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Archive for the ‘Filosofia Moderna’ Category

Je ne vois que des infinités de toutes parts, qui m’enferment comme un atome et comme une ombre qui ne dure qu’un instant sans retour. Tout ce que je connais est que je dois bientôt mourir, mais ce que j’ignore le plus est cette mort même que je ne saurais éviter. Pascal, Pensées

Em português, talvez, seria algo como:

Vejo apenas infinidades por todas as partes, que me cercam como a um átomo e como a uma sombra que dura apenas um instante sem retorno. Tudo o que sei é que devo morrer em breve, porém, o que eu mais ignoro é exatamente essa morte que eu não posso evitar.

Que ódio dessa gente que pensa de forma semelhante, e consegue traduzir em palavras de modo infinitamente melhor! Que ódio do Machadão, que ódio no Niet, que ódio do Schops – QUE ÓOoOoOoOoDIO! UHAUHAHA

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Bom dia nietzscheanos, bons samaritanos e schumpeterianos
Ah, sim, schopenhauerianos (Jesus! Que trava-língua!) também, claro!
Nesses tempos de H1N1…
Num ônibus, dois rapazes estavam conversando. No meio da conversa, um deles disse algo como ‘Nietzche!’.
Ao ouvir aquilo, um senhor ao lado com o olhar compassivo, respondeu: “Saúde!”
AHUAHUAUHAuhAHA.

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Santa crueldade. – Um homem dirigiu-se a um santo, tendo nas mãos uma criança recém-nascida. “Que devo fazer com esta criança?”, perguntou ele, “ela é miserável, deformada e não tem vida bastante para morrer.” “Mate-a”, gritou o santo com voz terrível, “mate-a e segure-a nos braços por três dias e três noites, afim de criar em si mesmo uma lembrança: – desse modo você não gerará novamente um filho quando não for tempo de fazê-lo.” – Ouvindo isso, o homem partiu decepcionado; e muitos censuraram o santo por haver aconselhado uma crueldade, pois aconselhara matar a criança. “mas não é mais cruel deixá-la viver?”, exclamou o santo.

Nietzsche – Gaia Ciência, Parte II, 76

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MeEEEEeeEeEu, saca só que babado (HUahUA) – será que vão falar sobre Schopenhauer também!? ‘deus queira, meu filho, deus queira…’.

Seja um Emo iltelectual – vá ao congresso sobre Goethe

Dizem que esse tal de Goethe era um gênio (da litaratura); que foi muito importante para o Romantismo e tal… – não sei de nada, é o que dizem! Li metade do livro “Sofrimentos do jovem Werther” e não gostei muito: lá pelo fim da primeira parte eu pensei: “Ah, esse bosta vai se matar!?”. E fechei o livro… AHUaHAHa. Em conversa com um grande amigo descobri que ele se mata mesmo… Ah, prefiro Dostoievski, Machadão, Tostói. Esse pessoal romântico é um bando de bobocas – não sabem lidar com os (próprios) sentimentos e ficam colocando a culpa na natureza, nas outras pessoas, nas mudanças do clima, etc.

Dizem que o importante não é o final do livro, mas sim a ‘trama’: o que acontece no desenrolar do livro. Ah, mas sai fora – o rapaz parecia uma moça: “oh, o dia está tão triste, nhe, nhe, nhem; as flores estão chorando,  nhe, nhe, nhem” – ah! Pro diabo! O cara se mete a se apaixonar por uma mulher comprometida, e depois fica pelos cantos choramingando – bem feito! Além de ser um bundão – po, metia um beijo na moça e pronto, aposto que ela estava afim!

Sera que os Emos se inspiram nele!? AHUAHA. Dizem que os Emos assim são chamados por serem Emo(tivos), pra mim é um bando de Homo(passivos)AHUAHA.

Penso que os Emos deveriam ler Goethe para assim fundamentarem melhor seu movimento – po, ao menos ficaria Chique, fala aí!? Pô meu, Goethe é alemão, cara! (era feio, mas era europeu…). Dizem (veja, é o que dizem – não sei de nada) que os NX0 são bonitinhos; mas meu, só porque eles são mais bonitos!? ORa, cade seu romantismo!? – a beleza interior de Goethe não conta!?

Seja um Emo intelectual – leia Goethe! huihuihui

Associação Goethe do Brasil

Publicado por Da Redação – agenusp@usp.br em 30 de outubro de 2009 – 18:17

Acontece entre quarta (4) e sexta-feira (6), o Congresso Internacional da Associação Goethe do Brasil e o Encontro do Grupo de Pesquisa Literatura, Arte e Filosofia na Época de Goethe “Afinidades Eletivas”, promovido pelo Goethe-Institut São Paulo e pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

A abertura e o primeiro dia do evento serão realizados no Goethe-Institut a partir das 10 horas. Nos demais dias, as apresentações serão realizadas na sala 111 no prédio das Ciências Sociais da FFLCH, a partir das 9 horas. A programação completa está disponível na página do evento [1].

