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Archive for the ‘Entrevista’ Category

Que bonzinho o Marcelo, não!? – vamos divulgar, claro!!

Eu pretendo ir – se Deus quiser… AHUaHUAHUAHa

Autor: Marcelo Araújo –

Portal SESC SP

Email marceloaraujo@sescsp.org.br

URL http://www.sescsp.org.br

Olá! Sabendo de seu interesse em literatura, o SESC São Paulo convida você para assistir ao vivo Boris Schnaiderman e sua experiência como tradutor do escritor russo Tolstói, em transmissão direta do SESC Pompeia.

O encontro, que acontece neste domingo [13/12] às 18h, tem leitura de trechos das obras A sonata a Kreutzer e Anna Karenina e video chat aberto para perguntas e discussão.

O link para assistir ao vivo é: http://www.tvaovivo.net/sescsp/tertulia

Em breve todas as transmissões do Tertúlia – Encontros Literários estarão disponíveis on demand pelo canal do SESC no Youtube: http://www.youtube.com/portalsescsp, mas por enquanto é possível assistir aos vídeos pela matéria na Revista Eonline http://bit.ly/1aBDwf.

Contamos com sua colaboração para divulgar em seu blog e também para quem você sabe que ficaria muito bravo se perdesse a oportunidade de interagir com o tradutor dos russos no Brasil.

Agradecemos desde já.

Atenciosamente, Marcelo Araújo Mídias Socias Portal SESC SP

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Jorge Furtado – Co-roteirista

O nome de Jorge Furtado tornou-se conhecido após o estrondoso sucesso do curtametragem “Ilha das Flores” (1989), ganhador do Urso de Prata no Festival de Berlim e nada menos do que cinco Kikitos no Festival de Gramado, para citar apenas algumas de
suas premiações. Desde então, Jorge consolidou sua carreira de criador, alternando ou
acumulando os papéis de roteirista e diretor, no cinema e na TV.

São destaques do seu trabalho para a TV as minisséries “Agosto”, “Caramuru – A
Invenção do Brasil” e “Antonia”, além de seriados como “A Comédia da Vida Privada”.
No cinema, ele lançou no ano passado “Saneamento Básico – O Filme” (2007), com um
elenco que reunia Wagner Moura, Lázaro Ramos, Camila Pitanga e Fernanda Torres.
Também dirigiu e escreveu o roteiro de “Meu Tio Matou um Cara” (2005), “O Homem
que copiava” (2003) e “Houve uma vez Dois Verões” (2002), para lembrar os longasmetragens
mais recentes.

ENTREVISTA COM JORGE FURTADO:
1 – Qual foi o ponto de partida para o roteiro de “Romance”?
JF – Foi a investigação da “invenção do amor”, a lenda de Tristão e Isolda e também o
estudo clássico de Denis de Rougemont, “A História do Amor no Ocidente”. Além de
Tristão e Isolda, a nossa história tem também um pouco de Cyrano de Bergerac (de
Edmond Rostand), uma pitada de Dom Quixote e 450 gramas de Shakespeare. O resto é
mentira.

2 – Você poderia falar um pouco sobre a sua parceria _ de longa data _ com o Guel
Arraes?

JF – Já fizemos muitas coisas juntos e faremos tantas outras, espero. É divertido.

3 – Em qual papel você se sente mais confortável, como roteirista ou diretor?
JF – Como espectador, sem dúvida. Em segundo lugar, como roteirista, em silêncio,
entre os livros. E, por último, como diretor, de pé, gritando, na chuva, tentando cumprir
cronogramas. Nem sempre o que é mais confortável é o mais prazeroso ou o mais útil.

 

4 – “Romance” é um filme que embute uma montagem teatral e um especial de TV.
Como é a sua relação com cada um destes meios: cinema, teatro e TV?
JF –
Gosto dos três, dependendo do dia ou da hora. Cinema é uma forma de expressão
poderosa, capaz de quase tudo. Teatro, muito mais antigo, é quase uma função vital,
mais necessário que religião ou política. Já a televisão… A televisão é um meio de
comunicação, como o rádio. A televisão é uma forma de levar para dentro da nossa casa
coisas fundamentais, como o teatro, o cinema, a política, a religião e os gols do Grêmio.

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“O único sofrimento de amor é não ser correspondido.”(Ana); São Paulo é o grande pólo produtor e consumidor de teatro do país; a cultura popular nordestina é ainda bastante ligada à sua herança medieval
européia

ENTREVISTA COM O DIRETOR GUEL ARRAES

Nos anos 90, Guel foi um dos responsáveis pela reconfiguração do mercado audiovisual
brasileiro. Dirigida por ele, a minissérie “O Auto da Compadecida” estreou na TV no
início de 1999 e foi adaptada para o cinema em 2000. Sucesso de público (2.157.166
espectadores), o longa-metragem ganhou ainda o Grande Prêmio Cinema Brasil nas
categorias Melhor Diretor, Melhor Ator (Matheus Nachtergaele), Melhor Roteiro e
Melhor Lançamento.

1 – Como surgiu a idéia de fazer “Romance”?
GA – Começamos pela vontade de fazer uma história de amor. Mais especializados em
comédias, tínhamos feito pouca coisa no gênero antes: a parte mais melodramática de
“Lisbela e o Prisioneiro”; cenas românticas de “O Homem que Copiava”, de Jorge
Furtado; um ou outro trecho de “Comédias da Vida Privada”… A partir dessas
experiências, afinamos um tom e desenvolvemos a história de atores que se apaixonam
montando uma história de amor. Foi um artifício para abordar o tema __ o amor __ de
duas formas diferentes: ao mesmo tempo em que os personagens vivem uma história de
amor em suas “vidas”, eles estão também discutindo a história do amor através da
literatura com a montagem de “Tristão e Isolda”.

2 – Como foram as filmagens?
GA – Ensaiamos algumas semanas no próprio teatro, onde se passava boa parte das
cenas. Quando fomos filmar, de alguma maneira, já éramos uma pequena trupe de
teatro, como no filme.

3 – Como foi feita a escolha do elenco?
GA – Esta é uma etapa fundamental e começa já na redação do roteiro. Costumo rever
cenas dos atores que estou escolhendo e releio o texto pensando em cada um fazendo o
papel. No caso de “Romance”, houve uma preocupação extra, afinal a maioria dos
personagens são atores. Representar, na vida real ou na ficção, é um dos temas do filme.
Tratava-se, então, de escalar atores pra fazer papéis de atores. De alguma maneira, mais que o habitual, eles emprestam suas personalidades aos personagens.
Para a Ana, eu procurava uma atriz que tivesse a estampa de uma musa. Pensava que ela teria para o Pedro, seu diretor, o papel que teve, por exemplo, Leila Diniz para
Domingos Oliveira ou Anna Karina para Godard. Na segunda parte do filme, seu caráter
serviria também para convencer o público de que ela se transformou numa estrela de
TV. Já Pedro é o “nosso” representante no filme. É um pouco a síntese deste grupo de
diretores e roteiristas, com quem trabalho há anos. Wagner é um ator da nova geração
com quem nos identificamos e que nos foi revelado pelo João Falcão em “A Máquina”.
Já escrevemos a personagem da produtora pensando em duas atrizes: Andréa Beltrão ou
Fernanda Torres. Se fosse a Nanda, ela se chamaria Andréa; como foi a Andréa, a
personagem passou a se chamar Fernanda.

