Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Moral’ Category

Do Usp Online, artigo completo no link

‘A pesquisa (de mestrado) de Angelina tinha por objetivo perceber como as mulheres que sofrem violência pelo parceiro íntimo usam os recursos de âmbito municipal (como os postos de saúde e delegacia da mulher) [… ] as mulheres agredidas pelo parceiro não são protegidas pelas redes sociais e de apoio como gostariam, recebendo cuidados referentes à sua integridade física, mas não recebendo abordagem em saúde mental’

A tese de mestrado de Angelina, tem como título: Violência doméstica sob o olhar das mulheres atendidas em um instituto médico legal: as possibilidades e os limites de enfrentamento da violência vivenciada

Read Full Post »

Santa crueldade. – Um homem dirigiu-se a um santo, tendo nas mãos uma criança recém-nascida. “Que devo fazer com esta criança?”, perguntou ele, “ela é miserável, deformada e não tem vida bastante para morrer.” “Mate-a”, gritou o santo com voz terrível, “mate-a e segure-a nos braços por três dias e três noites, afim de criar em si mesmo uma lembrança: – desse modo você não gerará novamente um filho quando não for tempo de fazê-lo.” – Ouvindo isso, o homem partiu decepcionado; e muitos censuraram o santo por haver aconselhado uma crueldade, pois aconselhara matar a criança. “mas não é mais cruel deixá-la viver?”, exclamou o santo.

Nietzsche – Gaia Ciência, Parte II, 76

Read Full Post »

A Faculdade de São Bento juntamente com o Instituto jacques Maritain do Brasil Convidam para o proxímo Café Filosófico. O primeiro foi um sucesso de público. Mais de 50 pessoas lotaram o Café Girondino no último dia 27 de Abril, para refletir o mestre interior em Santo Agostinho.

Tema: A Dignidade da Pessoa.

Convidado: Prof. Dr. Francisco Catão (Faculdade de Filosofia e Teologia de São Bento).

O Café Filosófico acontecerá na Segunda – Feira, 1 de Junho de 2009, no Café Girondino, Largo de São Bento, das 17:00h às 19:00h.

CONFIRMAR PRESENÇA:

maritain@maritain.org.brou priscilapozzoli@gmail.com

fonte: Biblioteca da Faculdade de São Bento

Read Full Post »

Carta a Aedo

A Arte de Ser (uma Sombra)

Sua vida é uma singularidade – acerca-se de virtudes ascéticas e dela serve-se para fins particulares. Virtudes essas – que passam longe de serem verniz moral, ou meios para alcançar uma (confortável vida) pós-morte – são sim as consequências da (sua) filosofia, a qual subjuga os instintos, em prol da conquista do pensamento – do pensamento!

Assim, trajando um disfarce – humildade, pobreza, castidade – ele é, vem verdade, um Grande Vivente, e converte seu corpo num templo – visando uma causa: demasiadamente orgulhosa, rica, e sensual. Vive em função das causas e dos efeitos – tem como ponto de partida uma certa produção (produtividade), tal que passa longe da produção em massa, de reproduzir opressão, difundir o medo – e na contramão dos comuns, não parte da necessidade, muito menos vive em função dos meios e dos fins.

Daí (ad)vem a consequente solidão desse humano (demasiadamente humano), o qual por não encontrar (na)morada – acaba por  “não servir para nada”. Mesmo porque, seu único poder – o pensamento –  aos fins do Estado transcendente; não sendo, por conseguinte, seu alcoviteiro – torna-se inimigo iminente.

(sobre)Vivente, à deriva, sem eira nem beira; tramita (d)entre as esferas (sociais) sem nenhuma pertencer – sem lugar. Está hora aqui, hora acolá – ora, e agora, onde é que ele está?  Em Silentium – na madrugada –  a suplantar-se.

<!– @page { margin: 2cm } P { margin-bottom: 0.21cm } –>

> Texto (completamente, diga-se de passagem) baseado na introdução do livro Espinoza e os signos, de Deleuze.