A congresso é aberto e  gratuito. O Goethe-Institut fica na Rua Lisboa, 974, Pinheiros. A FFLCH fica na Av. Prof. Luciano Gualberto, 403, Cidade Universitária, São Paulo

Mais informações: email cultura@saopaulo.goethe.org [2]


Artigo impresso de Agência USP de Notícias: http://www.usp.br/agen

 

URL do artigo: http://www.usp.br/agen/?p=10169

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Segue três edições da nossa, querida, Crítica da Razão pura – em espanhol, inglês e português. – mas pera lá, (não tomais atitudes precitadas, irmão) não agradeça ainda: Ou seja: agora não há desculpa para não estudar ‘si ferro’ – pronto! agora pode agradecer, AHUAHA

AGRADEÇA, INFERNO! huhiuhui

 Houve críticas a essa obra… Um certo alemão (o qual na opinião de Schopenhauer [vai, tenta adivinhar que é] um) “grosseiro e nojento charlatão […] homem pernicioso que desorganizou e corrompeu completamente as inteligências de  toda uma geração”, vulgo Hegel [e aí, acertou!? ah, essa foi fácil, vai] tirou o maior sarro do nosso querido “chinês de Königsberg” dizendo que a Crítica da Razão pura é como querer nadar sem entrar n’água. Outro alemão, meu amigo de longa data, o auto intitulado “homem-dinamite”, vulgo Nietzsche (não! não é a onomatopéia de um espirro, é um nome mesmo…), bradou que a intenção do “raposa velha” com CRP de fazer com que a razão seja – ré e juíza – ao mesmo tempo é lá um tanto quanto estranha…

Bom… mas eles são alemães, eles que se entendam! Nós, que s0mos brasileiros (querendo ou não, pode chorar) podemos aproveitar as, digamos assim, disputas filosóficas para esquecermos das tragédias sociais-políticas-educacionais do nosso grandioso país (vide senado); bem como para dar uma de pseudo-intelectual e impressionar ‘as mina’! AHUAhAha

Há quem entre num curso universitário de filosofia para encontrar uma filosofia de vida; outro para ‘encontrar respostas’ (sabe lá Deus a respeito do quê); outros com objetivo de reforçar a fé – essa é boa! Como conseguem!?

E eu!? qual é meu objetivo com o curso!? Ah… Dar risada, claro! Aristófanes, Schopenhauer e Nietzsche – respectivamente, são os mais divertidos: não entendo nada, mas a diversão é garantida 😉

 Kant-Critica_de_la_razon_pura(ManuelGarciaMorente.trad)

Kant-Critique_of_Pure_Reason-Norman_Kemp_Smith_MacMillan_1929

Kant-Crítica_da_Razao_Pura(CalousteGulbenkian)

E não vos esqueçais, jamais – mãozinhas pra cima, todo mundo, comigo: “Comte, um, dois, três – Kant comigo outra vez!!”

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[…] Lida de um astro distante, a escrita maiúscula de nossa existência terrestre levaria talvez à conclusão de que a terra é a estrela ascética por excelência, um canto de criaturas descontentes, arrogantes e repulsivas, que jamais se livram de um profundo desgosto de si, da terra, de toda a vida, e que a si mesmas infligem o máximo de dor possível, por prazer em infligir dor – provavelmente o seu único prazer. […] – Genealogia da moral. Parte III, seção 11

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Genealogia da moral. Parte III, seção 12:

Supondo que essa vontade encarnada de contradição e anti natureza seja levada a filosofar, onde descarregará seu arbítrio mais íntimo? Naquilo que é experimentado do modo mais seguro como verdadeiro, como real: buscará o erro precisamente ali onde o autêntico instinto de vida situa incondicionalmente a verdade. Fará, por exemplo, como os ascetas da filosofia vedanta, rebaixando a corporalidade a uma ilusão, assim como a dor, a multiplicidade, toda a oposição conceitual de “sujeito” e “objeto” – erros, nada senão erros! Recusar a crença em seu Eu, negar a si mesmo sua “realidade” – que triunfo! – não mais apenas sobre os sentidos, sobre a evidência, mas uma espécie bem mais elevada de triunfo, uma violentação e uma crueldade contra a razão: volúpia que atinge seu cume quanto o auto-desprezo, o auto-escárnio ascético da razão decreta: “existe um reino da verdade e do ser, mas precisamente a razão é excluída dele!…”. (Dito de passagem: mesmo no conceito kantiano de “caráter inteligível das coisas” resta ainda algo desta lasciva desarmonia de ascetas, que adora voltar a razão contra a razão: pois “caráter inteligível” significa, em Kant, um modo de constituição das coisas, do qual o intelecto compreende apenas que é, para o intelecto, absolutamente incompreensível.) – Devemos afinal, como homens do conhecimento, ser gratos a tais resolutas inversões das perspectivas e valorações costumeiras, com que o espírito, de modo aparentemente sacrílego e inútil, enfureceu-se consigo mesmo por tanto tempo: ver assim diferente, quer rever assim diferente, é uma grande disciplina e preparação do intelecto para a sua futura “objetividade” – a qual não é entendida como “observação desinteressada” (um absurdo sem sentido), mas como a faculdade de ter seu pró e seu contra sob controle e deles poder dispor: de modo a saber utilizar em prol do conhecimento a diversidade de perspectivas e interpretações afetivas.

