes filósofos vivos, o alemão Jürgen Habermas fala nesta entrevista sobre os efeitos da atual crise financeira sobre o futuro dos Estados nacionais. Para ele, as mudanças que o sistema político mundial sofrerá nos próximos anos irá depender necessariamente das posições que os EUA -e seu novo presidente- irão adotar. Habermas defende que os EUA, mesmo enfraquecidos, ainda permanecerão como a superpotência liberal.

PERGUNTA – O sr. deve estar decepcionado com os EUA, que, em sua opinião, foram o cavalo de tração da nova ordem mundial.

JÜRGEN HABERMAS – O que nos resta a não ser apostar nesse cavalo de tração? Os Estados Unidos sairão enfraquecidos da dupla crise atual. Mas permanecerão por enquanto a superpotência liberal. A exportação mundial da própria forma de vida correspondeu ao universalismo falso, centralizado, dos velhos ricos. Em contraposição, a modernidade se alimenta do universalismo descentralizado do respeito igual por cada um. É do próprio interesse dos EUA não somente deixar de lado seu posicionamento contraproducente em relação à ONU, mas também colocar-se no topo do movimento reformista. Do ponto de vista histórico, a combinação de quatro fatores oferece uma constelação extraordinária: superpotência, mais antiga democracia na terra, a posse de um presidente liberal e visionário e uma cultura política na qual orientações normativas encontram um notável solo de ressonância. Os EUA sentem-se hoje profundamente inseguros devido ao fracasso da aventura unilateral, à autodestruição do neoliberalismo e também ao mau uso de uma consciência de excepcionalidade. Por que essa nação não poderia, como fez com tanta freqüência, recompor-se de novo e tentar integrar a tempo as grandes potências concorrentes de hoje -e potências mundiais de amanhã- em uma ordem internacional que prescinda de uma superpotência? Por que um presidente -que, saído de uma eleição decisiva, irá encontrar somente um espaço mínimo de ação- não desejaria, pelo menos na política externa, agarrar essa oportunidade razoável, essa oportunidade da razão?

PERGUNTA – Falando assim, o sr. não arrancaria mais do que um riso cansado dos chamados "realistas"…

HABERMAS – O novo presidente americano precisa se impor contra as elites dependentes de Wall Street no próprio partido; ele também deveria ser afastado dos reflexos evidentes de um novo protecionismo. E os EUA precisariam, para uma meia-volta tão radical, do impulso amigável de um aliado leal, mas autoconsciente. Só pode existir um Ocidente "bipolar", no sentido criativo, se a União Européia aprender a falar para fora com uma só voz. Em épocas de crise, talvez seja necessária uma perspectiva que tenha um alcance mais longo do que o conselho do "mainstream" embonecado do sucesso a qualquer custo.

PERGUNTA – O sistema financeiro internacional entrou em colapso, e há a ameaça de uma crise econômica mundial. O que mais o inquieta?

HABERMAS – O que mais me inquieta é a injustiça social, que consiste no fato de que os custos socializados oriundos da pane do sistema atingem da forma mais dura os grupos sociais mais vulneráveis. Assim, solicita-se da massa composta por aqueles que, de qualquer modo, não pertencem aos que lucram com a globalização que ela de novo pague pelas conseqüências, em termos da economia real, de uma falha funcional previsível do sistema financeiro. Também em escala mundial, esse destino punitivo efetua-se nos países mais fracos economicamente. Esse é o escândalo político. Mas apontar agora bodes expiatórios, isso, sem dúvida, considero hipocrisia. Também os especuladores comportaram-se de forma conseqüente, nos limites da lei, de acordo com a lógica, aceita socialmente, da maximização dos ganhos. A política se torna ridícula quando moraliza, em vez de se apoiar no direito coativo do legislador democrático. Ela, e não o capitalismo, é responsável pela orientação voltada ao bem comum.

PERGUNTA – Para os neoliberais, o Estado é somente um parceiro no campo econômico e precisa se apequenar. Agora esse pensamento não tem mais crédito?