O personagem do Vladimir exige várias qualidades: tem que ter pinta de galã e ser um
bom comediante, para funcionar em dupla com a Andréa. O Wilker e o Nanini vieram
porque precisávamos de bons atores de comédia com autoridade junto ao público para
representar tanto um grande produtor de TV quanto um ator estrelado como o Rodolfo
Maia. Tonico Pereira, Bruno Garcia e Edmilson Barros são atores que eu gosto muito e
aceitaram participar em papéis pequenos.

4 – Como foi a divisão do roteiro com Jorge Furtado?
GA – Como sempre: vamos fazendo juntos a história. Conversamos algumas horas do
dia para isso. Depois, dividimos as cenas e cada um escreve os diálogos separadamente.
Daí, repassamos o script, discutindo as cenas escritas, e vamos fazendo os sucessivos
tratamentos. Desta vez, não nos encontramos ao vivo uma única vez. Nossa
comunicação foi por Skype e e-mail, já que ele estava em Porto Alegre e eu, no Rio.

5- Como se deu a escolha de três estados como locação: São Paulo, Rio de Janeiro e
Paraíba?
GA –
São Paulo é o grande pólo produtor e consumidor de teatro do país. É lá que está
a cena alternativa da qual fazem parte Ana e Pedro. O Rio concentra a produção de TV.
Essa divisão geográfica ajuda a estabelecer melhor a dicotomia arte-indústria e também
a separação do casal em determinado momento da história. A Paraíba surgiu mais tarde,
pela necessidade de que o especial de o “Romance de Tristão e Isolda” fosse adaptado a
algum ambiente típico do Brasil e gerasse a idéia de que o ator principal seria escolhido
no local, introduzindo o personagem José de Arimatéia. O Nordeste era uma escolha
natural. A cultura popular nordestina é ainda bastante ligada à sua herança medieval
européia de onde nos vem a história de Tristão e Isolda. A literatura de cordel, por
exemplo, é também chamada de romance de cordel. Além disso, há uma razão mais
prosaica, que não participa diretamente da história: uma piscada de olho para a
adaptação que eu tinha feito de “O Auto da Compadecida” e que usava a mesma
conexão Nordeste – Idade Média.

6 – Como “Romance” se insere na sua filmografia?
GA – É um trabalho diferente da maioria dos trabalhos que já fiz para a TV e para o
cinema: pelo gênero, uma história de amor; e pela abordagem, mais pessoal.

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Os EUA sentem-se hoje profundamente inseguros devido ao fracasso da aventura unilateral; Mesmo uma reforma basilar das instituições centrais das Nações Unidas não seria suficiente; O Estado social é uma proeza tardia e frágil.O mercado arromba a sociedade, e o Estado social a fecha novamente?

O novo presidente precisa se impor contra as elites dependentes de Wall Street e se afastar dos reflexos de um novo protecionismo. Obama, num primeiro momento, não poderá cumprim suas promessar: terá que se ocupar com a economia

habermas Um dos mais importantes filósofos vivos, o alemão Jürgen Habermas fala nesta entrevista sobre os efeitos da atual crise financeira sobre o futuro dos Estados nacionais. Para ele, as mudanças que o sistema político mundial sofrerá nos próximos anos irá depender necessariamente das posições que os EUA -e seu novo presidente- irão adotar. Habermas defende que os EUA, mesmo enfraquecidos, ainda permanecerão como a superpotência liberal.

PERGUNTA – O sr. deve estar decepcionado com os EUA, que, em sua opinião, foram o cavalo de tração da nova ordem mundial.

JÜRGEN HABERMAS – O que nos resta a não ser apostar nesse cavalo de tração? Os Estados Unidos sairão enfraquecidos da dupla crise atual. Mas permanecerão por enquanto a superpotência liberal. A exportação mundial da própria forma de vida correspondeu ao universalismo falso, centralizado, dos velhos ricos. Em contraposição, a modernidade se alimenta do universalismo descentralizado do respeito igual por cada um. É do próprio interesse dos EUA não somente deixar de lado seu posicionamento contraproducente em relação à ONU, mas também colocar-se no topo do movimento reformista. Do ponto de vista histórico, a combinação de quatro fatores oferece uma constelação extraordinária: superpotência, mais antiga democracia na terra, a posse de um presidente liberal e visionário e uma cultura política na qual orientações normativas encontram um notável solo de ressonância. Os EUA sentem-se hoje profundamente inseguros devido ao fracasso da aventura unilateral, à autodestruição do neoliberalismo e também ao mau uso de uma consciência de excepcionalidade. Por que essa nação não poderia, como fez com tanta freqüência, recompor-se de novo e tentar integrar a tempo as grandes potências concorrentes de hoje -e potências mundiais de amanhã- em uma ordem internacional que prescinda de uma superpotência? Por que um presidente -que, saído de uma eleição decisiva, irá encontrar somente um espaço mínimo de ação- não desejaria, pelo menos na política externa, agarrar essa oportunidade razoável, essa oportunidade da razão?

PERGUNTA – Falando assim, o sr. não arrancaria mais do que um riso cansado dos chamados "realistas"…

HABERMAS – O novo presidente americano precisa se impor contra as elites dependentes de Wall Street no próprio partido; ele também deveria ser afastado dos reflexos evidentes de um novo protecionismo. E os EUA precisariam, para uma meia-volta tão radical, do impulso amigável de um aliado leal, mas autoconsciente. Só pode existir um Ocidente "bipolar", no sentido criativo, se a União Européia aprender a falar para fora com uma só voz. Em épocas de crise, talvez seja necessária uma perspectiva que tenha um alcance mais longo do que o conselho do "mainstream" embonecado do sucesso a qualquer custo.

PERGUNTA – O sistema financeiro internacional entrou em colapso, e há a ameaça de uma crise econômica mundial. O que mais o inquieta?