De agora em diante, senhores filósofos, guardemo-nos bem contra a antiga, perigosa fábula conceitual que estabelece um “puro sujeito do conhecimento, isento de vontade, alheio à dor e ao tempo”, guardemo-nos dos tentáculos de conceitos contraditórios como “razão pura”, “espiritualidade absoluta”, “conhecimento em si”; – tudo isso pede que se imagine um olho que não pode absolutamente ser imaginado, um olho voltado para nenhuma direção, no qual as forças ativas e interpretativas, as que fazem com que ver seja ver-algo, devem estar imobilizadas, ausentes; exige-se do olho, portanto, algo absurdo e sem sentido. Existe apenas uma visão perspectiva, apenas um “conhecer” perspectivo; e quanto mais afetos permitirmos falar sobre uma coisa, quanto mais olhos, diferentes olhos, soubermos utilizar para essa coisa, tanto mais completo será nosso “conceito”18 dela, nossa “objetividade”. Mas eliminar a vontade inteiramente, suspender os afetos todos sem exceção, supondo que o conseguíssemos: como? – não seria castrar o intelecto?…

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Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes? O mar da história é agitado. As ameaças e as guerras haveremos de atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas. Maiakovski ( 1927)

por: Pedro Celso Campos

Do grego dia ( troca ) e lekticós ( apto à palavra ) o termo dialética tem a mesma raiz de diálogo: troca de palavras. Enquanto método e enquanto filosofia, "a dialética é a ciência das leis gerais do movimento, tanto no mundo externo quanto do pensamento humano", segundo Engels. Ela é a estrutura contraditória do real. Através dela compreendemos que as coisas estão sempre em relação recíproca, nada acontece por acaso, tanto nos fenômenos da natureza como nas relações entre os homens. Nada pode ser entendido isoladamente, fora da realidade à sua volta. Tudo e todos pertencem a uma "totalidade dialética", isto é, fazem parte de uma estrutura.

Já em Heráclito ( 544-484 AC) há esse conceito do "mundo dialético", da multiplicidade do real, das contradições que levam às mudanças, do novo que já começa a envelhecer ao nascer para dar lugar ao mais novo, dentro da dinâmica universal onde tudo muda, tudo se transforma o tempo todo. Heráclito reconhece, dialeticamente, que o ser é múltiplo por estar constituído de oposições internas. E dessa luta interna é que brota, incessantemente, o novo: novo homem, novas abordagens, novas idéias, novas realidades…num imenso e contínuo processo de expansão que envolve tanto o átomo como todo o universo cósmico. E isto é assim há 12 bilhões de anos, desde o big-bang, sabemos hoje.

Heráclito foi precursor de Hegel e de Marx ( Séc XX ) na formulação da lógica dialética.

No plano social, a dialética marxista estuda as transformações do mundo material em função das contradições surgidas com a oposição das classes no processo de produção. É da contradição entre senhor e servo, no Feudalismo, que o homem chega ao Capitalismo. É da contradição entre capitalista e operário que se chega ao Socialismo ou algum outro regime onde o individualismo não seja a filosofia norteadora da vida entre os homens ao ponto de levá-los "de volta" à barbárie.

Estudiosos como os frankfurtianos questionam um sistema que nega ( no exato momento que o afirma ideologicamente ) ao homem o direito à própria vida: biológica, social, intelectual, política, econômica etc. Conscientes do poder mistificador da ideologia, eles se revelam melancólicos na busca por um mundo melhor e mais justo, criticando, inclusive, a indústria cultural que é usada para manipulação das massas e para matar, na raiz, as legítimas manifestações culturais dos seres sociais. A melancolia decorre do poder de alienação do sistema que anestesia as consciências reificando o ser humano que se torna uma peça sem importância na engrenagem da máquina devoradora descrita por Kafka ( A Colônia Penal-1919).

Superar a alienação significa acordar para a realidade em volta, compreendendo que toda realidade é fruto de uma realidade anterior que lhe deu causa, compreender que há um processo histórico na formulação de todas as realidades, de todas as políticas, de todas as atividades humanas. Discutir o processo, negar suas premissas para buscar a verdade legítima é a tarefa a que se propõe a "dialética negativa" em oposição à Teoria Positivista que confirma e legitima o sistema através da ideologia.

O texto a seguir ( Origen de la Dialectica Negativa – Theodor W. Adorno, Walter Benjamin y el Instituto de Frankfurt. Susan Buck-Morss. Madrid: Siglo Veintiuno Editores, 1981) discute os modelos adotados pelos frankfurtianos em seus estudos filosóficos sobre a sociedade humana.

Enquanto Benjamin (1892-1940) inicia suas pesquisas com base nos primeiros românticos (Friedrich Schlegel-1772-1829 e Friedrich Novalis-1772-1801 e outros), realizando, mais tarde, experiências com narcóticos e com o esoterismo, aderindo, afinal, ao surrealismo de Louis Aragon e André Breton, Adorno prefere acolher com mais entusiasmo o teatro épico de Brecht (1898-1956) que defendia a reformulação do surrealismo de modo que a arte não fosse apenas um artigo decorativo mas um instrumento de luta e de conscientização política dos povos.