HABERMAS – Isso dependerá do desenrolar da crise, da capacidade de percepção, por parte dos partidos políticos, dos temas públicos.

PERGUNTA – Por que o bem-estar é hoje distribuído de forma tão desigual? O fim da ameaça comunista desinibiu o capitalismo ocidental?

HABERMAS – O capitalismo contido no âmbito dos Estados nacionais, cercado por políticas econômicas keynesianas, marcado por um bem-estar incomparável -do ponto de vista histórico-, já havia acabado logo após o abandono do câmbio fixo e do choque do petróleo. De fato, a ruína da União Soviética desencadeou um triunfalismo fatal no Ocidente. A sensação de ter razão, em termos da história mundial, tem um efeito sedutor. Neste caso, inchou uma doutrina político-econômica e a tornou uma visão de mundo que penetra em todas as esferas da vida.

PERGUNTA – De que o mundo sentiu falta depois de 1989? O capital simplesmente se tornou poderoso demais diante da política?

HABERMAS – Ficou claro para mim, ao longo dos anos 1990, que as capacidades políticas de ação precisavam crescer atrás dos mercados, no plano supranacional. À globalização econômica deveria ter seguido uma coordenação política mundial e a legitimação adicional das relações internacionais. Mas as primeiras peças adicionais já ficaram atoladas no governo de Bill Clinton. Desde o início da modernidade, o mercado e a política sempre precisaram se contrabalançar de forma que a rede de relações solidárias entre os membros de uma comunidade política não se rompesse. Uma tensão entre capitalismo e democracia sempre existe porque mercado e política repousam sobre princípios opostos.

PERGUNTA – Mas o sr. insiste no cosmopolitismo de Kant e acolhe a idéia de uma política interna mundial, introduzida por Carl Friedrich von Weizsäcker. Isso soa bastante ilusório -basta que se observe o estado atual das Nações Unidas.

HABERMAS – Mesmo uma reforma basilar das instituições centrais das Nações Unidas não seria suficiente. De fato, o Conselho de Segurança, o Secretariado, as cortes de Justiça precisariam urgentemente entrar em forma para uma imposição global dos direitos humanos e da proibição da violência -em si já uma tarefa imensa. Nesse plano transnacional, há problemas de distribuição que não podem ser decididos do mesmo modo que infrações contra os direitos humanos ou violações de segurança internacional, mas precisam ser negociados de forma política.

PERGUNTA – Mas para isso já existe uma organização experimentada, que é o G-8.

HABERMAS – Isso é um clube exclusivo, no qual algumas dessas questões são discutidas de forma descomprometida. Entre as expectativas exageradas que se ligam a essas encenações e o resultado medíocre do espetáculo midiático sem conseqüências, existe uma desproporção traiçoeira.

PERGUNTA – O discurso sobre a "política interna mundial" soa antes como os sonhos de um vidente.

HABERMAS – Ainda ontem a maioria consideraria não realista aquilo que ocorre hoje: os governos europeus e asiáticos superam-se mutuamente em sugestões de regulamentações em vista da institucionalização insuficiente dos mercados financeiros.

PERGUNTA – Mesmo que novas competências fossem atribuídas ao Fundo Monetário Internacional, isso ainda não seria uma política interna mundial.

HABERMAS – Não quero fazer previsões; em vista dos problemas atuais, o que podemos fazer, na melhor das hipóteses, são considerações construtivas. Os Estados nacionais deveriam, de forma crescente e, com efeito, em seu próprio interesse, se perceber membros da comunidade internacional. Quando hoje falamos de "política", estamos amiúde falando da ação de governos que herdaram uma autoconcepção como atores coletivos, que decidem de forma soberana. Mas essa autoconcepção de um Leviatã, que, desde o século 17, se desenvolveu junto com o sistema de Estados europeu, hoje já não é mais vigorosa. O que chamávamos ontem de "política" muda diariamente seu estado.

PERGUNTA – Mas como isso se coaduna com o darwinismo social, que, como o sr. diz, se expande novamente na política internacional desde o 11 de Setembro?