HABERMAS – O que mais me inquieta é a injustiça social, que consiste no fato de que os custos socializados oriundos da pane do sistema atingem da forma mais dura os grupos sociais mais vulneráveis. Assim, solicita-se da massa composta por aqueles que, de qualquer modo, não pertencem aos que lucram com a globalização que ela de novo pague pelas conseqüências, em termos da economia real, de uma falha funcional previsível do sistema financeiro. Também em escala mundial, esse destino punitivo efetua-se nos países mais fracos economicamente. Esse é o escândalo político. Mas apontar agora bodes expiatórios, isso, sem dúvida, considero hipocrisia. Também os especuladores comportaram-se de forma conseqüente, nos limites da lei, de acordo com a lógica, aceita socialmente, da maximização dos ganhos. A política se torna ridícula quando moraliza, em vez de se apoiar no direito coativo do legislador democrático. Ela, e não o capitalismo, é responsável pela orientação voltada ao bem comum.

PERGUNTA – Para os neoliberais, o Estado é somente um parceiro no campo econômico e precisa se apequenar. Agora esse pensamento não tem mais crédito?

HABERMAS – Isso dependerá do desenrolar da crise, da capacidade de percepção, por parte dos partidos políticos, dos temas públicos.

PERGUNTA – Por que o bem-estar é hoje distribuído de forma tão desigual? O fim da ameaça comunista desinibiu o capitalismo ocidental?

HABERMAS – O capitalismo contido no âmbito dos Estados nacionais, cercado por políticas econômicas keynesianas, marcado por um bem-estar incomparável -do ponto de vista histórico-, já havia acabado logo após o abandono do câmbio fixo e do choque do petróleo. De fato, a ruína da União Soviética desencadeou um triunfalismo fatal no Ocidente. A sensação de ter razão, em termos da história mundial, tem um efeito sedutor. Neste caso, inchou uma doutrina político-econômica e a tornou uma visão de mundo que penetra em todas as esferas da vida.

PERGUNTA – De que o mundo sentiu falta depois de 1989? O capital simplesmente se tornou poderoso demais diante da política?

HABERMAS – Ficou claro para mim, ao longo dos anos 1990, que as capacidades políticas de ação precisavam crescer atrás dos mercados, no plano supranacional. À globalização econômica deveria ter seguido uma coordenação política mundial e a legitimação adicional das relações internacionais. Mas as primeiras peças adicionais já ficaram atoladas no governo de Bill Clinton. Desde o início da modernidade, o mercado e a política sempre precisaram se contrabalançar de forma que a rede de relações solidárias entre os membros de uma comunidade política não se rompesse. Uma tensão entre capitalismo e democracia sempre existe porque mercado e política repousam sobre princípios opostos.

PERGUNTA – Mas o sr. insiste no cosmopolitismo de Kant e acolhe a idéia de uma política interna mundial, introduzida por Carl Friedrich von Weizsäcker. Isso soa bastante ilusório -basta que se observe o estado atual das Nações Unidas.

HABERMAS – Mesmo uma reforma basilar das instituições centrais das Nações Unidas não seria suficiente. De fato, o Conselho de Segurança, o Secretariado, as cortes de Justiça precisariam urgentemente entrar em forma para uma imposição global dos direitos humanos e da proibição da violência -em si já uma tarefa imensa. Nesse plano transnacional, há problemas de distribuição que não podem ser decididos do mesmo modo que infrações contra os direitos humanos ou violações de segurança internacional, mas precisam ser negociados de forma política.

PERGUNTA – Mas para isso já existe uma organização experimentada, que é o G-8.

HABERMAS – Isso é um clube exclusivo, no qual algumas dessas questões são discutidas de forma descomprometida. Entre as expectativas exageradas que se ligam a essas encenações e o resultado medíocre do espetáculo midiático sem conseqüências, existe uma desproporção traiçoeira.

PERGUNTA – O discurso sobre a "política interna mundial" soa antes como os sonhos de um vidente.

HABERMAS – Ainda ontem a maioria consideraria não realista aquilo que ocorre hoje: os governos europeus e asiáticos superam-se mutuamente em sugestões de regulamentações em vista da institucionalização insuficiente dos mercados financeiros.

PERGUNTA – Mesmo que novas competências fossem atribuídas ao Fundo Monetário Internacional, isso ainda não seria uma política interna mundial.

HABERMAS – Não quero fazer previsões; em vista dos problemas atuais, o que podemos fazer, na melhor das hipóteses, são considerações construtivas. Os Estados nacionais deveriam, de forma crescente e, com efeito, em seu próprio interesse, se perceber membros da comunidade internacional. Quando hoje falamos de "política", estamos amiúde falando da ação de governos que herdaram uma autoconcepção como atores coletivos, que decidem de forma soberana. Mas essa autoconcepção de um Leviatã, que, desde o século 17, se desenvolveu junto com o sistema de Estados europeu, hoje já não é mais vigorosa. O que chamávamos ontem de "política" muda diariamente seu estado.

PERGUNTA – Mas como isso se coaduna com o darwinismo social, que, como o sr. diz, se expande novamente na política internacional desde o 11 de Setembro?

HABERMAS – Talvez se devesse dar um passo atrás e observar uma conjuntura maior. Desde o final do século 18, o direito e a lei permearam o poder do governo, constituído politicamente, e lhe negaram, na circulação interior, o caráter substancial de um simples "poder". Mas ele guardou para si uma quantidade suficiente dessa substância, apesar da rede de organizações internacionais e da força de coesão crescente do direito internacional. Ainda assim, o conceito de "político", cunhado no âmbito do Estado nacional, está se liquefazendo. Na União Européia, por exemplo, os Estados-membros, no passado e no presente, guardam o monopólio da força e também transpõem, mais ou menos sem reclamações, o direito que é determinado na esfera supranacional. Essa mudança de forma do direito e da política também se relaciona a uma dinâmica capitalista que pode ser descrita como interação entre abertura forçada funcionalmente e fechamento sociointegrativo em níveis cada vez mais elevados.

PERGUNTA – O mercado arromba a sociedade, e o Estado social a fecha novamente?

HABERMAS – O Estado social é uma proeza tardia e frágil. Os mercados e as redes de comunicação sempre em expansão já tiveram uma força de arrombamento, que, para o cidadão individual, é, ao mesmo tempo, individualizante e libertadora. A isso, porém, sempre seguiu uma reorganização das velhas relações de solidariedade numa moldura institucional expandida. Esse processo iniciou-se no início da modernidade, quando os estamentos dirigentes da Alta Idade Média se tornaram, passo a passo, parlamentares -como na Inglaterra- ou foram subjugados por reis absolutistas -como na França. Essa domesticação jurídica do Leviatã e do antagonismo entre as classes não foi simples. Mas, pelas mesmas razões, a bem-sucedida constitucionalização do Estado e da sociedade aponta hoje, após um surto de globalização econômica, para uma constitucionalização do direito internacional e da esfacelada sociedade mundial.

