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Archive for the ‘Literatura Russa’ Category

Que bonzinho o Marcelo, não!? – vamos divulgar, claro!!

Eu pretendo ir – se Deus quiser… AHUaHUAHUAHa

Autor: Marcelo Araújo –

Portal SESC SP

Email marceloaraujo@sescsp.org.br

URL http://www.sescsp.org.br

Olá! Sabendo de seu interesse em literatura, o SESC São Paulo convida você para assistir ao vivo Boris Schnaiderman e sua experiência como tradutor do escritor russo Tolstói, em transmissão direta do SESC Pompeia.

O encontro, que acontece neste domingo [13/12] às 18h, tem leitura de trechos das obras A sonata a Kreutzer e Anna Karenina e video chat aberto para perguntas e discussão.

O link para assistir ao vivo é: http://www.tvaovivo.net/sescsp/tertulia

Em breve todas as transmissões do Tertúlia – Encontros Literários estarão disponíveis on demand pelo canal do SESC no Youtube: http://www.youtube.com/portalsescsp, mas por enquanto é possível assistir aos vídeos pela matéria na Revista Eonline http://bit.ly/1aBDwf.

Contamos com sua colaboração para divulgar em seu blog e também para quem você sabe que ficaria muito bravo se perdesse a oportunidade de interagir com o tradutor dos russos no Brasil.

Agradecemos desde já.

Atenciosamente, Marcelo Araújo Mídias Socias Portal SESC SP

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Texto muito interessante, que compara Dostoiévki, com seu enrredo caótico e circular (como uma banda de Death Metal!?); e Tonstói, o qual versa seus comances de forma harmoniosa (como uma sinfonia!?). Mas (MANUEL DA COSTA PINTO) faz isso, não sem antes dar uma “apanhado geral” das literaturas alemã e francesa (cita, inclusive, a nossa Clarisse lispéctor). O autor do artigo nos dá, inclusive, um panorama (e comparações) dos principais livros (e suas personagens), tanto de Dostoiévki, quanto de Tolstói. [o texto é grande, mas vale a pena 😉 ]

Avaliar a obra de um escritor por meio de comparações com outros autores é, na esmagadora maioria das vezes, uma confissão de fracasso de quem não consegue explicar para outros (e para si mesmo) as razões de sua identificação profunda com esta ou aquela obra. Afinal, é perfeitamente possível ler Camões sem citar Petrarca, chorar com Racine e rir com Molière ou recitar Drummond sem excluir João Cabral da estante.
Fotos Reproduação

Fiódor Dostoiévski (1821-1881) e Liev Tolstói (1828-1910)

Mas a história da literatura oferece alguns exemplos raros de escritores que sempre se apresentam associados ao espectro complementar de um "duplo": é o caso de Voltaire em relação a Rousseau, de Goethe em relação a Schiller, de Balzac em relação a Stendhal e, sobretudo, de Tolstói em relação a Dostoiévski, autor cujas obras vêm sendo sistematicamente editadas no Brasil em traduções feitas diretamente do original russo.

Todos eles giram, com seus respectivos pares, em torno dos mesmos problemas, que são as linhas de força de cada época: a oposição entre racionalismo e natureza no Iluminismo francês, a estetização do sujeito e o panteísmo transcendental do romantismo alemão, a tensão entre a energia individual e a força alienante das relações econômicas no realismo do século 19.

A diferença, quando se fala de Tolstói e Dostoiévski, é que eles são a síntese, o apogeu e, simultaneamente, a dissolução desse processo de constituição (e de representação literária) do que entendemos por sociedade moderna. Praticamente todos os temas presentes nas obras de Rousseau, Schiller ou Stendhal (o "bom selvagem", a aspiração ao sublime, as verdades parciais da vida afetiva) reaparecem de modo concentrado em seus livros. Antes de Tolstói e Dostoiévski, podia-se, sem grandes dificuldades, classificar a literatura segundo categorias como "romance picaresco", "romance social", "romance psicológico" etc. Porém, obras como "Crime e Castigo" (de Dostoiévski) ou "Ana Karênina" (Tolstói) reúnem em suas personagens —e muitas vezes em uma única personagem— todo o mosaico possível de acepções do humano: os abismos interiores de desejo e culpa, os determinismos materiais e a tentativa de transcendê-los social e espiritualmente, as utopias políticas e religiosas, a fronteira tênue entre sanidade e demência, lucidez e possessão.

Aquilo que os une, no entanto, é justamente o que os separa. A percepção do drama humano em sua totalidade fraturada, que se verifica tanto em Tolstói quanto em Dostoiévski —e que faz da literatura anterior uma espécie de pré-história da arte de representar a pluralidade do real—, tem soluções que designam aos dois escritores russos papéis praticamente antagônicos na história da literatura. Tolstói é o remate perfeito da épica burguesa, da arte do romance; Dostoiévski aponta para sua falência e ultrapassamento. Romances monumentais como "Guerra e Paz" e "Os Irmãos Karamázov" são, respectivamente, o panorama e o apocalipse de uma era.

Nesse sentido, Dostoiévski é muito mais contemporâneo dos apocalipses cotidianos de nosso tempo do que Tolstói. É difícil encontrar na literatura universal um sucedâneo da escrita aristocrática do autor de "A Morte de Ivan Ilitch" (o mais forte candidato seria Thomas Mann, não por acaso autor de um ensaio intitulado "Goethe e Tolstói").