HABERMAS – Talvez se devesse dar um passo atrás e observar uma conjuntura maior. Desde o final do século 18, o direito e a lei permearam o poder do governo, constituído politicamente, e lhe negaram, na circulação interior, o caráter substancial de um simples "poder". Mas ele guardou para si uma quantidade suficiente dessa substância, apesar da rede de organizações internacionais e da força de coesão crescente do direito internacional. Ainda assim, o conceito de "político", cunhado no âmbito do Estado nacional, está se liquefazendo. Na União Européia, por exemplo, os Estados-membros, no passado e no presente, guardam o monopólio da força e também transpõem, mais ou menos sem reclamações, o direito que é determinado na esfera supranacional. Essa mudança de forma do direito e da política também se relaciona a uma dinâmica capitalista que pode ser descrita como interação entre abertura forçada funcionalmente e fechamento sociointegrativo em níveis cada vez mais elevados.

PERGUNTA – O mercado arromba a sociedade, e o Estado social a fecha novamente?

HABERMAS – O Estado social é uma proeza tardia e frágil. Os mercados e as redes de comunicação sempre em expansão já tiveram uma força de arrombamento, que, para o cidadão individual, é, ao mesmo tempo, individualizante e libertadora. A isso, porém, sempre seguiu uma reorganização das velhas relações de solidariedade numa moldura institucional expandida. Esse processo iniciou-se no início da modernidade, quando os estamentos dirigentes da Alta Idade Média se tornaram, passo a passo, parlamentares -como na Inglaterra- ou foram subjugados por reis absolutistas -como na França. Essa domesticação jurídica do Leviatã e do antagonismo entre as classes não foi simples. Mas, pelas mesmas razões, a bem-sucedida constitucionalização do Estado e da sociedade aponta hoje, após um surto de globalização econômica, para uma constitucionalização do direito internacional e da esfacelada sociedade mundial.

Entrevista
Thomas Assheuer
FOLHA DE S. PAULO/ MAIS!

A íntegra desta entrevista saiu no "Die Zeit". Tradução de Erika Werner.

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por J.R. Guzzo.

Maus cidadãos.

Lula disse que todo mundo deve ter o direito de fumar desde que não incomode os outros’. “O problema é que a proibição do fumo parece não bastar, para quem a defende. Cada vez mais, procura-se também a condenação dos fumantes”.

 

 

[Sabe o que eu acho? Vou dizer, to nem aí – se não quiser ler pule essa parte, nem ligo!: eu acho que é aquele papo – o  cigarro faz circular muito dinheiro: transporte do produto, no comércio, impostos, etc. E o Estado ganha muito dinheiro com isso. Mas ele tem que enfrentar um problema: os fumantes! Mas não os fumantes em si, e sim, as conseqüências que eles trazem: ficarão doentes e o Estado terá que “cuidar” dos pobres. E o Estado não quer isso, claro! Afinal de contas, terá que gastar o dinheiro – boa parte obtida com o imposto que o moribundo gerou ao engolir fumaça – para tratar do peão.

Agora um parênteses: (e drogas como maconha e “cocaínageladeira”? Ora, elas também fazem circular muita grana – não há interesse em acabar com o tráfico – aposto que o “Capitalismo” a adora.) fim do parênteses.

Daí usuário paga o pato duas vezes: primeiro por ser discriminado (e gemer no fio da espada da lei), e depois de ajudar a circular tanto dinheiro, tem de fazer circular mais dinheiro ainda para ter uma morte dígna!

Ah, mas ótimo! É isso aí! Os usuários estão cumprindo seu papel direitinho – pouco importa sua saúde, o bem estar físico e moral – tá fazendo circular dinheiro!? Ah, então tá bom.

É o que eu acho…

Ps: as empresas “cigarríficas” têm de ser mais espertas – e penso que elas já sacaram isso (do contrário, que escutem meu conselho – da próxima vez vou cobrar, hein?): maios ou menos como os traficantes do Rio (de Janeiro) sacaram que não deveriam deixar o Crack ser vendido por lá, os “tabaqueiros” precisam fazer cigarros menos nocivos, porque assim, seu objeto terá mais vida útil – e por conseguinte – renderá mais dinheiro. 😉 O Estado, por sua vez, não ficará chateado em ter que gastar o dinheiro que consegui com tanto (nosso) suor – e todos ficão felizes para semre: êÊeÊeÊeÊeÊêÊê.