Entrevista
Thomas Assheuer
FOLHA DE S. PAULO/ MAIS!

A íntegra desta entrevista saiu no "Die Zeit". Tradução de Erika Werner.

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O crítico inglês afirma que: a gravações de música erudita, e não ela, estão morrendo. Mas o significado cultural dessa perda é enorme;os discos de música erudita já pertencem ao passado e que o gênero terá de encontrar seu futuro na internet

Sérgio Martins – Entrevista: Norman Lebrecht

O crítico inglês Norman Lebrecht, 59 anos, é uma das personalidades mais temidas do mundo musical. Ele se destaca pelo retrato pouco romântico que faz dos bastidores da música erudita. Já contestou a importância do regente no livro O Mito do Maestro e ironizou as festividades em torno do aniversário de 250 anos do nascimento de Mozart. Sua obra mais recente, Maestros, Masterpieces and Madness (Maestros, Obras-Primas e Loucura), discorre sobre o desaparecimento iminente dos discos de música erudita e o impacto cultural desse acontecimento. O livro contém uma lista das 100 gravações mais influentes da história. O toque ácido fica por conta de um outro ranking, com os vinte piores discos de todos os tempos. "Até reuniões de gênios podem resultar em desastre", diz o autor. De sua casa, em Londres, Lebrecht falou a VEJA sobre a decadência das grandes gravadoras, sobre o papel dos maestros e sobre os compositores eruditos que merecem atenção no presente.  

Veja – A música erudita está morrendo?
Lebrecht – Não. São as gravações de música erudita que estão morrendo. Mas o significado cultural dessa perda é enorme. É algo assim como se Veneza afundasse nas águas, no meu entendimento. As gravações são uma atividade artística muito especial, diferente de um recital ou concerto ao vivo. Elas pedem outro tipo de disciplina, uma busca mais obstinada pela perfeição, pois qualquer deslize ficará registrado para sempre, sem disfarce. A era das gravações começou em 1902, com um disco de árias pelo tenor italiano Enrico Caruso, e agora está chegando ao seu final melancólico. Nesse meio tempo, ela tornou possível duas coisas. Primeiro, fez com que uma parcela fundamental de nossa civilização – as criações de Bach, de Haydn ou de Beethoven – se tornasse acessível a qualquer um, em qualquer lugar do planeta. Em segundo lugar, permitiu que nossa tradição fosse esmiuçada e reinterpretada como nunca antes, fazendo e desfazendo reputações, alterando o gosto musical continuamente. Enfim, não é a música que está morrendo, mas a maneira como as pessoas descobriram a música e conviveram com ela ao longo do último século. Não é pouca coisa.

Veja – O que levou a essa situação?
Lebrecht – Dois fatores: o impacto causado pela música pop e o desaparecimento de um certo tipo de executivo ligado às gravadoras de música erudita. Bastam alguns números para se ter uma idéia do primeiro fenômeno. Em 1965, um em cada quatro discos vendidos era de música erudita. Oito anos depois, à medida que as gravações de rock e outros gêneros de música pop se popularizavam, a proporção já havia caído para um em 25. Um único grupo de rock, os Beatles, vendeu 1,3 bilhão de discos ao redor do mundo em cerca de quarenta anos. Isso equivale ao total de vendas da música erudita em quase um século. Em outras palavras, foi cada vez mais difícil para as gravadoras manter-se saudáveis e preservar sua fatia de mercado. Mas as pessoas ligadas a essas gravadoras também tiveram culpa. Os pioneiros da era das gravações foram pessoas extraordinárias. Estou falando de personagens históricos como Elsa Schiller, ex-prisioneira de um campo de concentração que ajudou a criar a Deutsche Grammophon, o mais famoso entre os selos eruditos. À medida que essas pessoas se aposentavam, profissionais despidos de sensibilidade e imaginação as substituíam. O que fez Goddard Lieberson, lendário presidente da gravadora Columbia, com o primeiro grande lucro que obteve nos anos 60? Ele reinvestiu todo o dinheiro em música. Contatou o compositor russo Igor Stravinski e o convenceu a gravar toda a sua obra na companhia. Da mesma forma John Culshaw, da Decca Records, era tão fanático pelo ciclo O Anel dos Nibelungos, de Richard Wagner, que financiou a gravação integral da obra pelo regente húngaro Georg Solti. Pois bem. Na década de 90, as companhias de discos viveram o boom do CD, quando todo mundo trocou sua coleção de vinis pelos compact discs. O que os novos diretores de gravadoras fizeram? Lançaram mais e mais do mesmo, sem pensar na inovação. Hoje existem 475 gravações de As Quatro Estações, de Vivaldi, e 275 Quintas Sinfonias, de Beethoven. Quem precisa de tudo isso?

Veja – Na literatura, costuma-se dizer que cada geração precisa de uma nova tradução de Homero ou Shakespeare. Não é natural que os clássicos sejam sempre revisitados?

Lebrecht – Há uma diferença entre repetição e reinterpretação. Eu não critico a reinterpretação. Apreciar a evolução das interpretações da Quinta de Beethoven, do regente Arthur Nikisch, em 1913, a Gustavo Dudamel, em 2005, é sem dúvida uma experiência extraordinária. Meu problema é com a repetição indiscriminada. Num mesmo ano recente, foram lançados três discos contendo a Quinta Sinfonia, de Anton Bruckner, e dois contendo Tristão e Isolda, de Wagner. A indústria ficou sem idéias, perdeu o controle e partiu para lançamentos sem critério artístico.

Veja – Há futuro para a música erudita?

Lebrecht – Sim, na internet. Em quatro ou cinco anos, creio que vamos desfrutar apresentações transmitidas pelo computador. As gravações também poderão ser distribuídas em formato digital, sem a intermediação de gravadoras. Infelizmente, muita coisa vai se perder até lá. Por exemplo: o regente de ascendência italiana Antonio Pappano, titular da Royal Opera House, liderou recentemente quatro récitas de O Anel dos Nibelungos. Não houve gravação em CD, muito menos em DVD. Ficarão apenas na memória de quem teve o privilégio de assistir a elas em Londres.

Veja – Seu livro mais recente contém duas listas: uma com as 100 melhores e outra com as vinte piores gravações já feitas. Qual é seu propósito com essas listas?