Em contrapartida, um livro como "Memórias do Subsolo"—que foi lançado também pela Editora 34, com tradução de Boris Schnaiderman— gerou uma profusão de personagens "subterrâneas" que ruminam sua inadaptação visceral ao mundo em monólogos autodestrutivos, desconstruindo qualquer ilusão de reconciliação do homem com a sociedade e com a natureza. Há referências evidentes a "Memórias do Subsolo" na forma alegórica do conto "A Construção", de Franz Kafka, na personagem da peça "Dias Felizes", de Samuel Beckett (que passa o tempo todo enterrada em um buraco), no diálogo sem interlocutor de "A Queda", de Albert Camus, e no monólogo existencial de "A Paixão Segundo G.H.", de Clarice Lispector —o que por si só dá uma idéia do impacto de Dostoiévski sobre diferentes momentos da literatura do século 20.

Mas "Memórias do Subsolo" teve importância, acima de tudo, no interior da própria produção dostoievskiana, projetando-se sobre seus quatro romances de maturidade: "Crime e Castigo", "O Idiota", "Os Demônios" e "Os Irmãos Karamázov". Cada um desses livros mereceria um artigo à parte, mas a recente publicação de "O Idiota" pela Editora 34 (688 págs., R$ 54; da mesma editora, "Crime e Castigo", 568 págs., R$ 49, "Memórias do Subsolo", 152 págs., R$ 23, "Niétotchka Niezvânova" 224 págs., R$ 25, e "O Crocodilo e Notas de Inverno sobre Impressões de Verão" 168 págs., R$ 23), em tradução do original russo feita por Paulo Bezerra (que também traduziu "Crime e Castigo"), acaba lançando o foco sobre aquela que talvez seja a mais complexa personagem de Dostoiévski: o príncipe Míchkin.

Comparado aos outros três romances citados acima, o enredo de "O Idiota" oscila entre a ingenuidade e a banalidade. "Crime e Castigo" é um romance policial estruturado a partir de uma espécie de "assassinato filosófico" (o herói, Raskólnikov, comete o crime para provar sua superioridade moral); "Os Demônios" é um retrato das disputas ideológicas no seio de um grupo de revolucionários e "Os Irmãos Karamázov" é um drama familiar tecido ao redor do tema mítico do parricídio.

Já "O Idiota" é a história, aparentemente sem grande complexidade narrativa, do retorno do jovem Míchkin à Rússia, após vários anos de internação na Suíça (para tratamento da epilepsia), e de seu envolvimento em um triângulo amoroso no qual os outro dois vértices são Rogójin (um devasso perdulário que dilapida a herança paterna) e Nastácia Filíppovna (uma mulher ao mesmo tempo ultrajada e altiva, além de arrebatadoramente bela).

Mas o que importa no romance, como de resto em qualquer obra de Dostoiévski, é a criação de um cenário ficcional em que tudo conflui para uma esfera que poderíamos chamar de "escatológica" (entendida aqui no sentido da discussão teológica sobre o fim dos tempos e o juízo final). Essa dimensão apocalíptica, religiosa, impregna cada frase ou ação das personagens de "O Idiota". Míchkin é uma espécie de iluminado que cativa ao primeiro olhar com sua simplicidade e parece ver através da alma alheia. Mas sua ingenuidade e pureza quixotescas, que tangem a idiotia, não o impedem de, logo na primeira cena, no trem que o leva de volta à terra natal, conhecer Rogójin e penetrar na trama passional que este e Nastácia vivem, percebendo ali um desejo de expiação e de exercício do "mal" em estado puro que transforma essas figuras sensuais em emanações arquetípicas, em encarnações da essência degradada do homem após a "queda".

A partir daí, o romance se desenrola em uma sucessão de cenas vividas por uma miríade de personagens que constituem uma espécie de afresco da Rússia do século 19: seres mesquinhos e frívolos como Gánia (o pretendente de Nastácia) ou Aglaia (o amor "terreno" e, por isso, inviável do príncipe Míchkin); figuras acanalhadas (como Totski, Liébediev ou Fierdischenko) e moribundos desesperados (como Hippolit, o jovem tísico e jacobino que faz um longo discurso anunciando seu suicídio para uma audiência desinteressada).

São personagens que se digladiam, discursam, gritam, agonizam, defendem idéias com a mesma intensidade com que vivem paixões carnais; vão do reles ao sublime num piscar de olhos. Por trás de cada uma das cenas de escândalo social que se desenrolam ao longo de "O Idiota", o leitor percebe a atmosfera de horror metafísico que aguarda Míchkin, Rogójin e Nastácia no epílogo narrativo. É como se Dostoiévski fizesse de cada bêbado, agiota ou seviciador que desfila diante de nossos olhos uma fresta pela qual vislumbramos uma redenção sempre adiada.

Aliás, esse é um dos traços estilísticos mais marcantes de Dostoiévski: fazer com que as questões metafísicas mais pungentes se imiscuam na vulgaridade das ações ordinárias (conservando assim seu realismo) e, ao mesmo tempo, fazer com que encontros miraculosos e cenas improváveis, dignas dos romances de folhetim, adquiram uma gravidade tal que pareçam ser a consequência lógica de um universo que caminha para a consumação.

Tudo nos romances dostoievskianos está às portas do juízo final. Daí o paroxismo de cada gesto e a extrema compressão espacial e temporal de "O Idiota". A cena da festa na casa de Gánia (em que cada personagem expõe suas piores iniquidades e que termina com Nastácia lançando ao fogo o pacote de dinheiro com o qual Rogójin queria "comprá-la") seria inconcebível em qualquer romance naturalista, nos quais personagens de origens sociais diferentes só convivem em espaços públicos e no qual as separações de classes se fazem sentir o tempo todo.

Em Dostoiévski, porém, um simples cubículo é capaz de comportar nobres, burgueses, funcionários públicos, estudantes e vagabundos que debatem acaloradamente entre si —todos envolvidos em questões metafísicas que pairam acima das determinações materiais e das segregações entre o público e o privado.