Acho que mereço um Nobel da PaX.]

 

Se existe alguma coisa a respeito da qual o mundo inteiro está 100% de acordo é que o fumo faz mal à saúde; não apenas de quem fuma, mas também, embora não se saiba claramente com que grau de intensidade, de quem está por perto de um cigarro aceso. Não parece haver nenhuma necessidade, assim, de continuar querendo provar algo que todos consideram mais do que provado. Também não dá para ver como ainda seria possível, em pleno ano de 2008, encontrar algum pecado novo para acrescentar à lista de tudo aquilo que o fumo faz de mal, ou pode fazer, ou se imagina que faça. As medidas de repressão que se poderiam tomar contra o cigarro, enfim, já foram tomadas. É proibido fumar, hoje, em praticamente qualquer local fechado onde haja mais de uma pessoa. Os fumódromos, onde se imaginava que o cidadão poderia fumar sem incomodar ninguém, estão em via de extinção. Nos países que o Brasil considera como os mais iluminados da Terra, os preços foram aumentados até o limite máximo que os governos acham possível impor: o equivalente a mais de 12 reais o maço na França, mais de 15 reais na Inglaterra. Está banida no planeta inteiro, ou quase, toda e qualquer propaganda de cigarro. Não existe à venda uma única carteira que não traga com destaque as mais severas advertências contra os males do fumo – no Brasil, por sinal, elas vêm acompanhadas de imagens especialmente repulsivas, mostrando um homem sem perna, pulmões reduzidos a uma pasta de carvão e daí para pior.

 

Já não seria o suficiente? Não. O esforço no Brasil, agora, é para proibir o cigarro nos últimos espaços que ainda lhe estão abertos – as áreas reservadas a fumantes nos raros locais públicos, fora do ar livre, que escaparam até o momento das placas dizendo que “é proibido fumar”. Salvo vetar o cigarro por lei, coisa que os governos não querem fazer para não perder bilhões em impostos, o que ficaria faltando? Essa parece ser, assim, a última fronteira a ser ganha pelos inimigos do fumo. O governador de São Paulo, José Serra, e o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, para ficar só em gente graúda, disputam atualmente uma corrida para ver quem proíbe mais e proíbe antes. Se um, o outro ou mais alguém conseguirem aprovar leis que acabem de vez com as áreas destinadas a fumantes, nada haverá a discutir: lei é lei. Tudo bem – outras coisas, nesta vida, já foram permitidas um dia e hoje não são mais, e nem por isso o sol deixou de nascer todas as manhãs. O problema é que a proibição do fumo parece não bastar, para quem a defende. Cada vez mais, procura-se também a condenação dos fumantes. Um clima de neurastenia agressiva é estimulado em torno da questão. Com freqüência dispensa-se, para criticar o tabaco, a necessidade de respeitar um mínimo de lógica, ou a mera verdade dos fatos.

 

A partir desse ponto de vista, quem fuma vai passando a ser olhado como portador de alguma deficiência moral, ou mau cidadão, ou nocivo à vida em sociedade, ou as três coisas ao mesmo tempo. Empresas encontram meios para não contratar fumantes. Convidados deixam de ser bem-vindos, caso fumem, em residências particulares. Médicos de alta fama estão sempre dispostos a dizer as coisas mais extraordinárias sobre as ruínas que o tabaco seria capaz de causar no organismo humano; já se ouviu, até mesmo, que a fumaça aspirada pelos não-fumantes é pior que a fumaça tragada pelos fumantes, pois estes dispõem de filtros em seus cigarros. Desde que condene o fumo, tudo que se apresenta como “estudo” ou “pesquisa” é automaticamente aceito como verdade científica. Os números oficiais, então, são capazes de qualquer coisa. Sugerem, por exemplo, que falta dinheiro para a saúde porque o SUS gasta muito com doenças causadas pelo fumo; cerca de 340 milhões de reais por ano, segundo um trabalho recente da Fundação Oswaldo Cruz. (Seria interessante observar, a respeito, que só a Souza Cruz, a maior fabricante de cigarros do país, pagou acima de 3 bilhões de dólares em impostos sobre suas vendas em 2007.) O Ministério da Saúde manda escrever nos maços de cigarro que existem ali “mais de 4 700 substâncias tóxicas”. Mais de 4 700? Como um ser humano poderia continuar vivo engolindo tanto veneno assim? E por aí se vai.