Lebrecht – A primeira lista não é exatamente sobre as "melhores" gravações, mas sobre as mais significativas, aquelas que deixaram uma marca e fizeram com que os discos eruditos se tornassem, ao longo do século XX, um artefato cultural tão importante. Discuto menos as qualidades intrínsecas da música do que as circunstâncias da gravação do disco e o seu impacto. Por exemplo, quando o alemão Fritz Kreisler gravou o Concerto para Violino de Beethoven com a Berlin State Opera, em 1926, mudou para sempre a maneira como se tocava violino, pois acrescentou um vibrato às passagens mais suaves da música para compensar as inadequações da reprodução sonora. Da mesma forma, o registro das Sonatas e Partitas para Violino de Bach, feito em 1973 por Nathan Milstein, levou muitos violinistas eminentes a jurar nunca tocar aquela música, pois parece impossível superar a performance de Milstein. Quanto à lista dos vinte piores discos, ela foi sobretudo uma diversão. Eu poderia facilmente ter listado cinqüenta. Novamente, o propósito não era apontar música ruim feita por músicos sem talento. Pelo contrário, queria mostrar que mesmo uma reunião de gênios pode resultar num desastre. É o caso da célebre gravação do Concerto Triplo de Beethoven feita pelo trio de ouro Richter, Oistrakh e Rostropovich em 1969, com Herbert von Karajan na regência. Os músicos não se entenderam, Karajan pressionou todos com a agenda de gravação e o resultado é que nenhuma nota do disco tem significado musical verdadeiro.

Veja – Se quisesse seduzir um novato para o mundo da música erudita, qual disco da sua lista de 100 recomendaria que ele ouvisse?

Lebrecht – O Concerto Duplo de Bach tocado por David e Igor Oistrakh, pai e filho. Você nunca encontrará um exemplo melhor da comunicação entre gerações do que nesse disco.

Veja – No livro O Mito do Maestro, o senhor diz que há muita mistificação em torno da figura do regente. O que faz um bom maestro?

Lebrecht – Além de seus outros pecados, a indústria musical ajudou a "estragar" os regentes. Ela os mimou demais, e muitos se sentiram como semideuses. É o caso de Herbert von Karajan, um artista talentoso mas de uma vaidade absurda, que dominou o mercado por quase meio século. O bom regente, na minha opinião, é aquele que coloca a sua personalidade numa orquestra. Eu não percebo isso num Daniel Barenboim, que passou mais de uma década à frente da Sinfônica de Chicago e não avançou nenhum milímetro em relação à época em que a orquestra era comandada por Georg Solti. Em compensação, poucos têm a personalidade de Lorin Maazel. Certa vez, Mariss Jansons, outro regente que admiro, foi ao meu programa de rádio. Ele disse que demorou cinco anos para se livrar da sombra de Maazel, seu antecessor na Sinfônica de Pittsburgh. A isso chamamos personalidade. Entre os novos, creio que o venezuelano Gustavo Dudamel fará uma carreira brilhante. Eu o vi algumas vezes e fiquei impressionado. Um spalla de uma das maiores orquestras do mundo me mandou um dia desses um e-mail com a seguinte frase: "Não compare Dudamel com nenhum outro regente. Em 60 anos de vida, jamais me vi diante de um músico tão fenomenal".

Veja – No século XX, a música erudita fugiu da melodia em busca do atonalismo. Isso afastou o público?

Lebrecht – O atonalismo foi inevitável. Ele ganhou corpo numa era de trauma e ruptura, o período da II Guerra Mundial, quando um grupo de compositores quis criar músicas que não tivessem relação com o passado. As platéias viram essa mudança como uma traição. Existia uma idéia de que artista e público tinham de andar lado a lado. Quando uma das partes muda de estilo e diz que não quer saber a opinião do público, cria-se um impasse. O atonalismo afugentou as platéias e essa rejeição atingiu muitos autores contemporâneos que faziam uma música menos atonal. Como o compositor checo Bohuslav Martinu, que sofreu uma rejeição sem precedentes sem de fato a merecer. Hoje em dia, acho que artistas e platéias estão menos radicais. Pode-se saborear as obras de um artista como o argentino Osvaldo Golijov, que tem uma música ousada, mas sem atonalismo.

Veja – Qual é o papel desempenhado pela crítica na música erudita?


Lebrecht – Infelizmente, a imprensa musical é parte da crise da música erudita. Ela se tornou pouco confiável ao longo dos anos e está comprometida com as gravadoras. Tomemos uma publicação respeitada como a Gramophone. Seu editor se orgulha de jamais ter publicado uma crítica negativa – e acho pouco provável que tenham sido lançados apenas discos sensacionais. Além disso, é comum que os editores mostrem as resenhas aos executivos das gravadoras antes de elas serem publicadas. É uma traição ao público.

Veja – É possível trazer os jovens de volta às platéias de concertos?

Lebrecht – Seria necessário mostrar a eles que a música erudita pode ser tão vibrante quanto um concerto de rock – e nós sabemos que ela pode. Formou-se um círculo vicioso. Os jovens não querem ir a um local em que o público tem a mesma idade de seu pai ou de seu avô, e com isso se perpetua a idéia de que a música erudita é algo formal e envelhecido. É uma pena, porque o envelhecimento das platéias também se reflete nos artistas. Outro dia, a violinista Anne-Sophie Mutter declarou que pensa em se aposentar. Ela tem apenas 44 anos, poderia ter mais três décadas de atividade. Mas a decisão dela é compreensível se pensarmos que Anne-Sophie toca sempre o mesmo concerto para as mesmas pessoas. Perdeu a empolgação.

Veja – No ano passado, durante as comemorações dos 250 anos de nascimento de Mozart, o senhor causou polêmica ao afirmar que a obra dele não tem nada de inovador. Ainda pensa assim?


Lebrecht – Você não precisa ler meus artigos para chegar à conclusão de que Mozart nunca foi um grande inovador. O maestro austríaco Nikolaus Harnoncourt, especialista na obra de Mozart, já defendeu a tese de que sua música não traz grandes inovações em relação ao que foi feito por Haydn – este, sim, um grande gênio. O que mais me irrita é a mozartmania, que dá origem a caça-níqueis como as gravações para bebês ouvirem quando ainda estão na barriga da mãe. No ano passado, praticamente todas as gravadoras lançaram discos dedicados a Mozart. Como se a obra dele fosse tão poderosa a ponto de trazer o público de volta para a música erudita. Isso aconteceu? Claro que não. Se eu fizesse uma comparação entre os autores eruditos e a gastronomia, Mozart seria no máximo um McDonald’s.

Veja – Algum maestro foi favorável ao seu artigo sobre Mozart?


Lebrecht – Publicamente, não. Mas muitos deles me diziam que estavam cansados de reger as mesmas obras de Mozart. "Norman, estou sofrendo de mozartite. Por favor, me dê um pouco de atonalismo."

Veja – Quais compositores clássicos mereceriam maior atenção do público atual?