Da mesma maneira, toda a ação da primeira parte do livro (cerca de 200 páginas!) se desenrola ao longo de um único dia, arrastando o príncipe por uma quantidade inimaginável de experiências, como se nada pudesse ser postergado, como se cada ação tivesse um caráter de urgência, como se todo movimento guardasse uma promessa só atingida em momentos de intensidade sobre-humana (a exemplo dos ataques de epilepsia de Míchkin).

Essa compressão do espaço e do tempo aponta para um fato desconcertante: o grande escritor realista era no fundo um místico, no sentido bizantino do termo, leitura defendida pelo filósofo Luiz Felipe Pondé em livro que será lançado no início do próximo ano ("Crítica Religiosa a um Humanismo Ridículo: uma Introdução à Filosofia da Religião em Dostoiévski", Editora 34).
Reprodução

Camponeses russos no final do século 19

O que isso significa exatamente? A crítica tradicional muitas vezes interpretou sua conversão ao cristianismo ortodoxo como um fato político: depois de militar no Círculo Petratchévski (grupo de socialistas utópicos) e ser preso por conspirar contra a vida do czar, Dostoiévski foi condenado à morte em 1849, tendo a pena comutada para quatro anos de prisão na Sibéria quando já estava diante do pelotão de fuzilamento (na verdade, a cena toda fora uma perversidade das autoridades, já que a comutação havia sido concedida por Nicolau I antes da data prevista para a execução).

Alquebrado pelos anos de degredo, Dostoiévski teria transferido da política para a religião seu sentimento de revolta, dando conotações messiânicas a sua adesão ao movimento eslavófilo (uma forma de nacionalismo que contrapunha a pureza da alma russa ao desenraizamento provocado pela ocidentalização da Rússia). A religião, todavia, não teria conseguido sufocar seu anarquismo essencial, e a prova disso estaria na parábola do Grande Inquisidor, episódio alegórico (narrado em "Os Irmãos Karamázov") no qual Cristo retorna à terra e é preso pela Igreja Católica espanhola porque sua mensagem de liberdade seria insuportável para o homem. A Igreja Católica, segundo uma interpretação recorrente, seria aqui uma metáfora de todos os poderes temporais, incluindo o czar (que Dostoiévski se furtara de atacar para não se ver novamente enredado em problemas políticos).

Embora consistente, essa leitura deixa num plano meramente instrumental ou ideológico o misticismo de Dostoiévski e, aqui, a intervenção de Pondé é preciosa, pois desvenda no escritor russo uma dimensão "vertical" (ou sobrenatural) sem a qual a crítica da auto-suficiência humanista, contida em um livro como "Memórias do Subsolo", seria incompreensível ou meramente patológica. O anônimo e irascível narrador dessa novela, que do fundo de sua tocaia investe contra "os palácios de cristal", as quimeras construídas pelo "homem de ação", seria simultaneamente um instantâneo do estado de agonia do homem na natureza e uma abertura para as visitações do transcendente.

Essas "visitações" não ocorrem em "Memórias do Subsolo", mas despontam ao fim de "Crime e Castigo" (com a redenção de Raskolnikov) e nas crises de epilepsia do príncipe Míchkin, esses momentos de iluminação mística, de experiência interior de Deus, que se dão justamente a partir da doença e da desagregação da natureza (na qual um cientificismo estreito gostaria de nos encerrar).

O anticlericalismo de Dostoiévski, dentro dessa perspectiva, não seria uma defesa política da Igreja Ortodoxa contra a igreja de Roma, mas a expressão de uma teologia negativa, bizantina, que evita a pretensão dogmática dos escolásticos (que buscam em vão "provar" a existência de Deus) e percebe o sobrenatural a partir de nossa disfunção essencial e da própria incapacidade de descrever ou contemplar um Deus entrevisto pelo homem em seu exílio "vertical".

Essa leitura, longe de destituir o valor propriamente literário de Dostoiévski, ajuda a compreender melhor o caráter antiestetizante e antiliterário de obras como "Memórias do Subsolo", "O Idiota" ou "Crime e Castigo" —cujas asperezas e redundâncias são recuperadas pelas traduções de Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra, sepultando as versões feitas a partir do francês (que suavizavam a escrita dostoievskiana).

É conhecido, por exemplo, o repúdio de Tolstói ao estilo "mal-acabado" dos romances de seu "duplo" literário. Também Tolstói tinha uma preocupação com o desenraizamento do povo russo e pregava o retorno à simplicidade da igreja primitiva e aos valores da vida camponesa —uma fuga do mundo tematizada no livro "Padre Sérgio" (publicado pela Cosac & Naify Edições em tradução de Beatriz Morabito, 128 págs., R$ 30; da mesma editora, "O Diabo e Outras Histórias", 284 págs., R$ 35).

Mas, em Tolstói, as crises religiosa, política (sua renúncia aos privilégios de nobre latifundiário) e até mesmo estética (sua rejeição da arte ao final da vida) são expressão das frustrações de uma utopia inspirada em Rousseau (e, portanto, "ocidentalizante"). A crítica ao "homem inútil"—contida em "A Morte de Ivan Ilitch"— deságua no vazio sem consolo do humanista confrontado com a morte e com um mundo que lhe escapa por entre os dedos. Algo bem diferente, portanto, da superação metafísica que se antevê ao final de "Memórias do Subsolo".

Enquanto escreveu, Tolstói jamais conseguiu se libertar de seu próprio talento literário. Em nenhum momento ele consentiu em transgredir as regras da grande arte como forma de superação de suas limitações: quando a arte se demonstrou incapaz de transformar o mundo, abdicou dela. Mesmo "Ana Karênina", que deveria ser uma condenação da vida "mundana", se desdobra em dois enredos paralelos (a história da adúltera Ana Karênina e do camponês aristocrático Liévin) que resultam numa sinfonia perfeita e fazem da protagonista uma figura feminina cuja complexidade consegue suplantar até mesmo a Emma Bovary de Gustave Flaubert.