Entretanto, observando melhor o surrealismo, Adorno concluiu que ele não era nada dialético porque não contemplava as relações e os contrastes a serem estudados na própria relação sujeito-objeto. Com profunda formação musical, Adorno encontrou na música de seu mestre Arnold Schönberg (1874-1951) o modelo ideal para o estudo da sociedade ao pesquisar o sistema dodecafônico que revolucionou a história da música do séc. XX. Na técnica dodecafônica, Adorno antevia, utopicamente, a sociedade de homens livres sonhada por Marx (1818-1883)

No final, a autora conclui que nem a obra de arte surrealista, nem a música dodecafônica podem dar conta da interpretação filosófica sem os preceitos da sociologia marxista e da psicologia freudiana.

Antes de passar a uma tradução livre do texto ( situando cronologicamente os autores citados para efeito de contexto histórico) é pertinente conhecer alguns detalhes sobre a obra de Schönberg, já que ela foi tão determinante no pensamento filosófico de Adorno (1903-1969).

A música de Schönberg

Schonberg foi um pesquisador da obra do alemão Wilhelm Richard Wagner(1813-1883) , o mais influente músico do século XIX, criador do drama musical que destacava a ação teatral sobre a música. Vivendo em plena idade de industrialização e burguesia como se caracteriza a segunda metade do seu século, Wagner era um tradicionalista e empregou todos os recursos musicais do passado para realizar o ideal musical do Romantismo, daí ter sido amplamente aceito pela burguesia e ferrenhamente combatido pela ideologia liberal da época. Levando o cromatismo típico da música romântica às últimas conseqüências, Wagner chegou, em Tristão e Isolda, às fronteiras do sistema tonal.

Shönberg partiu do cromatismo de Tristão e Isolda para chegar ao Atonalismo e, depois, ao Dodecafonismo, sendo considerado legítimo representante do Modernismo na música. Sua pesquisa levou à abolição das fronteiras entre as tonalidades, até que não existissem mais tonalidades diferentes e sim uma única escala de 12 tons: o Atonalismo. Mas o Atonalismo poderia degenerar em caos. Era necessário estabelecer novas regras de composição sem tonalidades, da mesma maneira que se necessitou de novas regras quando a música evoluiu do sistema monofônico ( como o cantochão ou canto gregoriano, a una voce, do séc. VI ) para o sistema polifônico, com arquiteturas de 30 e mais vozes ( séc. XV). As novas regras configuraram o Sistema Dodecafônico, ou música serial, que é a arte de tratar séries de 12 tons, cada uma das quais inspirando uma obra musical inteira. As obras mais significativas dessa fase de Schönberg são os concertos e a ópera Moisés e Abrão.

O Dodecafonismo veio a ser o mais forte movimento musical do mundo, com adeptos devotados em todos os países, apesar de, no seu tempo, Schönberg ter sido aceito mais como teórico do que como criador. Deixou inúmeros escritos. Refugiou-se nos EUA quando a Alemanha nazista anexou a Áustria em 1938.

Agora sim vamos ao texto de Susan Buck-Morss:

A Experiência Estética

Os escritos de Adorno assemelham-se a uma obra musical por sua densidade de textura, complexidade na composição, inversão e variação do motivo temático. Ele rejeitava a dicotomia entre ciência e arte surgida com a revolução newtoniana no séc. XVII, quando os campos da arte e do conhecimento, da mera ficção e da verdade fática haviam se dividido em campos opostos, ficando os iluministas do séc. XVIII com o partido da ciência. Adorno não aceitava a idéia de transformar a filosofia, de investigação científica, em uma forma artística.

Os filósofos iluministas hostilizavam a arte por não considerá-la uma forma de verdade em si mesma, mas apenas uma ferramenta pedagógica, um meio de persuasão moral. A arte vista assim pelos iluministas era uma arte secularizada, portanto desprovida de sua aura como símbolo teológico.

Essa arte transformou-se em plataforma para a propaganda política nas revoluções burguesas, como se vê na estética marxista de Lukács (1885-1971) e Brecht, quando usam a arte como meio de instrução política, portanto como conhecimento.

Ao desafiar o princípio dualista, Adorno escreveu em 1939: "Toda arte que merece consideração séria aproxima-se do objetivo da racionalidade por sua própria estrutura e tende cada vez mais para o conhecimento".

No sistema hegeliano reconhecia-se na arte uma função cognitiva racional, mas ela (a arte) era relegada a uma esfera inferior em comparação com a filosofia. Kierkegaard (1813-1855) já havia condenado o modo estético de experiência vivida a um nível menor em comparação com a espiritualidade.

Opondo-se ao idealismo racionalista e ao existencialismo, Adorno sustentava que a experiência estética era, na realidade, a forma mais adequada de conhecimento porque nela sujeito e objeto, idéia e natureza, razão e experiência dos sentidos estavam intercalados, sem que nenhum dos pólos predominasse, proporcionando, afinal, um modelo estrutural para o conhecimento dialético, materialista. Kant (1724-1804) já havia antecipado essa posição mediadora da arte entre o pensamento e a prática.