Lebrecht – O ano de 2009 marcará o bicentenário da morte de Haydn. Quantas vezes foi possível apreciar as 104 sinfonias desse compositor, sem falar nas óperas que ele escreveu? Haydn criou o formato da sinfonia que anos mais tarde seria absorvido por Mozart. Ele não tem a mesma versatilidade de seu discípulo famoso, mas, por favor, vamos deixar Mozart de lado e ouvir mais Haydn. Eu digo o mesmo em relação a Mendelssohn, Schumann e Liszt. Eles deveriam estar bem mais presentes nas salas de concerto. São criaturas de uma era mais tardia, que empreenderam buscas musicais mais conscientes e significativas para o nosso tempo. Esses três compositores abordaram as grandes questões humanas em suas partituras. Mozart compunha por instinto, sem visar a nada muito mais elevado do que entreter e ganhar a vida.

Veja – A grande novidade da música erudita nos últimos tempos foi a Finlândia, país que se tornou exportador de grandes maestros. O que os finlandeses fizeram de certo?


Lebrecht – A Finlândia tem se tornado uma potência não apenas na regência. Eles estão tendo avanços na tecnologia também. Qual é a marca do seu aparelho celular? Pois o meu é de uma empresa da Finlândia. E sabe por que a Finlândia será uma potência? Porque as crianças aprendem a ler música e a tocar um instrumento musical na mesma época em que aprendem a ler e escrever. Em suma, são orientadas a desenvolver o cérebro – e isso ajuda em outras atividades.

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Educação é dinheiro – especialista em combater com números os mitos sobre a sala de aula, o economista americano Eric Hanushek mostra como o bom ensino pode ser decisivo para o crescimento econômico

 

Por Camila Pereira
Revista Veja – 17/09/2008

 

Poucos estudiosos se dedicam a compreender a educação com uma visão tão científica quanto a do americano Eric Hanushek. Professor da Universidade Stanford e doutor em economia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), ambos nos Estados Unidos, é dele a mais extensa pesquisa já feita sobre os efeitos de um bom ensino no crescimento econômico. Nos últimos trinta anos, Hanushek vem travando embates com ideólogos da educação e os sindicatos de professores. É figura controversa, entre outras coisas, por ter sido o primeiro a afirmar que aumento de salário não influencia a qualidade do ensino – a não ser quando obedece a uma política de premiação aos melhores em sala de aula.

Seus estudos recentes comprovam uma forte relação entre educação e crescimento econômico. Com o Brasil nas últimas colocações em rankings internacionais de ensino, o que se pode dizer sobre a economia?
Com esse desempenho, as chances de o Brasil crescer em ritmo chinês e se tornar mais competitivo no cenário internacional são mínimas. Digo isso baseado nos números que reuni ao longo das últimas décadas. Eles mostram que avanços na sala de aula têm peso decisivo para a evolução dos indicadores econômicos de um país. Olhe o caso brasileiro. Se as notas dos estudantes subissem apenas 15% nas avaliações, o Brasil somaria, a cada ano, meio ponto porcentual às suas taxas de crescimento. Isso significaria, hoje, avançar em um ritmo 10% maior. Vale observar que o que impulsiona a economia é a qualidade da educação, e não a quantidade de alunos na escola.

O Brasil colocou 97% das crianças na sala de aula. Isso não tem impacto na economia?
A massificação do ensino, por si só, tem pouco efeito – e a matemática não deixa dúvida quanto a isso. Os dados mostram que a influência da educação passa a ser decisiva apenas quando ela é de bom nível. Aí, sim, consegue empurrar os indivíduos e a economia. A relação é simples. Países capazes de proporcionar bom ensino a muita gente ao mesmo tempo elevam rapidamente o padrão de sua força de trabalho. Quando uma população atinge alta capacidade de raciocínio e síntese, torna-se naturalmente mais produtiva e capaz de criar riquezas para o país. Nesse sentido, a posição do Brasil é desvantajosa. Faltam aos alunos habilidades cognitivas básicas, e isso funciona como um freio de mão para o crescimento. Esse cenário, que já era preocupante décadas atrás, agora é ainda mais nocivo.

O que mudou nas últimas décadas?

A relação entre boa educação e desenvolvimento econômico é antiga – mas a qualidade do ensino nunca foi tão relevante para o crescimento dos países. Isso porque, em sociedades altamente tecnológicas, a produtividade passou a depender ainda mais das habilidades desenvolvidas na escola. Os números lançam luz sobre o tipo de conhecimento que faz mais diferença: de todas as disciplinas apresentadas aos alunos, são as ciências exatas que, hoje, têm o maior peso para o crescimento econômico. Afinal, exige-se o tempo todo dos profissionais que sejam capazes de lidar com novas tecnologias e de solucionar problemas de alta complexidade. Ocorre não apenas na rotina de quem ocupa um cargo de alto escalão, mas também nas linhas de produção mais simples. Quanto mais gente preparada para enfrentar tais questões, mais chances um país terá de avançar.

Os Estados Unidos são a maior economia do planeta, mas não figuram entre os países de melhor ensino. Isso não é contraditório?

Não. Além de uma educação de bom nível, dois outros fatores têm impacto decisivo sobre o ritmo de crescimento de um país: o grau de abertura de sua economia e a segurança institucional que ele oferece, medida pela capacidade de garantir o direito à propriedade privada. Historicamente, os Estados Unidos sempre estiveram muito à frente dos demais países nesses dois quesitos. Outro antigo diferencial americano são as universidades, que ocupam o topo do ranking da excelência. Há décadas elas funcionam como um poderoso motor para o progresso científico e tecnológico, de valor inestimável para a economia do país. Até agora, esse conjunto de fatores ajudou a compensar o desempenho medíocre dos estudantes americanos no ensino básico. Essa vantagem, no entanto, está ameaçada.

 

Por que o senhor diz isso?

Mais países começam a atingir graus de abertura da economia e patamares de desenvolvimento institucional semelhantes aos dos americanos. Também já aparecem, fora dos Estados Unidos, dezenas de universidades onde podem originar-se descobertas científicas relevantes ou mesmo um Prêmio Nobel. Significa que os americanos deixaram de ser os únicos a se destacar em áreas nas quais, bem pouco tempo atrás, não tinham rivais. Caso a qualidade da educação básica ofertada nos Estados Unidos não melhore, a liderança econômica do país ficará seriamente ameaçada. Repare que me refiro aqui apenas aos estragos da má educação. Não estou sequer levando em conta as outras variáveis que podem contribuir para isso.

 

O impacto da educação na economia varia de um país para outro?

Os países que mais se beneficiaram do investimento no ensino, como Coréia do Sul e Finlândia, têm um ponto em comum: são economias abertas. Temos aqui um ciclo virtuoso. Para competirem globalmente, esses países precisam de um exército de pessoas com altíssima capacidade cognitiva – e, contando com elas, lucram como nenhum outro com a concorrência. Quando boa educação vem aliada a uma economia aberta, seu efeito no PIB é três vezes maior do que em países mais fechados.