Comparado a Tolstói, portanto, Dostoiévski é o avesso do artista que lança um olhar olímpico sobre a realidade. Seus livros de enredo caótico e o discurso circular de suas personagens não estão a serviço da representação do existente ou da autonomia do objeto estético, mas de uma outra ordem, mais obscura e transcendente —por isso Joseph Frank deu ao quinto e último volume de sua biografia do escritor russo (que vem sendo editada no Brasil pela Edusp) o título de "Dostoiévski: o Manto do Profeta".

Obviamente, é preciso cautela quando se lê um escritor a partir de um recorte extraliterário. Mas talvez se possa dizer que Dostoiévski foi o profeta de todas as convulsões que marcaram a história da literatura depois sua obra.

Manuel da Costa Pinto, 36,é jornalista, editor da revista "Cult" e autor de "Albert Camus – um Elogio do Ensaio" (Ateliê Editorial). Tentou aprender russo para ler Dostoiévski no original, mas desistiu na terceira aula.

17/12/2002 – 02h43
As duas faces do romance russo
por: MANUEL DA COSTA PINTO
especial para a Folha de S.Paulo

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u246.shtml

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Porque – de fato – vale a pena.

Querido diário: hoje fui na Festa do Livro, foi muito legal e …. AHUaH – to brincando…

A Festa estava cheia! – odeio isso: a maior disputa para conseguir os objetos de desejo. Fiquei o maior tempão esperando “O Idiota” aparecer. E eu não podia chegar em casa sem “Os Demônios” – não podia, de jeito nenhum! Então me agarrei ao “Fausto” e comecei a namorar “Niétotchka Niezvânova” – o nome é feio, mas o conteúdo, meu amigo… hehe.

Confira o horário de funcionamento, bem como, a lista de editoras, aqui

Mas “Os Demônios” não saia de minha cabeça – fiquei impaciente (enfurecido) e comecei a desejar “A Morte de Ivan Ilitch” – mas desejei com fundo mesmo, com todo meu ser! Fiquei chateado em pensar que não encontraria “O Grande Inquisitor”… Então não pensei duas vezes: abracei “Os Irmãos Karamazov” – mas abracei com força – e não larguei mais: os dois, de uma vez só, por 50 reais!? Imagine!

Mas “ O Idiota” não vinha… “está chegando, tá chegando”, diziam. E isso fez com que eu ficasse carente, e todos os outros já não faziam mais sentido. Então saí à procurar “ANNA KARENINA” (“Niétotchka” – ficou com ciúme e, juntamente com “A Dama do Cachorrinho…” fizeram o maior escândalo. Mas eu conversei com ela, e ficou tudo bem (mulher é assim: é só tomar “A teoria do Romance”, que se sabe como lidar) . E “A dama do cachorrinho…”!? – ah… essa aí deixei de lado: eu a pego na próxima vez… HehEhe). Resolvido os conflitos corri atrás da “Anna Karenina” – Oh… E nada de encontrá-la… Tentei pegar “O Caminho de Swann” – e quem sabe, apartir dele, eu alcançaria ela!? Oh, doce “Ilusões perdidas” – ficaram todos para trás… Uma lástima!

Ah, mas parei de lamentar… Ora! O que adianta ficar “Em busca do tempo perdido”? – pois é: nada! Então pensei: “ deixo esses para depois; vou voltar na 34, e não saio de lá sem ‘O Idiota’” – eu ia fazer o maior escândalo – porque eu já estava com “Os Demônios”!! – afinal de contas, aqueles livros eram o sonho de “Minha Vida” (Tchekhov! – dei um espirro!), em seguida pisei no pé de uma mulher, não deu outra: “Crime e Castigo” – ela ficou brava, mas lembrei que já tinha, pedi desculpas, e deixei pra lá.

Por fim, depois de passar pela “Duas Cidades” cheguei na “34” – e adivinhe quem estava lá a me esperar!? Isso mesmo: “O Idiota”, e acompanhado por “Um Jogador” – mas o último… bom, ele é meio perigoso, então o evitei – deixei de canto…

Bom, somando tudo foi uma maravilha – mas a brincadeira foi cara… Fiquei devendo até minha alma (o pior é que ela não vale muita coisa…). E para se perder naquele mar de volúpia é fácil: cheque pré, détito automático (Visa e MasterCard) – dá até para parcelar! (bom, sozinho você não sai da Festa – eu graranto!)  Pois é, mais um “Fausto, uma tragédia” financeira – e só de pensar que essa foi, apenas, a primeira parte… Mas amanhã terei a “Segunda parte da tragédia”, mas não tenha dúvidas – nem que seja a última coisa que eu faça! E é tudo culpa (influência) daquele “Um Jogador” de uma figa. Ah, meu amigo, mas amanhã… Ah! amanha eu volto lá e pego ele – ah se não pego – daí vai ter “Assassinato e outras histórias” na certa – pode escrever! E eu saio (de lá) com a “AnnA KareNinina”, em meus braços – má nem que seja arrastando pelas orelhas!

Cheguei em casa um caco, o maior trânsito, o maior peso – foi uma verdadeira odisséia! Tomei banho, mas quando fui dormir… “Niétchka” me pegou de jeito… Tentei resistir – JURU. Mas a olhei, ela estava daquele jeito – não pensei duas vezes: a despi e mandei brasa – pelo nome você não dá nada, mas – meu amigo!!! – ao pegar na sua lombada, tão delicada, deitar suas costas na mesa e abrir suas partes íntimas… Nossa!!! Que volume! – estou zonzo até agora!