Adorno foi buscar na composição e na execução musicais sua apreciação sobre o valor cognoscitivo da experiência estética. Seu orientador, Schönberg, era, até certo ponto, um romântico e rechaçava a noção do artista-gênio, vendo no artista um artesão.Ele via na música não a expressão da subjetividade, mas uma busca do conhecimento que se erigia fora do artista, como um potencial do objeto, o material musical. Para ele, compor era descobrimento e invenção através da prática do fazer musical. Seu objetivo era o conhecimento da verdade.

Ao sustentar que a produção estética não era expressão ( nem racional, nem irracional) da subjetividade, o procedimento de Schönberg, na verdade, assemelha-se à ciência.

Ao mesmo tempo, os cientistas contemporâneos de Schönberg, teóricos da nova revolução científica, reconheciam que sua própria atividade tinha poucas afinidades com o racionalismo atual do positivismo científico e do formalismo lógico, e que, ao contrário, como "construção" objetiva e verdadeira da racionalidade, convergia para a arte.

O positivismo científico havia se transformado no selo distintivo do marxismo oficial. Mas até 1931 Adorno havia tido acesso aos recentemente descobertos manuscritos econômico-filosóficos de Marx e deve ter-se impressionado com a semelhança entre a concepção da dialética do trabalho como experiência cognoscitiva no jovem Marx e a concepção da experiência estética da composição de Schönberg. Nas duas, os processos de criatividade e de conhecimento, de produção e de reflexão, eram iguais.

Portanto, quando Adorno baseava sua filosofia marxista na experiência estética, seu objetivo não era "estetizar" a filosofia ou a política, mas reconstituir a relação dialética entre sujeito e objeto que acreditava a base estrutural correta de todas as atividades humanas: conhecimento, práxis política e arte. Neste sentido, tanto a filosofia como a arte tinham uma função moral-pedagógica, a serviço da política e não como propaganda manipuladora, mas ensinando com o exemplo.

O Surrealismo

Walter Benjamin também estava convencido de que a experiência estética era fundamental para a compreensão filosófica correta. Mas seu desenvolvimento intelectual e o lugar a que chegou não eram iguais ao caso de Adorno.

Influenciado por experiências místicas e religiosas, Benjamin sentiu-se atraído pela estética de Friedrich Schlegel, de Novalis e outros românticos alemães. Sustentava que as duas operações da filosofia crítica, pensamento ( consciência ) e pensamento sobre o pensamento ( reflexão crítica ou autoconsciência) tinham seu paralelo na estética de Schlegel através da criação da obra de arte, por um lado, e de sua interpretação crítica por outro.

Isto significava que o ato de interpretação era necessário para completar a obra de arte, porque só nesta segunda operação se fazia manifesta a verdade da obra de arte, sua idéia. A crítica literária era, então, em si mesma, revelação cognoscitiva. Para os primeiros românticos, apontava Benjamin, a crítica era "um conceito totalmente esotérico", algo "que descansava sobre premissas místicas em relação ao conhecimento. Novalis considerava os textos como "hieróglifos" e "códigos", cuja interpretação dependia de uma linguagem sagrada que só uns poucos podiam ler. A arte, que alcançava sua concretude com a crítica, convergia para a filosofia e para a religião, enquanto revelação da verdade, segundo os primeiros românticos que influenciaram Benjamin.

Mas, a partir de 1926, após ler o texto surrealista de Louis Aragon "Le paysan de Paris", Benjamin ficou vivamente impressionado. O livro utilizava uma linguagem sagrada para retratar o amor sensual e glorificava o profano como origem da verdade revelada, combinando elementos dos extremos do misticismo e do materialismo, que formavam, agora, os pólos do pensamento de Benjamin.

Enquanto elemento estético, o surrealismo parecia muito mais compatível com os propósitos do filósofo frankfurtiano que o Romantismo do período burguês anterior. O livro de Aragon se transformou na inspiração de seu estudo sobre a Paris do séc. XX, sobre o qual Benjamin trabalhou pelo resto de sua vida. Em 1927 começou a passar certo tempo em Paris, o centro do movimento surrealista. Em 1929, escreveu que o surrealismo demonstrava a verdadeira superação criadora da iluminação religiosa, agora transformada em "uma iluminação profana de inspiração materialista, antropológica…"

O próprio fundador do surrealismo, André Breton, proclamou, em 1926, a solidariedade do movimento com o partido comunista, ainda que, a exemplo de Adorno e seus amigos, tenha continuado independente, sem uma filiação real.

Influenciado – como Benjamin – pela cabala, subscrevendo entusiasticamente a teoria freudiana ao mesmo tempo que abraçava o marxismo ao fundar o movimento surrealista em 1924, Breton via na arte um conhecimento crítico que implicava um pedido de ação. "Transformar o mundo, disse Marx, ´transformar a vida´, disse Rimbaud (1854-1891). Ambos os objetivos são um só para nós", proclamou Breton.

Anarquista inconformado e estrategista cujo objetivo era fazer explodir a arte para mudar o mundo antigo pelo novo, Breton defendia a reconciliação do sonho com a realidade "em um tipo de realidade absoluta, uma surrealidade". Acreditava na transformação da sociedade de acordo com os desejos humanos, levando ao pé da letra a frase de Marx: "Então se verá que o mundo possui há muito tempo o sonho de uma coisa, da qual basta tomar consciência para possuí-la realmente".