Read Full Post »

 

Presidente negro o ca**lho, Obama é mulatto po**a. Barack Obama é apenas ‘metade negro’ – diz KKK

Filho de americana branca, presidente ‘não cresceu num ambiente negro’, afirma Tommas Robb, diretor da organização racista

Os Kus não querem aceitar – nem à forca – que um negro tenha vencido as eleições. Esse pessoal da América do norte é engraçado, eles adoram tentar provar o ‘improvável’: outro dia tentaram provar que tortura não é tortura, quando questionados sobre os maus tratos em relação aos iraquianos presos. Fizeram de tudo para provar que a China não estava liderando no ranque medalhas nas olimpíadas – era até engraçado: sempre foi contado o peso de cada medalha, mas resolveram mudar: “não! Quem ganha é quem tem maior quantidade” – disseram. Mas no fim não teve como negar: a China atropelou todos, seja na quantidade ou no peso de cada medalha

Pois bem, agora a onda é dizer que um negro não é negro! – não, magina! Cê acha? Muito menos Barack. O Ku, digo, lider, da Klan [Thomas Robb] disse: “Obama se tornou o primeiro presidente mulato (first mulatto president) dos EUA” – viram!? Ele não é negro! De fato, vejam na foto ao lado que ele está bem branquinho. E continua: “vocês andam ouvindo por aí que ele é o primeiro presidente negro. Porém, tanto vocês quando eu, sabemos que ele é apenas meio negro (Obama is only half black)”. UhaHA Meio negro é engraçado! Isso me lembra a discussão, aqui no Brasil, sobre quota para negros e indígenas – afinal, o que determina a negritude, a ‘branquidade’, ou a ‘indigenanidade’ de alguém? “E além de ser, apenas, meio negro, ele não foi criando num ambiente negro (black environment.)”.

Barack

Puxa! Que sorte a do Osama, digo Obama, não? Escapou por pouco de ser criando num ambiente de obscuridade! AHUAHA. E tudo isso, graças ao pai, continua o Ku da Klan: “ele foi criado apenas pela sua mãe – Oh… pobrezinha… – por que seu pai negro (black father) fez o que é comum dentre os homens negros, os quais fazem piada sobre o assunto (there are jokes about it)”. ErRrRRr, ti contá esses rapazes negros hein? Que pessoas mais sem valor! – abandonar um filho? Os brancos têm de dizer umas verdades a eles. E prossegue: “seu pai abandonou tanto ele, quanto sua mãe; e Obama viu seu pai negro africano (black African father) apenas uma vez”.

Robb ainda por cima diz que ele, e o seu povo, não ficaram chocados com a vitória do mulatto: “isso nos chocou? Absolutamente não (shocking to us? Not at all!) – NaAAao, é claro que não!! Magina! É só entrar no blogue do Tommas para ver que ele nem ligou para o fato.

Não chocou de tal forma, que ele segue dizendo que o Barack – apenas – simboliza, nada mais que isso, magina, “o grande problema que está afetando nosso povo e nosa cultura” – só isso, mais nada!

Além disso, “toda vez que Obama aparecer na TV, será um lembrete que nosso povo perdeu poder neste país”.

Mas Robb não está preocupado – de fato não está, nem desesperado – nem mesmo com o anúncio que ele próprio fez a respeito de uma “guerra racial” (war race)

Por fim, ele diz para que (os brancos) não se desesperem e não s desencorajem: (So don’t despair! Don’t be discouraged!) – Ora, há alguém desesperado aqui? Penso que não… E roga que seu povo se una!

E evoca os poderes de Deus: “A Bíblia diz: “ Assim que meu julgamento estiver na terra, seus habitantes aprenderão a retidão (justiça)” "When my judgements are in the land the inhabitants of the earth will learn righteousness."

____________________________________________________________

Da Redação – estadao.com.br quinta-feira, 6 de novembro de 2008, 17:54

Ku Klux Klan é um termo usado para se referir a organizações nos EUA que defendiam a supremacia branca e promoviam o protestantismo. A Ku Klux Klan original foi fundada por ex-membros do Exército Confederado em 1866 e buscou devolver aos democratas o poder no sul do país.

Um segundo grupo, mais conservador, foi fundado perto de Atlanta em 1915. Baseava-se nas tradições e combatia a crescente entrada de católicos, judeus, negros, asiáticos e outros imigrantes nos EUA com uma série de atrocidades, como assassinatos e estupros.

Esse grupo racista teve grande projeção e chegou a ter 4 milhões de membros em seu auge nos anos 20. O nome Ku Klux Klan vem de Kyklos, palavra grega para círculo. Outra explicação, citada pelo escritor Arthur Conan Doyle, diz que se trata de uma onomatopéia de um fuzil sendo engatilhado.