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse há pouco que todo mundo deve ter o direito de fumar desde que não incomode os outros; garantiu, aliás, que só fuma em sua própria sala. Parece algo de muito bom senso, mas o homem só levou pancada. Hoje em dia, quando o tema é tabaco, ter bom senso já não serve mais para dar razão a ninguém.

 

Fonte

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Educação é dinheiro – especialista em combater com números os mitos sobre a sala de aula, o economista americano Eric Hanushek mostra como o bom ensino pode ser decisivo para o crescimento econômico

 

Por Camila Pereira
Revista Veja – 17/09/2008

 

Poucos estudiosos se dedicam a compreender a educação com uma visão tão científica quanto a do americano Eric Hanushek. Professor da Universidade Stanford e doutor em economia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), ambos nos Estados Unidos, é dele a mais extensa pesquisa já feita sobre os efeitos de um bom ensino no crescimento econômico. Nos últimos trinta anos, Hanushek vem travando embates com ideólogos da educação e os sindicatos de professores. É figura controversa, entre outras coisas, por ter sido o primeiro a afirmar que aumento de salário não influencia a qualidade do ensino – a não ser quando obedece a uma política de premiação aos melhores em sala de aula.

Seus estudos recentes comprovam uma forte relação entre educação e crescimento econômico. Com o Brasil nas últimas colocações em rankings internacionais de ensino, o que se pode dizer sobre a economia?
Com esse desempenho, as chances de o Brasil crescer em ritmo chinês e se tornar mais competitivo no cenário internacional são mínimas. Digo isso baseado nos números que reuni ao longo das últimas décadas. Eles mostram que avanços na sala de aula têm peso decisivo para a evolução dos indicadores econômicos de um país. Olhe o caso brasileiro. Se as notas dos estudantes subissem apenas 15% nas avaliações, o Brasil somaria, a cada ano, meio ponto porcentual às suas taxas de crescimento. Isso significaria, hoje, avançar em um ritmo 10% maior. Vale observar que o que impulsiona a economia é a qualidade da educação, e não a quantidade de alunos na escola.

O Brasil colocou 97% das crianças na sala de aula. Isso não tem impacto na economia?
A massificação do ensino, por si só, tem pouco efeito – e a matemática não deixa dúvida quanto a isso. Os dados mostram que a influência da educação passa a ser decisiva apenas quando ela é de bom nível. Aí, sim, consegue empurrar os indivíduos e a economia. A relação é simples. Países capazes de proporcionar bom ensino a muita gente ao mesmo tempo elevam rapidamente o padrão de sua força de trabalho. Quando uma população atinge alta capacidade de raciocínio e síntese, torna-se naturalmente mais produtiva e capaz de criar riquezas para o país. Nesse sentido, a posição do Brasil é desvantajosa. Faltam aos alunos habilidades cognitivas básicas, e isso funciona como um freio de mão para o crescimento. Esse cenário, que já era preocupante décadas atrás, agora é ainda mais nocivo.

O que mudou nas últimas décadas?

A relação entre boa educação e desenvolvimento econômico é antiga – mas a qualidade do ensino nunca foi tão relevante para o crescimento dos países. Isso porque, em sociedades altamente tecnológicas, a produtividade passou a depender ainda mais das habilidades desenvolvidas na escola. Os números lançam luz sobre o tipo de conhecimento que faz mais diferença: de todas as disciplinas apresentadas aos alunos, são as ciências exatas que, hoje, têm o maior peso para o crescimento econômico. Afinal, exige-se o tempo todo dos profissionais que sejam capazes de lidar com novas tecnologias e de solucionar problemas de alta complexidade. Ocorre não apenas na rotina de quem ocupa um cargo de alto escalão, mas também nas linhas de produção mais simples. Quanto mais gente preparada para enfrentar tais questões, mais chances um país terá de avançar.