Era a técnica artística do surrealismo que fascinava Benjamin. A arte surrealista retratava os objetos cotidianos em sua forma material, existente ( sendo "exata" neste sentido literal ), mas, ao mesmo tempo, esses objetos eram transformados pelo fato mesmo de sua apresentação como arte através da colagem de extremos remotos e antitéticos.

As obras de arte surrealistas – protótipos das imagens dialéticas de Benjamin – iluminavam a verdade não-intencional através da justaposição de "duas realidades distantes", da qual surgia "uma luz particular…a luz da imagem", como escreveu Breton no primeiro manifesto surrealista.

Depois de ler uma novela de Herman Hesse (1877-1962) em 1927, Benjamin sentiu-se impelido a documentar não apenas os sonhos em seus escritos, mas a fazer experiências alucinógenas registrando, de 1927 até 1934, suas sessões com uso de haxixe, ópio e mescalina. Em seu testamento, entretanto, concluiu que "a verdadeira transcendência criativa da iluminação religiosa não reside nos narcóticos".

A experiência com as drogas era especialmente significativa para a secularizada teoria da "aura" dos objetos de Benjamin. Emanada da superfície dos fenômenos e revelando a essência interna, esta aura se tornava visível, dentro da "zona de imagens" das drogas, e podia ser reproduzida na tela do artista como nos quadros tardios de Van Gogh (1853-1890). O objetivo das imagens dialéticas de Benjamin era capturar a aura também no texto escrito.

A Crítica ao Surrealismo

Em 1930 Adorno criticou a incorreção do modelo surrealista pela natureza essencialmente estática das "imagens dialéticas" ( que Benjamin chamava de "dialéticas em repouso" ), embora não escondesse seu entusiasmo pela representação crítica da fragmentação e decadência da realidade burguesa, elogiando, por exemplo, no mesmo ano, a primeira ópera surrealista, de Brecht: Mahagonny.

Porém, dentro das técnicas surrealistas existiam certos impulsos do movimento e de sua adoção de Marx e Freud (1856-1939) que eram diretamente incompatíveis com a concepção de Adorno. Especificamente, violando seu compromisso prévio com a desmitificação, o surrealismo afirmava o irracional: intencionalmente entrava em cumplicidade com o encantamento, e isto se manifestava tecnicamente no imediatismo da representação em suas obras de arte. As montagens surrealistas eram conjuntos aleatórios de objetos existentes em sua forma imediatamente dada, isto é, reificada. Se sua justaposição casual era interpretada de alguma maneira, certamente não o era em termos marxistas, quer dizer, como manifestações da realidade sócio-histórica, e sim em termos do significado projetado pelo sujeito. No entanto esses mesmos significados eram reproduzidos na arte surrealista como " uma fotografia do pensamento".

Seguindo o princípio freudiano da livre associação, o projeto surrealista era "escrever rápido, sem nenhum tema preconcebido; tão rápido que não se possa recordar aquilo que se está escrevendo, nem tentar reler aquilo que já foi escrito".

O próprio Freud via nisto só a metade do processo de iluminação da verdade. Não só a imagem do sonho e sua associação, mas também a interpretação dessa configuração de elementos, conectada com as experiências conscientes do sujeito, eram necessárias para revelar uma lógica oculta no interior do absurdo manifesto. "Nos escombros do mundo do surrealismo, o em-si do inconsciente não se revela", criticou Adorno em 1956, registrando que o surrealismo agrupava os elementos do sonho sem resolvê-los e, portanto, suas imagens eram "fetiches mercantís" nos quais se contemplava a libido, sendo seu verdadeiro modelo a pornografia.

Decididamente, portanto, o surrealismo não era dialético. Ele fundia sujeito e objeto na imagem artística e não revelava, como queria Adorno, os antagonismos que caracterizavam sua mediação mútua. No surrealismo, o papel do artista como sujeito se reduzia à recepção passiva das imagens. O perigo consistia em que essa arte não alcançaria a objetividade materialista desejada, apenas proporcionaria o reflexo mágico do mundo das aparências.

Brecht percebeu essa falha do surrealismo e, em seu teatro épico, insistia na reformulação, transformando as técnicas surrealistas em ferramentas dialéticas como meio para a educação política.

Mas Adorno achava isto difícil devido ao grau de contaminação do surrealismo pelo irracionalismo. Em resposta aos esforços de Benjamin no sentido de trabalhar com o surrealismo como modelo para a filosofia materialista, Adorno publicou um ensaio, em 1934, sobre Schönberg como "compositor dialético".

Se o artista surrealista procurava fundir sujeito e objeto transformando-se em um meio passivo através do qual o material do inconsciente se expressava na realidade empírica, se, como resultado, as imagens surrealistas eram reificadas e "não-dialéticas", então, sustentava Adorno, Schönberg, como compositor, não era somente o meio, mas o mediador ativo em um processo dialético entre o artista e seu material.