Read Full Post »

por J.R. Guzzo.

Maus cidadãos.

Lula disse que todo mundo deve ter o direito de fumar desde que não incomode os outros’. “O problema é que a proibição do fumo parece não bastar, para quem a defende. Cada vez mais, procura-se também a condenação dos fumantes”.

 

 

[Sabe o que eu acho? Vou dizer, to nem aí – se não quiser ler pule essa parte, nem ligo!: eu acho que é aquele papo – o  cigarro faz circular muito dinheiro: transporte do produto, no comércio, impostos, etc. E o Estado ganha muito dinheiro com isso. Mas ele tem que enfrentar um problema: os fumantes! Mas não os fumantes em si, e sim, as conseqüências que eles trazem: ficarão doentes e o Estado terá que “cuidar” dos pobres. E o Estado não quer isso, claro! Afinal de contas, terá que gastar o dinheiro – boa parte obtida com o imposto que o moribundo gerou ao engolir fumaça – para tratar do peão.

Agora um parênteses: (e drogas como maconha e “cocaínageladeira”? Ora, elas também fazem circular muita grana – não há interesse em acabar com o tráfico – aposto que o “Capitalismo” a adora.) fim do parênteses.

Daí usuário paga o pato duas vezes: primeiro por ser discriminado (e gemer no fio da espada da lei), e depois de ajudar a circular tanto dinheiro, tem de fazer circular mais dinheiro ainda para ter uma morte dígna!

Ah, mas ótimo! É isso aí! Os usuários estão cumprindo seu papel direitinho – pouco importa sua saúde, o bem estar físico e moral – tá fazendo circular dinheiro!? Ah, então tá bom.

É o que eu acho…

Ps: as empresas “cigarríficas” têm de ser mais espertas – e penso que elas já sacaram isso (do contrário, que escutem meu conselho – da próxima vez vou cobrar, hein?): maios ou menos como os traficantes do Rio (de Janeiro) sacaram que não deveriam deixar o Crack ser vendido por lá, os “tabaqueiros” precisam fazer cigarros menos nocivos, porque assim, seu objeto terá mais vida útil – e por conseguinte – renderá mais dinheiro. 😉 O Estado, por sua vez, não ficará chateado em ter que gastar o dinheiro que consegui com tanto (nosso) suor – e todos ficão felizes para semre: êÊeÊeÊeÊeÊêÊê.

Acho que mereço um Nobel da PaX.]

 

Se existe alguma coisa a respeito da qual o mundo inteiro está 100% de acordo é que o fumo faz mal à saúde; não apenas de quem fuma, mas também, embora não se saiba claramente com que grau de intensidade, de quem está por perto de um cigarro aceso. Não parece haver nenhuma necessidade, assim, de continuar querendo provar algo que todos consideram mais do que provado. Também não dá para ver como ainda seria possível, em pleno ano de 2008, encontrar algum pecado novo para acrescentar à lista de tudo aquilo que o fumo faz de mal, ou pode fazer, ou se imagina que faça. As medidas de repressão que se poderiam tomar contra o cigarro, enfim, já foram tomadas. É proibido fumar, hoje, em praticamente qualquer local fechado onde haja mais de uma pessoa. Os fumódromos, onde se imaginava que o cidadão poderia fumar sem incomodar ninguém, estão em via de extinção. Nos países que o Brasil considera como os mais iluminados da Terra, os preços foram aumentados até o limite máximo que os governos acham possível impor: o equivalente a mais de 12 reais o maço na França, mais de 15 reais na Inglaterra. Está banida no planeta inteiro, ou quase, toda e qualquer propaganda de cigarro. Não existe à venda uma única carteira que não traga com destaque as mais severas advertências contra os males do fumo – no Brasil, por sinal, elas vêm acompanhadas de imagens especialmente repulsivas, mostrando um homem sem perna, pulmões reduzidos a uma pasta de carvão e daí para pior.