As salas de aula estão repletas de experiências pedagógicas. O senhor chegou a alguma conclusão sobre qual o melhor caminho para alcançar a qualidade acadêmica?

De todos os fatores numa escola, certamente o que mais explica a excelência na sala de aula diz respeito à capacidade dos professores de despertar a curiosidade intelectual dos alunos e lhes transmitir conhecimento. É algo básico, mas freqüentemente ignorado. Veja o que revelam os números. Tendo um ótimo professor durante cinco anos seguidos, uma criança egressa de um ambiente de pobreza e analfabetismo poderá alcançar o mesmo nível de conhecimento de outra vinda de uma casa em que os pais têm diploma de ensino superior e boa situação financeira. A questão é que os diretores das escolas raramente aplicam os critérios certos para rastrear os bons profissionais.

Por que eles erram tanto?

Valorizam tempo de experiência e cursos de especialização, quando esses são fatores sem nenhuma relação relevante com a qualidade das aulas. Os educadores resistem a aceitar essa idéia, mas as pesquisas não deixam dúvidas: os Ph.Ds. não apenas não são necessariamente os melhores professores, como muitas vezes figuram entre os piores. Já se conhecem, portanto, algumas das características que não definem um bom professor. O que não se sabe até hoje é o que, de fato, faz um profissional sobressair na sala de aula.

 

O senhor está dizendo que não há uma explicação estatisticamente confiável sobre as características que determinam um bom professor?

Existem muitas suposições, mas nenhuma delas tem valor científico. Por isso fica tão difícil estabelecer critérios prévios para a seleção dos melhores professores – e erra-se tanto. É possível, no entanto, tomar medidas para segurar os mais brilhantes na escola e eliminar os mal preparados.

 

Qual é a melhor maneira de fazer isso?

O método mais eficaz, sem dúvida, é aderir à meritocracia. Entenda-se por isso oferecer incentivos financeiros e carreira atraente a quem merece. É fácil identificar os mais eficientes. São aqueles que, ao término de um período escolar, conseguiram melhorar o desempenho de seus alunos em relação ao patamar do qual partiram no início do ano. Para premiá-los, não quero dizer apenas pagar-lhes 200 ou 300 dólares a mais no fim do ano. O que defendo é mais radical – algo que nem nos Estados Unidos, país à frente nesse quesito, foi implantado.

O que, exatamente, o senhor propõe?

Faria muito bem às escolas manter salários mensais diferenciados para os bons professores, poder demitir os incapazes e proporcionar, enfim, um ambiente tão competitivo quanto o de uma grande empresa. Depois de tudo o que pesquisei, afirmo com segurança: reconhecer concretamente os talentos individuais é a medida mais eficaz quando se trata de preservar apenas os professores mais talentosos – e melhorar o ensino. Infelizmente, não é tão fácil pôr essa idéia em prática.

Quais são as dificuldades?

Primeiro, é preciso desenvolver mecanismos confiáveis para medir o desempenho de alunos e professores. O problema é que a maioria dos países em desenvolvimento não conta ainda com um sistema de avaliações que permita comparar resultados ao longo dos anos, algo em que o Brasil é uma boa exceção. Um segundo obstáculo é o corporativismo dos sindicatos de professores. Eles são os primeiros a se opor a qualquer medida em favor da premiação ao mérito. Como essas organizações têm, em geral, grande peso na definição das políticas públicas de educação, a meritocracia emperra. Tal é o corporativismo sindical que sua principal bandeira sempre foi o aumento generalizado dos salários. Dizem que só assim o ensino vai para a frente.

Até que ponto isso é verdade?

Aumentar os salários de todos os professores de uma mesma rede de ensino não contribui em nada para melhorar a qualidade das aulas. Afirmo isso ancorado nos fatos, e não na intuição, como preferem muitos educadores. Ao defender a isonomia salarial e repudiar aumentos atrelados a resultados, os professores não se baseiam em nenhuma espécie de evidência científica de que a medida funcione em favor do ensino. Lutam por isso apenas porque é bom para eles.

 

Na educação, por que é tão raro que especialistas, educadores e autoridades se rendam às evidências científicas?

Além dos interesses políticos, que passam ao largo da ciência, como ocorre em tantas outras áreas, um segundo fator específico da educação pesa contra a objetividade: não sendo uma ciência exata, as pessoas se sentem um pouco especialistas no assunto. Agrava o problema o fato de a sala de aula ser um lugar que, um dia na vida, todo mundo freqüentou. O resultado dessas crenças é perverso: no mundo todo, ainda são raras as políticas na educação guiadas por evidências empíricas, colhidas ao longo de estudos longitudinais e realizadas com rigor científico, como ocorre em outros setores. Políticas respaldadas em achismos são desastrosas. Elas fazem os países perder dinheiro duas vezes.

 

Como a falta de rigor científico nas medidas para a educação causam prejuízo a um país?

Ao se perderem em opiniões vazias de pretensos especialistas, os governos desperdiçam a chance de se beneficiar de práticas já testadas com sucesso. Ao contrário disso, investem tempo e dinheiro em medidas inócuas, que não resistiriam a uma consulta rápida às experiências internacionais e a um mergulho nos números. Eles logo revelariam sua inutilidade. Mesmo grandes instituições cheias de boas intenções cometem erros básicos por subestimar os fatos.

O senhor citaria uma?

Sim, o Banco Mundial. Ele erra ao investir em programas mais focados na quantidade de alunos do que propriamente naqueles com o objetivo de elevar o padrão do ensino. Chegar à escola é um primeiro passo – mas só isso. O que determina mesmo o crescimento de um país é quanto de conhecimento poderá ser extraído da sala de aula.

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Domingo, 12 de Outubro de 2008

 

A expansão do crédito democratizou um tipo de consumo em que o cinema não é prioritário; As pessoas não estão preocupadas com o conteúdo das coisas, é tudo muito fútil.

Hector Babenco prepara o roteiro de um novo filme, sem prazo para terminar

Ele fugiu da Argentina aos 17 anos porque não queria servir o exército. E nunca mais parou. "Sempre sonhei ser uma espécie de herói solitário", conta o cineasta Hector Babenco ao nos receber em sua casa, vizinha do Parque Ibirapuera. Passeia por lá? "Raramente", diz o diretor, naturalizado brasileiro, com nove longas-metragens no currículo e uma indicação ao Oscar por O Beijo da Mulher Aranha. Próximo projeto? Está debruçado sobre um personagem que conhece muitíssimo bem: ele mesmo. "Falar sobre minha indignação em relação à condição social do Brasil já saturou", justifica.