Bom, mas não vejo a hora de chegar amanhã: espero ainda ter crédito (e quem sabe um paitrocínio), porque hoje eu deixei até minhas cueca por lá (sic) – na verdade não deixei, bem que tentei, mas ela estava furada, daí o rapaz não gostou. Bom, espero em Deus, que amanhã seja “A divina Comédia”, espero que ainda tenha, né? e tudo dará certo! Bom, isso se “O diabo e outras histórias” não atormentar minha cabeça…

Boa noite, já que a minha será maravilhosa – porque a famigerada “Niétochka” fez referência à “Mulher abandonada”, e “Os Irmãos…” está, juntamente com “Fausto”, louco para entrar na brincadeira – au, au, au: vai rolar o bacanal, AHuaHAHa

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A vida, filha do acaso, nada; um dos grandes problemas contemporâneos – a estupidez da maioria

Jornal do Brasil  / Data: 15/1/2005

O seguinte artigo tem em vista o livro de Tchekhov entitulado: “Minha Vida” – que é a história do Missail Poloznev: um homem que ‘rompe com o pai e com sua classe quando decide exercer um trabalho físico, compartilhado com plebeus e mujiques’.

Maurício Gonçalves A interpretação da obra [Minha vida] do russo Anton Tchekhov tem duas vertentes contraditórias: uns vêem nos escritos do habilidoso contista crítica social; sonhos de um mundo melhor. Estes primeiros querem um escritor revolucionário, voltado para o coletivo. A segunda leitura arranca das entranhas de Tchekhov um pessimismo permeado de ironia. Constrói a figura de um humorista descrente, cansado de tudo. Assim nos esclareceu Otto Maria Carpeaux num artigo intitulado ”O acontecimento”. Sigamos a pista do crítico austríaco.

Anton Pávlovitch Tchekhov viveu em um tempo de crise. Nascido em 1860, o autor de obras teatrais que fundariam o realismo do Teatro de Arte de Moscou pôde observar a mudança de valores que ocorreu nas cidades oitocentistas. A Revolução Industrial do século 18, reestruturando as sociedades com sua ênfase no capital, na sua acumulação e multiplicação, fez com que aqueles antigos habitantes dos burgos ascendessem: é a burguesia que passa a questionar a divina imobilidade aristocrática. Quantas histórias não foram criadas a partir desse embate – de um lado, nobres sustentados apenas pela tradição do nome; do outro, burgueses indecisos entre a adesão, a criação de um passado através da compra de títulos, ou a ruptura com um pensamento atrasado. Conta-nos a crônica da época que nobres, vários deles, também romperam com sua classe social.

Nobre de nascença, Missail Poloznev entedia-se com seu cotidiano burocrático em empregos ”arranjados”. Rompe com o pai e com sua classe quando decide exercer um trabalho físico, compartilhado com plebeus e mujiques. Missail deixa sua cidade e vai trabalhar na construção de uma ferrovia, em busca de um sentido para a própria vida. Essa caminhada cheia de percalços forma o enredo do livro. Partindo do ponto de vista da crítica social, temos um protagonista idealista, que acredita no poder transformador do trabalho, da auto-subsistência. Macha, a filha do engenheiro que lhe dá o emprego na ferrovia, apaixona-se por esse homem. Casados, resolvem reformar uma escola. A educação é um ponto fundamental para a mudança da sociedade. A escolha existencial de Poloznev enfatiza o livre-arbítrio, capaz de mudar o próprio destino.

É curioso notar que o idealismo de Missail carrega-o para um tipo de vida que ele acha mais relevante a que tinha levado até então. Tchekhov não toma partido de personagem algum e revela-nos uma paisagem desoladora. Também os pobres são desonestos e injustos. A trapaça e a vodka apequenam aqueles trabalhadores. Há corrupção, preconceito e intolerância como nas classes mais altas. Missail é mal aceito entre a gente simples, precisa usar o suborno para dar andamento aos seus projetos. Ele presencia o nascimento de um tipo que mais tarde o filósofo Ortega y Gasset iria batizar como homem-massa: sem obrigações de nobreza, apressado, sem memória. Ele está em todas as classes sociais. Eis um dos grandes problemas contemporâneos – a estupidez da maioria; a ignorância reinante que generaliza e simplifica – detectados neste livro. O escritor nunca descamba para o grandioso ou para épico; não quer saber do romantismo. Ele sabe que somos muito menores do que aceitamos: ”Diga-me, qual é a força que nos impede de reconhecer a verdade daquilo que pensamos?”, pergunta-se Missail. Formado em medicina, o médico Tchekhov precisou desenvolver a percepção para o não aparente, para a doença que o corpo não diz. Os silêncios são tão ou mais importantes do que as falas nos textos do russo. O não-dito é uma espécie de constrangimento significativo. E já podemos concluir: o ensaísta inglês Isaiah Berlin escreveu que o constrangimento é filho do conhecimento. A vida, filha do acaso, descobre um Tchekhov constrangido, nada significa.