Os Estados Unidos são a maior economia do planeta, mas não figuram entre os países de melhor ensino. Isso não é contraditório?

Não. Além de uma educação de bom nível, dois outros fatores têm impacto decisivo sobre o ritmo de crescimento de um país: o grau de abertura de sua economia e a segurança institucional que ele oferece, medida pela capacidade de garantir o direito à propriedade privada. Historicamente, os Estados Unidos sempre estiveram muito à frente dos demais países nesses dois quesitos. Outro antigo diferencial americano são as universidades, que ocupam o topo do ranking da excelência. Há décadas elas funcionam como um poderoso motor para o progresso científico e tecnológico, de valor inestimável para a economia do país. Até agora, esse conjunto de fatores ajudou a compensar o desempenho medíocre dos estudantes americanos no ensino básico. Essa vantagem, no entanto, está ameaçada.

 

Por que o senhor diz isso?

Mais países começam a atingir graus de abertura da economia e patamares de desenvolvimento institucional semelhantes aos dos americanos. Também já aparecem, fora dos Estados Unidos, dezenas de universidades onde podem originar-se descobertas científicas relevantes ou mesmo um Prêmio Nobel. Significa que os americanos deixaram de ser os únicos a se destacar em áreas nas quais, bem pouco tempo atrás, não tinham rivais. Caso a qualidade da educação básica ofertada nos Estados Unidos não melhore, a liderança econômica do país ficará seriamente ameaçada. Repare que me refiro aqui apenas aos estragos da má educação. Não estou sequer levando em conta as outras variáveis que podem contribuir para isso.

 

O impacto da educação na economia varia de um país para outro?

Os países que mais se beneficiaram do investimento no ensino, como Coréia do Sul e Finlândia, têm um ponto em comum: são economias abertas. Temos aqui um ciclo virtuoso. Para competirem globalmente, esses países precisam de um exército de pessoas com altíssima capacidade cognitiva – e, contando com elas, lucram como nenhum outro com a concorrência. Quando boa educação vem aliada a uma economia aberta, seu efeito no PIB é três vezes maior do que em países mais fechados.

As salas de aula estão repletas de experiências pedagógicas. O senhor chegou a alguma conclusão sobre qual o melhor caminho para alcançar a qualidade acadêmica?

De todos os fatores numa escola, certamente o que mais explica a excelência na sala de aula diz respeito à capacidade dos professores de despertar a curiosidade intelectual dos alunos e lhes transmitir conhecimento. É algo básico, mas freqüentemente ignorado. Veja o que revelam os números. Tendo um ótimo professor durante cinco anos seguidos, uma criança egressa de um ambiente de pobreza e analfabetismo poderá alcançar o mesmo nível de conhecimento de outra vinda de uma casa em que os pais têm diploma de ensino superior e boa situação financeira. A questão é que os diretores das escolas raramente aplicam os critérios certos para rastrear os bons profissionais.

Por que eles erram tanto?

Valorizam tempo de experiência e cursos de especialização, quando esses são fatores sem nenhuma relação relevante com a qualidade das aulas. Os educadores resistem a aceitar essa idéia, mas as pesquisas não deixam dúvidas: os Ph.Ds. não apenas não são necessariamente os melhores professores, como muitas vezes figuram entre os piores. Já se conhecem, portanto, algumas das características que não definem um bom professor. O que não se sabe até hoje é o que, de fato, faz um profissional sobressair na sala de aula.

 

O senhor está dizendo que não há uma explicação estatisticamente confiável sobre as características que determinam um bom professor?

Existem muitas suposições, mas nenhuma delas tem valor científico. Por isso fica tão difícil estabelecer critérios prévios para a seleção dos melhores professores – e erra-se tanto. É possível, no entanto, tomar medidas para segurar os mais brilhantes na escola e eliminar os mal preparados.