Mas se Babenco tem fascinação pelo ser humano, fato que se reflete na sua produção, sua casa é clean, repleta de obras abstratas: "Lido com imagens de pessoas no cinema: conflitos, perdas, encontros. Aqui, não tenho nada que represente o ser humano", divaga ele, que vive os sintomas de um morador de São Paulo, "uma cidade que parece sempre estar de costas para nós".

Entre um café e uma mordida no delicioso bolo de chocolate, o cineasta dividiu opiniões e observações sobre o atual market-money-making do cinema. "Uma vez, expliquei a um diretor de marketing de banco, interessado em financiar um filme meu, que não podia exigir de mim o mesmo retorno de um investimento financeiro." O que aconteceu? "Ele nunca mais me atendeu." Hoje, com a derrocada dos mercados, sua atitude, talvez, fosse outra. Aqui, os principais trechos da entrevista que deu à coluna:

O retrato da sociedade brasileira tem sido o tema predominante dos últimos filmes brasileiros. Qual a razão disso?

Dá urticária pensar em mostrar mais uma tragédia brasileira. Nada contra os últimos filmes que saíram, mas o mercado está saturado.

Quando alguém escolhe contar uma história, as possibilidades são inúmeras. Como você faz isto?

O talento de um diretor, de um escritor, está em saber escolher o que quer dizer. Por isso há a alta literatura e a literatura banal. Fazer um filme está cada vez mais fácil. Difícil é contar uma história reflexiva, que entretenha de forma inusitada e ainda seja fiel a você mesmo.

Mas para ser bem sucedido é necessário ter um business plan bem definido, não?

Não somente. O gesto de criação em cinema depende, em primeiro lugar sim, de um bom planejamento e, depois, do talento de cada um. Mas se você der a mesma folha de roteiro para cinco diretores, terá cinco cenas diferentes, de custos diferentes. Cinema é uma arte essencialmente individual.

Como você escolhe as histórias para contar?

Por resistência. Quando tenho uma idéia, acalento, invento, me exercito contando às pessoas que eu gosto, testo a capacidade de sedução do meu relato. Tomo notas durante a noite. Penso e repenso. Aí, acabo por trabalhar só as idéias que não se esvaziam, que perduram. Costuro as informações e, depois de um ano, tenho uma história estruturada. Como você vê, é um processo longo.

E o que você acha do atual culto às celebridades?

As pessoas não estão preocupadas com o conteúdo das coisas, é tudo muito fútil. Isso acontece desde o consumidor, que fica mais preguiçoso, e chega até quem gera a informação. Não sei se Ingmar Bergman teria espaço hoje ou se Fellini brincaria com cenas e personagens, artesanalmente.

E o que se ganha e se perde nesse processo?

Esse é o tipo de reflexão que não me abandona. Hoje o público está muito distante daquele que eu imaginava ser o dos meus filmes. Sempre acreditei que meu espectador era parecido comigo, com as mesmas preocupações e necessidades.

Será que isso se deve à insegurança em que vivemos hoje?

No Brasil poucas pessoas vão ao cinema. Custa caro. O programa todo sai em torno de R$ 40. Uma pessoa com uma renda média não pode gastar isso toda semana. Quando eu era garoto e duro, ia ao cinema duas ou três vezes por semana. Era minha possibilidade de ver coisas desconhecidas, me entreter de forma inteligente, sair surpreendido por outros por meio de suas criações. Hoje é complicado. A expansão do crédito democratizou um tipo de consumo em que o cinema não é prioritário. As pessoas suprem sua necessidade de entretenimento em casa com a TV. Ir ao cinema é ritual para muito poucos.

Para que espectador você faz seus filmes?

Quando faço um filme, e aí é que está a magia, não sei que público ele vai atrair, nem quanto. Ainda acredito que a experiência de se ver um filme no cinema, na sala escura, com som excepcional, é um ritual de alto poder de sedução. Por duas horas e meia é possível se afastar do mundo, se entregar completamente ao poder da imaginação. Em casa, tem o telefone, o banheiro, é outro grau de concentração. E uma coisa não exclui a outra. Carandiru, por exemplo, foi a maior bilheteria do cinema brasileiro nos últimos 20 anos e quatro ou cinco meses depois passou na TV, com um ibope escandaloso. Isso é uma maravilha.

Fazer cinema atualmente é mais fácil?

Hoje, qualquer moleque consegue fazer um curta, com uma câmera digital e edição caseira. E saem coisas bem interessantes. O desafio é como se atrelar a essa nova realidade. Quando me vejo diante do precipício de ter que continuar sendo um profissional, tenho que acreditar piamente na minha capacidade de gerar conteúdo inteligente.

Hoje há mais facilidade para fazer cinema, no entanto, é mais difícil ter sucesso…

Não cresci vendo televisão, mas lendo e indo ao cinema. A seleção se dá de acordo com a capacidade de ser melhor. Há um fator sorte, mas os trabalhos bons se destacam. Conseguir fazer um cinema que atraia o público e tenha qualidade é uma lâmina afiadíssima, sobre a qual muito poucos conseguem se equilibrar.

Que história você busca hoje para contar?

Minha indignação em relação a viver no Brasil já saturou. Todos os meus filmes foram motivados pela minha raiva perante um modelo social totalmente desajustado, cruel, malvado. Tentei de uma forma não manipulativa, não sentimental, ideologicamente isenta, narrar e dar vida a essas pessoas. Agora, decidi me debruçar sobre um personagem que conheço bem: eu mesmo. Estou escrevendo um filme sobre coisas que vivi. O (Arnaldo) Jabor me disse que chega um momento na vida em que fica difícil achar uma história mais interessante que a nossa própria.

E o que você pensa das leis de incentivo à produção audiovisual?

As leis estão atreladas às grandes empresas estatais no Brasil. E isto está sob a égide ideológica do Ministério da Cultura. O mercado privado não tem tido muito interesse em produzir cinema, porque pode investir o dinheiro em coisas que dão mais resultado mercadológico. Um dia estava com o diretor de marketing de um banco e ele tentava maximizar o retorno dos recursos que estava me dando. Eu disse: olha fulano, esse dinheiro que você está me dando não é seu. É uma renúncia fiscal. Logo, você não pode exigir de mim o mesmo retorno que exige da sua agência de publicidade quando ela usa dinheiro real, do teu bolso. Ele nunca mais me ligou.

E por último: como você veio parar no Brasil?

Saí de casa com 17 anos, fugindo do serviço militar na Argentina e cheguei no Brasil. Aqui, eu achava que não podia buscar um emprego porque garantir a minha subsistência castraria meu anseio de criar. A vida para mim era para ser vivida intensamente e da forma mais libertária possível. Nunca estudei. Eu me construí sozinho, sempre tive esse sonho de ser uma espécie de herói solitário. Até no cinema. Não pertenço a nenhuma patota, nunca fiz publicidade, nunca me liguei politicamente a nenhuma ideologia…

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