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“Ele escreve sobre algo em que não acredita”, disse Tolstói; “este paraíso na terra, que Dostoiévski não define de outra forma, será ele Cristão?” – indaga Pierre Pascal                          

Ao se ler hoje a obra de um grande autor, vem imediato a pergunta do quanto dela ficou, o quanto permanece válida em nossos dias que se vêem continuamente desapossados de tantos dos valores do passado. De Fiódor Dostoievski (1821-1881), fica o estilo mais que atual, pois, como se sabe, não apenas escrevia de forma muito ágil – inicialmente para se manter dentro dos prazos dos editores, pois dependia dos adiantamentos para sobreviver, e depois por hábito – mas, uma vez esboçados, ele costumava ditar seus textos que, muitas vezes, nem pareciam revisados. Além disso, tal como Tchekhov, em alguns de seus contos, ele mimava a maneira de se expressar característica de cada personagem. O tradutor de Os irmãos Karamázov, Paulo Bezerra (veja mais sobre o tradutor aqui), comentou as suas dificuldades com a fala do irmão ilegítimo Smerdiákov, cheia de artimanhas, de modo que o resultado era uma linguagem muito viva, e o é agora, felizmente, sem aquela homogeneização a que era submetida via traduções indiretas. Fica a engenhosidade dos romances: neste, o último, iniciado dois anos antes da morte do autor, ele conseguiu reunir todas as vertentes de sua arte. "É um romance policial psicológico, como Crime e castigo; é, quanto a Dmítri, a história de um idealista mal julgado, como O idiota; é, quanto a Ivan, o romance dos intelectuais ateus, como Os demônios; é, quanto a Aliocha, a história da formação de um (homem) novo, como O adolescente" (Otto Maria Carpeaux , prefácio à edição da Ediouro, com tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes).

"Permanece a inteligência da urdidura, a universalidade dos temas, o gigantesco das personagens" (Joseph Frank, O manto do profeta – Edusp 2008), mas permanece também a pergunta, por sinal reforçada por Freud em Dostoiévski e o parricídio, de 1928: "Como é que o primeiro Dostoiévski, o de Gente pobre, exaltado pelo crítico populista Bielínski e condenado à morte (depois comutada) pelo czar por seu socialismo utópico (a crença num mundo melhor, nessa terra), se transforma no último Dostoiévski, submisso a esse mesmo czar, amigo do seu temível conselheiro K. P. Pobedonóstsev, invocando a fé não apenas nos valores morais cristãos, mas nos seus pressupostos sobrenaturais, como os proclamados por Aliocha na última página do romance "a única coisa que podia dar um sustentáculo seguro?". A resposta de Freud, que não vamos comentar aqui e que implica sado-masoquismo e sentimento de culpa, é – como a grande maioria das suas grandes respostas – brilhante, apesar dos pequenos deslizes que o tempo revelou (não há certeza de que tenham sido os servos revoltados a matar o pai de Dostoiévski, como não era o abutre, mas sim o milhafre, a ave simbólica de Uma lembrança infantil de Leonardo da Vinci).

A resposta que dá o contemporâneo e, num certo sentido, rival, Lev Tolstói, (sete anos mais jovem que Dostoiévski, mas que morreu 29 anos mais tarde), ao escritor Maksím Gorki que o visita, já ancião, na Criméia (3 Russos- Martins-Martins Fontes, 2006) é seca e contundente: "Ele escreve sobre algo em que não acredita".
Já Otto Maria Carpeaux propõe uma interpretação (aristotelicamente) dialética: "O romance Os irmãos Karamázov passa-se em dois níveis diferentes. Embaixo, a Rússia dos Karamázov, envolvida nas névoas da paixão sexual desenfreada, das bebedeiras e orgias, do crime mascarado e da justiça cega, das filosofias subversivas e das visões satânicas; o diabo aparece em pessoa para conversar com Ivan, que, por sua vez, dirige a mão do parricida. Em cima, o convento, luminoso como um reflexo de glória celeste. Essa dicotomia representa a visão dostoievskiana do futuro: o cristianismo salvará a Rússia (não o da Igreja de Roma, porém); e a Rússia fará o cristianismo vencer no mundo. Eis a mensagem de Dostoiévski, que ele lança contra a mensagem escondida na filosofia de Ivan e de todos os Ivans que esperam que a revolução salvará a Rússia e que a Rússia salvará o mundo. Pelo seu romance, afirma Dostoiévski que a primeira tese, a sua, é evangélica e que a outra é satânica. Mas não escapa à inteligência insubornável do escritor o fato de que as duas teses são, no fundo, idênticas: basta trocar um substantivo para transformar uma na outra". Outros críticos e filósofos chegaram a uma descoberta próxima. Em Dostoiévski e a consciência cristã, hoje (1971), Pierre Pascal pergunta: "Mas este paraíso na terra, que Dostoiévski não define de outra forma, será ele cristão?”

Os autores que trataram dessa noção em Dostoiévski vêem nela uma sobrevivência do antigo entusiasmo dele pelo "socialismo utópico". Bem, dentro da polifonia dos romances dostoievskianos, a fala que mais impressiona o leitor, no livro, é a do "herético" Ivan Karamazóv, embora – quem sabe – a fala do autor se escondesse atrás das palavras do puro Aliocha. Aí, como provou Bakhtin, está a revolução literária do autor Dostoievski – não é a voz dele a que necessariamente se impõe. Ivan das torturas infligidas às crianças, Ivan que recusa o bilhete desse mundo de Deus, Ivan que compõe A lenda do grande inquisidor. Ainda mais paradoxal, as sementes de trigo da epígrafe produziram fruto sim, mas curiosamente, no sentido oposto ao que Dostoiévski esperava. O "nosso pobre povo" quer o Milagre, o Mistério e a Autoridade em que se apoiar, enquanto o deus Capitalismo – o que o narrador execrava na figura do velho pai hedonista, Fiódor Pávlovitch Karamázov – continua regendo os destinos do mundo, até sua utópica derrocada.

Aurora F. Bernardini é professora de pós-graduação em Literatura Russa da USP

Por: Aurora Bernardini

Fonte: Revista Cult

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Sexta-Feira, 31 de Outubro de 2008

 

Apenas na superfície de Chekhov.

Nesta encenação, Tio Vânia é levada à pré-história da comédia romântica.

Crítica –

Mariangela Alves de Lima.