 

Já não seria o suficiente? Não. O esforço no Brasil, agora, é para proibir o cigarro nos últimos espaços que ainda lhe estão abertos – as áreas reservadas a fumantes nos raros locais públicos, fora do ar livre, que escaparam até o momento das placas dizendo que “é proibido fumar”. Salvo vetar o cigarro por lei, coisa que os governos não querem fazer para não perder bilhões em impostos, o que ficaria faltando? Essa parece ser, assim, a última fronteira a ser ganha pelos inimigos do fumo. O governador de São Paulo, José Serra, e o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, para ficar só em gente graúda, disputam atualmente uma corrida para ver quem proíbe mais e proíbe antes. Se um, o outro ou mais alguém conseguirem aprovar leis que acabem de vez com as áreas destinadas a fumantes, nada haverá a discutir: lei é lei. Tudo bem – outras coisas, nesta vida, já foram permitidas um dia e hoje não são mais, e nem por isso o sol deixou de nascer todas as manhãs. O problema é que a proibição do fumo parece não bastar, para quem a defende. Cada vez mais, procura-se também a condenação dos fumantes. Um clima de neurastenia agressiva é estimulado em torno da questão. Com freqüência dispensa-se, para criticar o tabaco, a necessidade de respeitar um mínimo de lógica, ou a mera verdade dos fatos.

 

A partir desse ponto de vista, quem fuma vai passando a ser olhado como portador de alguma deficiência moral, ou mau cidadão, ou nocivo à vida em sociedade, ou as três coisas ao mesmo tempo. Empresas encontram meios para não contratar fumantes. Convidados deixam de ser bem-vindos, caso fumem, em residências particulares. Médicos de alta fama estão sempre dispostos a dizer as coisas mais extraordinárias sobre as ruínas que o tabaco seria capaz de causar no organismo humano; já se ouviu, até mesmo, que a fumaça aspirada pelos não-fumantes é pior que a fumaça tragada pelos fumantes, pois estes dispõem de filtros em seus cigarros. Desde que condene o fumo, tudo que se apresenta como “estudo” ou “pesquisa” é automaticamente aceito como verdade científica. Os números oficiais, então, são capazes de qualquer coisa. Sugerem, por exemplo, que falta dinheiro para a saúde porque o SUS gasta muito com doenças causadas pelo fumo; cerca de 340 milhões de reais por ano, segundo um trabalho recente da Fundação Oswaldo Cruz. (Seria interessante observar, a respeito, que só a Souza Cruz, a maior fabricante de cigarros do país, pagou acima de 3 bilhões de dólares em impostos sobre suas vendas em 2007.) O Ministério da Saúde manda escrever nos maços de cigarro que existem ali “mais de 4 700 substâncias tóxicas”. Mais de 4 700? Como um ser humano poderia continuar vivo engolindo tanto veneno assim? E por aí se vai.

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse há pouco que todo mundo deve ter o direito de fumar desde que não incomode os outros; garantiu, aliás, que só fuma em sua própria sala. Parece algo de muito bom senso, mas o homem só levou pancada. Hoje em dia, quando o tema é tabaco, ter bom senso já não serve mais para dar razão a ninguém.

 

Fonte

Read Full Post »

Domingo, 01 de Junho de 2008

 

Antígona em São Paulo: um diálogo entre duas tragédias .

 

À luz do teatro grego, caso Isabella evidencia lições sobre o mundo brasileiro; Juntamente com Freud, poderíamos pôr isso na conta de uma psicopatologia da vida cotidiana.

Leda Tenório da Motta.

 
Na cordialidade brasileira, todo mundo é tio. É de "tia" que as crianças chamam a mulher do pai quando esta não é a sua mãe. A menos que a chamem simplesmente pelo nome, "fulana" ou "cicrana". Por outro lado, é "a companheira", ou a "segunda mulher", ou a "nova mulher", ou ainda a "nova esposa" de fulano que dizemos para nomear a mulher com quem alguém se recasou ou se juntou.

Saído do domínio das bruxas, essas representantes da mãe má, desde a noite dos tempos, que é o tempo das histórias de fada, a palavra "madrasta" é no mínimo estranha como referência à segunda mulher do pai de Isabella Nardoni, Ana Carolina Jatobá. Primeiro, porque a madrasta é aquela que, na falta da mãe, está na função dela. Não é o caso da mulher de Alexandre Nardoni, que, por melhores que pudessem ser as relações entre a menina e a "tia", antes do surto ou do curto-circuito que talvez a tenha levado a esganá-la, só se encarregava de Isabella nos fins de semana estipulados para suas visitas ao pai. Segundo e mais importante, porque, justamente, não é assim que falamos. Como também não nos ocorre dizer a "enteada" ou o "enteado" para uma criança que vai passar o fim de semana na casa do pai recasado com outra pessoa.