Enquanto no surrealismo uma fantasia anárquica, arbitrária, convergia para a tendência aparentemente oposta da duplicação do dado, intensificando a mistificação mais que desenvolvendo-a, Schönberg desenvolvia o material até o ponto de sua inversão dialética: A tonalidade levada a seus extremos resulta na Atonalidade que desmistificava a música demonstrando que as "leis" tonais não eram naturais nem eternas.

Para Adorno essa reversão permitia a reapropriação autoconsciente dos meios de "produção" musical, precisamente o objeto do projeto marxista. Segundo ele, esse caráter inerentemente revolucionário de demolir a tonalidade da música burguesa implicava também uma reversão da função externa, social, da música, transformando-a de uma função ideológica em uma crítica. A própria estrutura das composições de Schönberg proporcionava a "imagem de uma música liberada" e Adorno chegou a ver nesta imagem a visão utópica da sociedade, uma sociedade sem classes, de homens livres, como queria Marx. Ele se referia à liberação dos 12 tons da dominação do tom dominante, que o conduzia, não à anarquia, mas à construção da fileira dodecafônica, na qual cada nota tinha um papel igualmente significativo, embora único, na totalidade musical, análogo aos cidadãos iguais, embora não idênticos, na desejada sociedade sem classes.

O ensaio de Adorno guarda clara correspondência com a composição dodecafônica de Schönberg. Por exemplo:

1. Afirmação da fileira tonal: "Toda história é natural" ( e, portanto, transitória);

2. Reversão da fileira: "Toda natureza é histórica" ( e, portanto, socialmente produzida);

3. Inversão da fileira: "A história real não é história" ( e sim pura reprodução da segunda natureza);

4. Inversão retrógrada: "A segunda natureza não é natural" ( porque renega a transitoriedade histórica da natureza).

Se Adorno desenvolvia suas idéias filosóficas do mesmo modo que Schönberg desenvolvia suas idéias musicais, e se cada um de seus ensaios era construído através de todas as permutações possíveis entre pólos opostos, mostrando a identidade das contradições ( a história é natural ) e a contradição das identidades (a história não é histórica ), então também era certo, até por sua decisão de não permitir que qualquer um dos aspectos do paradoxo dominasse o todo, que a estrutura de seus ensaios pode ser lida como a mimesis de uma estrutura social, livre de dominação.

Será este, talvez, o momento positivo oculto na "dialética negativa" de Adorno?

Em cada ensaio, precisamente por sua incessante negatividade, será, talvez, o emblema utópico, a secreta afirmação?

Pelo menos é indiscutível a significação para Adorno de um procedimento cognoscitivo correto entendido como uma estrutura ou "modelo" que pode ser traduzido de modos diferentes e domínios diferentes do discurso intelectual. Daí que pudesse ver paralelismos entre a estrutura da composição em Schönberg e o procedimento analítico freudiano.

Em 1966, na Negative Dialektik, Adorno escreveu: "Uma filosofia que imitasse a arte, que aspirasse a se definir como obra de arte, eliminar-se-ia a si mesma".

Adorno criticava a relativização da diferença entre arte e ciência. Para ele, a divisão entre ambos era uma necessidade histórica que não podia ser suprimida: A ciência não devia ser "estetizada" nem a arte devia ser fato científico. Sustentava, dialeticamente, que enquanto "experiências" subjetivas do objeto, arte, ciência e filosofia tinham estrutura dialética similar. Porém, enquanto processos de conhecimento, cada uma era diferente.

Para ele a estética surrealista era ainda menos adequada que o romantismo de Schlegel e Novalis – os quais insistiam em que o conteúdo da verdade da arte não emergia até que ela fosse criticamente interpretada. A música, como modelo, não apresentava os mesmos problemas. Sua modalidade era diferente da imagem artística. Esta condensava o material, enquanto aquela o desenvolvia. Enquanto a imagem artística existia já pronta, a música devia ser reproduzida, traduzida do texto escrito ao som, e isto significava que devia ser pensada, "interpretada" para poder existir.

Mas a música era limitada como modelo de estudo, pois o meio da filosofia era a linguagem e sua prática "a crítica da linguagem". A exemplo da linguagem, a música se compunha da "sucessão temporal de sons articulados que são algo mais que meros sons" e "a sucessão de sons está referenciada na lógica: pode ser correta ou incorreta. Seu procedimento interpretativo era diferente: "Interpretar a linguagem significa entender a linguagem, interpretar a música significa fazer música".

Na verdade, os modelos estéticos, música ou imagem artística, não podiam carregar todo o peso da prática filosófica. Todavia, o que a estética proporcionava era um corretivo para o racionalismo positivista e pseudo-científico que violentava o objeto consumindo-o dentro de um esquema conceitual reificado. Mas a interpretação filosófica não podia ir além da aparência imediata da realidade sem a teoria e os conceitos desenvolvidos pelas ciências, especialmente pela sociologia marxista e a psicologia freudiana.

Ciência e arte, conceito e imagem, análise e expressão formavam os dois pólos da atividade filosófica. A filosofia não superava suas diferenças em uma falsa síntese. Ao contrário, existia no interior da tensão entre ambos e tornava frutífera esta tensão para poder dizer a verdade sobre o mundo.