"Se me ocorresse gravar um anel escolheria esta inscrição: ‘Nada passa.’ Creio que nada passa sem deixar rasto e que até o menor dos nossos atos resulta importante para a vida do presente e do futuro." Com essa singela reflexão o narrador de uma das mais pungentes novelas de Anton Chekhov resume a perspectiva filosófica central da obra desse escritor russo. Porque as pequenas coisas não passam, porque os momentos aparentemente perdidos no ócio e no devaneio nos constituem tanto quanto as crises que imaginamos serem momentos decisivos, a memória dos acontecimentos passados impregna o presente dos indivíduos e dos grupos. Assim, nada do que possamos fazer ou pensar terá, como talvez se deseje, o frescor da novidade absoluta.

 

Serviço

Tio Vânia. 120 min. 12 anos. Ágora Teatro (88 lug.). R. Rui Barbosa, 672, 3284-0290. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 20. Até 21/12

 

Fiel à letra e ao espírito chekhoviano, o Teatro Ágora apresenta pela segunda vez na mesma década, e sob a mesma direção, a peça Tio Vânia. Nada passa e, portanto, o diretor Celso Frateschi experimenta outras abordagens de um texto que não sai do repertório mundial há mais de um século. Neste caso, até o edifício teatral, que nesta cidade pujante costuma desvanecer-se no plano físico para poder viver só na lembrança, permanece firmemente plantado, ampliado e embelezado em uma das colinas da Bela Vista. Quem viu a encenação de 2001 não poderá deixar de relembrar, sob a superfície ampliada e clara do palco atual, os enquadramentos estreitos e monásticos, a iluminação econômica e a ascese dos objetos de cena do espetáculo anterior. Talvez porque se localize no mesmo teatro há, para quem viu, um esboço imaginário sob a tela bem definida do presente.

De qualquer modo, o espetáculo apresentado agora não diminuiria de estatura por ser cotejado com outro sob a mesma direção e no mesmo lugar, porque o teatro está repleto de tentativas muito bem-sucedidas de retorno à mesma obra por um caminho diferente. A sensação de malogro, de que ninguém compreende a história ou o que está fazendo em cena tem origem em uma releitura apressada e em uma execução canhestra que, embora comprometa o desempenho do elenco, só pode ser responsabilidade do encenador.

Alguns traços da concepção anterior permanecem e as relações amorosas desastradas, que resultam em sofrimento para todos os envolvidos, são impulsionadas por um erotismo à flor da pele que deveria funcionar em cena como uma expressão da afetividade contemporânea, tornando mais próximas personagens concebidas em uma época forçadamente mais pudica. No entanto, saltitantes e dinâmicas para sugerir do modo mais fácil essa ciranda amorosa, as personagens presas a essa concepção não têm o apoio de um texto pautado pela mesma energia. Tudo o que deveria ser hesitação e negaceio nas relações da bela Helena com os homens que subjuga – e o negaceio pode ter imensa carga erótica -, é transformado em namorico e provocação. Da imensa infelicidade acumulada, da frustração que é a um só tempo sentimental, de realização econômica e intelectual e de decepção com a civilização sobra pouca coisa porque essas personagens se movem na superfície, atritando-se por ninharias. Estão tão ocupadas em se mexer, em aparentarem vivacidade e, sobretudo, em indicar nostalgicamente a finesse decadentista, que representam diretamente para a platéia os gestos considerados mais preciosos. São visíveis as marcações do espetáculo também porque se trata de um trabalho imaturo, em que o elenco ainda não domina as tarefas da representação. Mas há desenhos de movimentos, como os de Helena e Astrov, que são puramente decorativos, concebidos, ao que parece, para aliviar o peso dessa história tristíssima.

Mas é, sobretudo, o tratamento visual, obtido pela soma da cenografia e dos figurinos, que contribui com peso decisivo para dissolver a dramaticidade tão peculiar dessa peça e devolvê-la à pré-história da comédia romântica. Sílvia Moreyra têm feito ótimos trabalhos no Ágora e o mais provável, a julgar pela concepção ligeira das personagens e pelo desempenho, é que tenha traduzido a idéia da direção de tornar a fazendinha mais agradável aos olhos dos espectadores. As roupas clarinhas, maleáveis, bem cortadas para ajustar-se ao corpo das jovens e sugerir a vestimenta refinada de uma época em que as pessoas tinham muito cuidado com a aparência ficariam muito bem em um gracioso vaudeville. Podem até ser fiéis reconstituições de vestimentas do século 19, mas não têm nada a ver com a dureza da pequena fazenda onde os administradores, com muito trabalho, se esforçam para ganhar o pão de cada dia. Não seria preciso, está claro, figurinos veristas em uma peça em que o simbolismo coexiste lado a lado com o detalhe naturalista, mas essas criaturas diáfanas e elegantes, que giram em cena para exibir a maleabilidade dos tecidos, se deleitam com a sua aparência. Em Chekhov, sofre-se muitas vezes em silêncio, com compostura, mas não se pode dizer que suas personagens tenham atravessado apenas um período de invulgar aborrecimento.

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Domingo, 05 de Outubro de 2008

Atenção!!! O ministério da saúde se diverte – esse texto contém spoilers!!!

Quem, afinal, matou o velho Karamázov? É o mais rico dos livros de Dostoiévski e nele aparecem os temas que atormentavam o autor nos últimos anos de sua vida.

Texto  escrito por Boris Schnaiderman, que infelizmente faleceu no inicio de 2016 aos 99 anos. (Publicação original).