 

Qual é a melhor maneira de fazer isso?

O método mais eficaz, sem dúvida, é aderir à meritocracia. Entenda-se por isso oferecer incentivos financeiros e carreira atraente a quem merece. É fácil identificar os mais eficientes. São aqueles que, ao término de um período escolar, conseguiram melhorar o desempenho de seus alunos em relação ao patamar do qual partiram no início do ano. Para premiá-los, não quero dizer apenas pagar-lhes 200 ou 300 dólares a mais no fim do ano. O que defendo é mais radical – algo que nem nos Estados Unidos, país à frente nesse quesito, foi implantado.

O que, exatamente, o senhor propõe?

Faria muito bem às escolas manter salários mensais diferenciados para os bons professores, poder demitir os incapazes e proporcionar, enfim, um ambiente tão competitivo quanto o de uma grande empresa. Depois de tudo o que pesquisei, afirmo com segurança: reconhecer concretamente os talentos individuais é a medida mais eficaz quando se trata de preservar apenas os professores mais talentosos – e melhorar o ensino. Infelizmente, não é tão fácil pôr essa idéia em prática.

Quais são as dificuldades?

Primeiro, é preciso desenvolver mecanismos confiáveis para medir o desempenho de alunos e professores. O problema é que a maioria dos países em desenvolvimento não conta ainda com um sistema de avaliações que permita comparar resultados ao longo dos anos, algo em que o Brasil é uma boa exceção. Um segundo obstáculo é o corporativismo dos sindicatos de professores. Eles são os primeiros a se opor a qualquer medida em favor da premiação ao mérito. Como essas organizações têm, em geral, grande peso na definição das políticas públicas de educação, a meritocracia emperra. Tal é o corporativismo sindical que sua principal bandeira sempre foi o aumento generalizado dos salários. Dizem que só assim o ensino vai para a frente.

Até que ponto isso é verdade?

Aumentar os salários de todos os professores de uma mesma rede de ensino não contribui em nada para melhorar a qualidade das aulas. Afirmo isso ancorado nos fatos, e não na intuição, como preferem muitos educadores. Ao defender a isonomia salarial e repudiar aumentos atrelados a resultados, os professores não se baseiam em nenhuma espécie de evidência científica de que a medida funcione em favor do ensino. Lutam por isso apenas porque é bom para eles.

 

Na educação, por que é tão raro que especialistas, educadores e autoridades se rendam às evidências científicas?

Além dos interesses políticos, que passam ao largo da ciência, como ocorre em tantas outras áreas, um segundo fator específico da educação pesa contra a objetividade: não sendo uma ciência exata, as pessoas se sentem um pouco especialistas no assunto. Agrava o problema o fato de a sala de aula ser um lugar que, um dia na vida, todo mundo freqüentou. O resultado dessas crenças é perverso: no mundo todo, ainda são raras as políticas na educação guiadas por evidências empíricas, colhidas ao longo de estudos longitudinais e realizadas com rigor científico, como ocorre em outros setores. Políticas respaldadas em achismos são desastrosas. Elas fazem os países perder dinheiro duas vezes.

 

Como a falta de rigor científico nas medidas para a educação causam prejuízo a um país?

Ao se perderem em opiniões vazias de pretensos especialistas, os governos desperdiçam a chance de se beneficiar de práticas já testadas com sucesso. Ao contrário disso, investem tempo e dinheiro em medidas inócuas, que não resistiriam a uma consulta rápida às experiências internacionais e a um mergulho nos números. Eles logo revelariam sua inutilidade. Mesmo grandes instituições cheias de boas intenções cometem erros básicos por subestimar os fatos.

O senhor citaria uma?

Sim, o Banco Mundial. Ele erra ao investir em programas mais focados na quantidade de alunos do que propriamente naqueles com o objetivo de elevar o padrão do ensino. Chegar à escola é um primeiro passo – mas só isso. O que determina mesmo o crescimento de um país é quanto de conhecimento poderá ser extraído da sala de aula.