A título de Sumário

O texto de Susan Buck-Morss mostra, claramente, que tanto Adorno quanto Benjamin tinham a preocupação de procurar o motivo que impede o homem de ser feliz. É exatamente este o relevante serviço que a filosofia presta à humanidade, quando discute os mais diferentes métodos para explicar a vida. A própria autora conclui, entretanto, que nem a música de Schönberg, por mais revolucionária, nem o onirismo surrealista ou a fuga para o mundo das drogas são capazes de estruturar tamanho projeto sem contar com o amparo de teorias mais consistentes, citando, por exemplo, o marxismo e a psicanálise.

No texto "O Mal-Estar da Civilização", de 1930, Freud também procura encontrar uma explicação para os problemas da humanidade, considerando justa e pertinente tal preocupação: "Quando, com toda justiça, consideramos falho o presente estado de nossa civilização, por atender de forma tão inadequada às nossas exigências de um plano de vida que nos torne felizes, e por permitir a existência de tanto sofrimento, que provavelmente poderia ser evitado; quando, com crítica impiedosa, tentamos pôr à mostra as raízes de sua imperfeição, estamos, indubitavelmente, exercendo um direito justo, e não nos mostrando inimigos da civilização". Ele cita o poeta e filósofo alemão Schiller (1759-1805), para o qual "são a fome e o amor que movem o mundo". Para os comunistas, acrescenta Freud, a culpa seria da propriedade privada, mas – ele logo completa – antigamente não havia propriedade privada nos termos atuais e mesmo assim as pessoas não pareciam mais felizes. Para a igreja, o problema estaria no pecado e o que disso resultou foi um enorme sentimento de culpa coletivo que não ajuda em nada na busca da felicidade.

Então o fundador da Psicanálise estuda outra hipótese: o que prejudica o homem no seu relacionamento com as pessoas e consigo mesmo é sua natural agressividade: "Chega a hora em que cada um de nós tem de abandonar, como sendo ilusões, as esperanças que, na juventude, depositou em seus semelhantes, e aprende quanta dificuldade e sofrimento foram acrescentados à sua vida pela má vontade deles". Mas o homem não tem como se livrar da competição e da agressividade porque "a inclinação para a agressão constitui, no homem, uma disposição instintiva original e auto-subsistente, sendo ela o maior impedimento à civilização", esclarece Freud.

Em seguida ele explica porque a civilização evolui apesar de tanta "hostilidade de cada um contra todos e de todos contra cada um: "O significado da evolução da civilização não mais nos é obscuro. Ele deve representar a luta entre Eros e a Morte, entre o instinto de vida e o instinto de destruição, tal como ela se elabora na espécie humana. Nessa luta consiste essencialmente toda a vida, e, portanto, a evolução da civilização pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela vida".

Freud também observa, na sociedade, que a busca do prazer é o objetivo principal, mesmo que para tanto o indivíduo tenha que se submeter às regras sociais: " No processo de desenvolvimento do indivíduo, o programa do princípio do prazer, que consiste em encontrar a satisfação da felicidade, é mantido como objetivo principal. A integração numa comunidade humana, ou a adaptação a ela, aparece como uma condição dificilmente evitável, que tem de ser preenchida antes que esse objetivo de felicidade possa ser alcançado".

Na visão de Freud, o homem não tem como escapar dessa "roda viva" em busca da felicidade: " Assim como um planeta gira em torno de um corpo central enquanto roda em torno de seu próprio eixo, assim também o indivíduo humano participa do curso do desenvolvimento da humanidade, ao mesmo tempo que persegue seu próprio caminho na vida".

E quando todos – não apenas os frankfurtianos – estão melancólicos diante da impossibilidade de chegar à plena felicidade sobrevivendo num mundo tão injusto e bárbaro, Freud conclui: "Não tenho coragem de me erguer diante de meus semelhantes como um profeta; curvo-me à sua censura de que não lhes posso oferecer consolo algum, pois, no fundo, é isso que todos estão exigindo, e os mais arrebatados revolucionários não menos apaixonadamente do que os mais virtuosos crentes".

A dúvida que Freud tem, mas nem ele mesmo explica, é:

– Até que ponto o desenvolvimento cultural da espécie humana conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição? Os homens adquiriram sobre as forças da natureza um tal controle, que, com sua ajuda, não teriam dificuldades em se exterminarem uns aos outros, até o último homem. Sabem disso, e é daí que provém grande parte de sua atual inquietação, de sua infelicidade e de sua ansiedade.

Concluindo, o método dialético deve levar-nos à autoconsciência sobre os fenômenos do mundo para que possamos rediscuti-los em novas abordagens e propostas, na luta permanente por um mundo mais justo e, portanto, melhor. Com tal método perceberemos que o mundo em que vivemos é muito mais bárbaro que a Idade das Trevas, quando os bárbaros dividiram entre si o que restou do Império Romano.

Adorno e os frankfurtianos ensinam que é preciso submeter os questionamentos a provas e contra-provas em busca da verdade, ao invés de os tomarmos tal como são ou tal como se nos apresentam à primeira vista

Porque "o todo é falso".

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