Isso torna, aliás, surpreendente a maneira como, até mesmo na Rede Globo, que normalmente observa a regra da coloquialidade – os deles e os delas da Globo, como diria Caetano Veloso – prosperou "a madrasta", em lugar de "a mulher" de Alexandre Nardoni, trocando-se, assim, também no registro do padrão de qualidade, uma formulação em bom português por outra pomposa, falseada e punitiva.

É que, em sua desenvoltura, "a companheira" ou "a segunda mulher do pai" exporiam demais a falência do casamento e da família a que chegamos, daí esse tipo de expressão, embora cada vez mais corriqueiro, incomodar até mesmo a representação da vida como ela é no jornalismo botânico, diriam alguns. É que "madrasta" já é um veredicto, uma condenação prévia, daí sua utilidade, diriam outros.

Tudo isso é razão sociológica e é verdade. Mas, na terrível história deste infanticídio, há mais estranhezas envolvendo palavras, e mais palavras feitas para nos deixar aturdidos, que só aquelas que a sociologia saberia explicar. Algumas são, visivelmente, da alçada da psicanálise. Como a coincidência entre os nomes da primeira e da segunda mulher do pai, que se chamam ambas Ana Carolina, e têm sobrenomes na mesma gama semântica – Oliveira e Jatobá -, ou entre o nome do pai de Ana Carolina Jatobá e de seu marido, que se chamam ambos Alexandre. Juntamente com Freud, poderíamos pôr isso na conta de uma psicopatologia da vida cotidiana.

Mas se estas recorrências dos significantes e significados já intrigam, tanto quanto a maneira subitamente protocolar com que passamos da boa tia à bruxa cruel, nada chega perto da vertigem de uma outra confusão onomástica que, desde o indiciamento de Alexandre Nardoni e sua segunda mulher, passa a rondar o caso Isabella. De fato, se Alexandre Nardoni, como nos afiançam a promotoria, a polícia e a imprensa, e acredita a opinião pública, pensando que sua filha estivesse morta, e agindo em cumplicidade com a mulher, que a teria começado a matar, a atirou do sexto andar de seu apartamento, para encobrir o assassinato, tomando o cuidado de precipitar o corpo sobre a grama, para não desfigurá-lo, e se foi em conseqüência da queda que a menina morreu, então, estaríamos diante de um assassino doloso e culposo ao mesmo tempo, voluntário e involuntário de uma só vez.

Doloso porque, nesse caso, Alexandre Nardoni teria cooperado com a mulher que intentou matar sua filha, assumido o seu intento, consentido com ele, a ponto de desfazer-se do corpo e buscar inculpar um terceiro, ou terceiros, e agindo com astúcia ou fraude, que são as duas palavras que todos os dicionários empregam para definir o "dolo". Culposo porque, acreditando que a filha já estivesse morta, como parece provar o fato de que não chamou para ela nenhum socorro, a atirou pela janela, e, sem querer, com as próprias mãos, a matou.

Se acaso supuséssemos um coro grego antiqüíssimo circulando em volta desta tragédia paulistana das imediações do Tucuruvi, onde fica o Edifício London, é isto que, no desempenho de um de seus principais papéis – deplorar o horror – esse coro trágico teria que fazer valer: sem querer, com as próprias mãos, a matou! E isso significaria entoar que o pai foi um joguete dos deuses!

Ainda que, em alguns autores, como Sófocles, os heróis trágicos se debatam contra a sina que os faz rumar inapelavelmente para um fim abjeto, e busquem escapar dela, o homem como joguete dos deuses é a própria condição da personagem de tragédia, a própria essência do trágico. Assim, neste infanticídio de pai para filha, que parece ensombrecer todas as palavras, mais que na sociologia e na psicanálise, estamos na literatura. Tudo se passa como se a vida imitasse a arte.

Na Antígona, que encerra o ciclo das tristíssimas histórias de Sófocles em torno da família de Édipo, a personagem que dá nome à peça é um desses heróis que quer escapar da sorte, tomar seu destino em mãos. Nos nossos exercícios escolares, só vamos até Édipo Rei. Mas Sófocles escreveu seis dramas, quatro deles perdidos, sobre essa gente do clã maldito dos Labdácias que está envolvida com o casamento de um filho-joguete-dos-deuses com a própria mãe, núpcias que rendem uma linhagem impura de príncipes e princesas, que vão, aos poucos, sendo expurgados de Tebas, para que a polis se limpe dessa abominação.