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O fim de um erro, diz Steve Bell

 

A vitória de Obama trouxe a esperança ao seio da humanidade! Pessoas do Steve Belt - A estrela brilhante trituradamundo todo comemoraram a “vitória histórica de Obama”. Muito mais do que um presidente (da maior potência que há no universo [até onde nós sabemos…]), ele é a a mudança em pessoa – hoje é o amanhecer de uma nova era – será a “era de aquário”?

 

Será?

Bom, algumas bolsas em torno do mundo amanheceram em alta… Mas pode ser, apenas, a “empolgação da primeira ficada”.

O que deve ser mudado, todos nós sabemos. E o que pode ser mudado? – como fica? Porque, ao meu ver, nem tudo pode ser mudado; muito menos a qualquer momento…

A primeira Página do NYT, também faz alusão à mudança: “barreira racial cai na medida em que os eleitores abraçam convite (call) à mudança”.

Na seção Carta (dos leitores) para o Editor do NYT (The New York Times), a vitória de Obama para certo leitor significa: o fim de um longo pesadelo; de uma administração que travou guerra em países muçulmanos, que triturou regulamentações ambientais, além de ter desacatado tanto a corte, quanto ter contestado a Constituição. E completa: "Obama, porém, é herdeiro – além dos que já foram ditos: "do pesadelo da recessão que está encabeçando uma depressão". E de fato, é um grande problema, não só para Obama, mas para todos nós. Já vi alerta de que, no ano que vem, o índice de desemprego irá aumentar no MUNDO todo!!! Além disso, o líderes ‘daszoropa’ já afirmaram que regulamentações ambientais já estão em segundo plano (pra lá), devido ao problema da economia – temos um novo Deus: A Economia, uau! Não é UM deus – dobre sua língua: mas sim UMA Deusa! – finalmente temos uma figura feminina de destaque no planeta! O meio ambiente já era: carta fora do baralho! O que importa é A Economia!

Na página principal do jornal guardian.co.uk, le-se: "Presidente Obama: mudança" – vejam, há um novo conceito: mudança – marque bem essa palavra!

Um outro leitor citou Martin Luther King: "Este dia é o despertar, o dia sonhado pelo Revolucionário Dr. Martin Luther King Jr., quando um homem é julgado devido ao seu caráter, e não por causa da cor de sua pele".

Os dois leitores acima, são os da mudança. Agora, um leitor que tem medo dela:

Afirma que votou no MacCain, e lamenta muito o fato dele ter perdido. Reclama da oposição ter prejudicado o governo vigente até então. E afirma que os Republicanos, como ele, não farão o mesmo! Porque tal comportamento, inibiria a habilidade de lidar com as mudanças complexas e significantes que "nosso país enfrenta (faced) hoje". – percebam o medo da mudança no seio desse cidadão… Ele vai ter que ENCARAR as mudanças… AHUaH – coitado…

Os brasileiros como um todo gostaram da a vitória de Obama – eu gostei! Ora, ele é bem mais bonito que o Cain, e bem mais jovem; ademais, a mulher dele dá um caldo… Mas até agora ele não disse – ao menos eu não ouvi – declaração alguma a respeito do nosso Brasil, nem mesmo sobre a América Latina como um todo. E a questão Iraque, o conflito Israel-Palestina!? Bom… só o tempo irá dizer.

Ah, mas isso não importa! O importante é a ESPERANÇA! As questões ambientais, de direitos humanos, a economia mundial… Tudo isso é para os perdedores! Ele mantendo a chama ESPERANÇA acesa em nossos corações é o que importa! HUaHA

Porque você pode perder tudo: o carro, a namorada, o semestre na faculdade – mas nunca perca a esperança! É ela que nos dá força para viver – como se viver SEMPRE fosse bom, né? HeHE.

E é isso! Como diz Belchior: “você pode dizer que estou por fora, ou que estou inventando. Mas é VOCÊ que ama o passado e não vê. É VOCÊ que ama o PASSADO e não vê que o novo – o novo sempre vem”.

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