Os Irmãos Karamázov, que sai agora em tradução do russo por Paulo Bezerra, é certamente o mais rico dos romances de Dostoiévski e aquele em que aparecem de modo mais incisivo os problemas vitais que o atormentavam nos últimos anos de vida. Os grandes temas da sociedade russa na época e também os grandes temas do homem no mundo surgem ali numa trama admiravelmente urdida, que tem algo de romance policial. Quem matou, afinal, o velho Karamázov? Todos os indícios apontavam para um dos três irmãos, Dmítri, o impulsivo, o incontido, embora o verdadeiro assassino fosse Smierdiákov, um criado da casa, também filho do patrão, mas com a mendiga Lisavieta Smierdiáschaia, isto é, a Fétida, pois era como a chamavam.

Dá pena resumir assim aquela trama, que é simplesmente magnífica e serve de arcabouço a todo um mundo de idéias e sentimentos, com uma intensidade rara em toda a literatura.

Nesse sentido, adquire especial ressonância a conversa entre os irmãos Aliocha e Ivan numa taverna, o primeiro um noviço, que recebera ordem de seu chefe espiritual de ir para o mundo, o segundo, um homem de razão e de análise, de pensamento cortante e expressão incisiva, que apresenta sempre os argumentos mais arrasadores, em contraposição às convicções religiosas do noviço.

Realmente, é extraordinário que um homem tão profundamente religioso como Dostoiévski tenha podido formular as objeções mais categóricas que é possível apresentar a um crente. No capítulo A Revolta, Ivan relata uma série de episódios noticiados pela imprensa, em que as vítimas eram crianças entregues à crueldade dos adultos. Aliás, o que ele não teria a dizer-nos hoje, diante dos horrores de nossa crônica policial?

O momento culminante daquele encontro ocorre depois que Ivan narra o caso de um general reformado que vivia em sua propriedade, cercado de tratadores de cães e criados de serviço. Certo dia, um dos cães apareceu com a pata machucada e, interrogados os de casa, constatou-se que o culpado era um menino de oito anos, filho de uma das criadas. O general mandou então reunir todos os seus servos, o menino foi conduzido ao local da reunião e, na presença da mãe, despido e jogado aos cães.

Horrorizado, Ivan indaga então se é possível buscar a harmonia universal à custa das lágrimas de uma só criancinha que seja. E acrescenta: “Não é Deus que eu não aceito, Aliocha, estou apenas lhe devolvendo, do modo mais respeitoso, o meu bilhete de ingresso”.

E é depois desta conversa tão incisiva que Ivan expõe a Aliocha o seu poema não-escrito, O Grande Inquisidor, em que Jesus volta à terra, em Sevilha, no século 16, no dia seguinte a um auto-de-fé em que se queimaram perto de cem hereges. Ele passa no meio do povo, na praça central, e todos o reconhecem. Pratica ali mesmo vários milagres e acaba encontrando o velho cardeal, o Grande Inquisidor. Este ordena que o prendam e vai visitá-Lo no calabouço. Tudo isto para dirigir-Lhe a palavra e dizer-Lhe que era uma ilusão a liberdade que Ele quisera dar aos homens, pois estes somente se sentiam bem na condição de rebanho e só ansiavam dobrar a cabeça diante de uma autoridade.

Esta alocução sobre a liberdade e a conversa sobre o bilhete de ingresso no mundo parecem servir de fundo a toda a trama do romance. E aí aparece, com todo o vigor, o pulso de Dostoiévski como o verdadeiro ficcionista-pensador, insuperável no gênero.

Já se gastaram rios de tinta na interpretação daquelas páginas, mas elas continuam a desafiar-nos com a sua linguagem simbólica. Ademais, é realmente muito rica a galeria de tipos do livro, mas sempre em conexão com o debate de idéias. Num curto preâmbulo, o autor afirma que o mais importante da obra viria num segundo romance com o mesmo personagem central, mas ele não chegou a escrevê-lo. No entanto, inacabado como ficou, este nos desafia com a sua riqueza e profundidade.

Neste sentido, basta lembrar os episódios relacionados com Catierina Ivânovna, a noiva de Dmítri, e Grúchenka, sua companheira de muitas farras. Parece até obsessiva a preocupação do romancista de apresentar personagens femininas que a sociedade considera pecadoras e que possuem grandes qualidades de caráter. Mas Grúchenka, além disso, é muito mais enigmática e complexa do que, por exemplo, Sônietchka Marmiéládova, de Crime e Castigo. Veja-se, neste sentido, toda a seqüência a partir do capítulo As Duas Mulheres Juntas, em que se dá o encontro delas. A passagem em que Grúchenka pula no colo de Aliocha é de uma grandeza única e ali o romancista exibe uma capacidade de penetração humana simplesmente demoníaca. Aliás, as artes do demo parecem tão presentes no livro que sua figura aparece a Ivan, conversando com ele, como algo absolutamente normal e cotidiano.

O romancista afirma que pretendia narrar a vida de Aliocha, mas este acaba aparecendo como um dos protagonistas, essencial sem dúvida, mas tão importante como outros personagens.

A narração tem muito das hagiografias russas, das narrativas designadas como jitié. Aliás, a velha Rússia está muito presente praticamente em cada página, o que traz também a sua marca estilística.

Uma estudiosa atual de Dostoiévski, V. I. Viétlóvskaia, tem um ensaio em que aponta a relação de Aliocha com Aleixo Homem de Deus, santo francês que acabou aparecendo também na Rússia, a partir de fontes bizantinas. Existem em russo diferentes versões desta lenda francesa, mas Dostoiévski acabou baseando-se nas mais antigas, que são em verso, ao contrário das oitocentistas, geralmente em prosa.

Enfim, este romance é um dos poucos textos dos quais se pode dizer: depois de lê-lo, a pessoa não é mais a mesma.

Boris Schnaiderman é crítico literário, ensaísta e tradutor do russo

 

 

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