Bem menos conhecida, a segunda fase desse processo expiatório é Édipo em Colono, cujo título alude ao lugarejo ao lado de Atenas em que Édipo se exila e morre de dor. O último é Antígona, que trata da guerra fratricida entre os descendentes homens da casa de Édipo, rivais na disputa do trono, da morte dos dois príncipes, um pela mão do outro, e da luta da irmã para enterrar um dos irmãos, condenado a apodrecer sobre a face da terra, sem sepultura, segundo uma nova lei do reino, por ter atentado contra Tebas, quando o outro irmão governava.

Na última peça de Sófocles, Antígona ergue-se sozinha contra toda uma cidade para enterrar Polinice, morto em meio às escaramuças que cercam sua tentativa de tomar o poder, perdido para o irmão Etéocles. Quando os dois irmãos entredevoram-se e perecem, é Creonte, tio deles, que assume o governo e faz promulgar contra Polinice a lei do não-sepultamento. Desrespeitando a ordem, Antígona, que está prometida ao filho de Creonte, realiza o funeral do irmão. Ela é condenada à morte e se suicida, gesto imitado pelo noivo. É a dizimação dos Labdácias e o começo da desgraça de Creonte, prevista pelo cego adivinho Tirésias, que vem lhe dizer que errou ao manter o seu édito cruel.

Uma das dimensões fascinantes da peça é que ela se presta a discussões jurídicas, políticas e religiosas com as quais, até hoje, estamos envolvidos. Com 2.500 anos de antecedência, estão aí cifrados os embates entre o Estado e o sujeito próprios da vida republicana, embates que repercutem, então, as contradições inerentes à passagem de uma Grécia mítica a uma Grécia democrática e filosófica. Assim como é plena de dimensão psicológica. Pois estão dados aí também temas como a maldição da parentela, a presença da morte no cerne das relações entre pais e filhos, toda essa infelicidade de que a psicanálise, fazendo uma ponte entre Sófocles e Shakespeare, Édipo e Hamlet, tiraria um mundo.

São essas nuanças da psicologia fina ou da vida psíquica profunda que têm permitido a alguns tomar Creonte não como um déspota mas como aquele que, por sua vez, quer salvar uma cidade, expulsar a peste de seus domínios, impedindo que a filha de Édipo se case com seu filho, de modo a perpetuar a maldição. Nessa linha interpretativa, ele é também aquele que desmancha a absoluta confusão nomenclatural – o filho que é o esposo de sua mãe, o pai que é o irmão de seus filhos, e assim por diante, que o casamento edipiano desencadeou. E isso tem o interesse suplementar de nos permitir reinterpretar não apenas Antígona mas todo o ciclo de Édipo como uma tragédia da confusão dos nomes e dos papéis regulados pelos nomes, com tudo que esse desgoverno tem de atentatório à civilização.

Mais fascinante ainda é que isso pode ter a ver com a cordialidade. Tanto assim que, em Raízes do Brasil, Sergio Buarque de Holanda, pensador dos atropelos da nossa civilidade, nossa particular maneira de viver as relações entre o Estado e a família, fazendo de um a continuação do outro, vai tirar de Sófocles lições sobre o mundo brasileiro, em que todo mundo é tio.

Se for verdade que o pai de Isabella matou e não matou voluntariamente a filha, haveria um paradoxo, uma tragédia dessa ordem da desorganização estrutural no caso Isabella Nardoni. Não só porque, nesta triste rede de nomes e parentes confundidos, vemos a lógica enlouquecer, junto com a gramática. Mas porque, ao relegar à grama do jardim do Edifício London o corpo da filha, que acreditava morta, mas que ele mesmo iria matar, Alexandre Nardoni, que não chama o resgate, nem cuida, como pai, dos funerais, de algum modo abandona o cadáver e aflora a ignomínia do não-sepultamento, atentando contra outra regra civilizatória.

Seria o clamor das pessoas às portas das casas, delegacias e presídios que ouvimos hoje uma espécie de recondução das vozes de um coro grego trágico cantando o fatídico de nossa existência, que algumas famílias malfadadas têm na cidade a missão de relembrar?

Leda Tenório da Motta é professora no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, crítica literária e tradutora. Publicou, entre outros, Proust – A Violência Sutil do Riso (Perspectiva, 2007)

 

Fonte

Read Full Post »

Older Posts »