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Posts Tagged ‘Filosofia’

Je ne vois que des infinités de toutes parts, qui m’enferment comme un atome et comme une ombre qui ne dure qu’un instant sans retour. Tout ce que je connais est que je dois bientôt mourir, mais ce que j’ignore le plus est cette mort même que je ne saurais éviter. Pascal, Pensées

Em português, talvez, seria algo como:

Vejo apenas infinidades por todas as partes, que me cercam como a um átomo e como a uma sombra que dura apenas um instante sem retorno. Tudo o que sei é que devo morrer em breve, porém, o que eu mais ignoro é exatamente essa morte que eu não posso evitar.

Que ódio dessa gente que pensa de forma semelhante, e consegue traduzir em palavras de modo infinitamente melhor! Que ódio do Machadão, que ódio no Niet, que ódio do Schops – QUE ÓOoOoOoOoDIO! UHAUHAHA

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Neste Link há uma proposta de tradução do Prefácio de 1934 do livro A lógica da Pesquisa Científica de Popper.

Para o bom entendimento texto é importante esclarecer com quem Popper estava dialogando. Isto é, quando ele fala em filósofos, ele está se referindo ao que hoje chamamos de Círculo de Viena – um grupo composto por filósofos e cientistas que desenvolveram o que ficou conhecido como “Filosofia da Linguagem“.

E a intenção de Popper é criticar esses filósofos e sobretudo os problemas levantados por eles à época. Cabe dizer ainda, que a filosofia da linguagem de hoje em dia, não é a mesma daquela época. (e eu não falei nada sobre ela, porque de fato eu não sei o que dizer ainda, porque mal li a respeito dela… hehehe).

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“Se há uma verdadeira liberdade, só pode existir no percurso da vida, pela superação da situação de partida e sem que deixemos, contudo, de ser o mesmo – eis o problema. Duas coisas são certas a respeito da liberdade: que nunca somos determinados e que não mudamos nunca, que, retrospectivamente, poderemos sempre encontrar em nosso passado o prenúncio do que nos tornamos. Cabe-nos entender as duas coisas ao mesmo tempo e como a liberdade irrompe em nós sem romper nossos elos com o mundo” – Merlau-Ponty – A dúvida de Cezánne

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Antes de mais nada, algumas dicas (porque eu sou bonzinho):

a) Mew… Faça uma lista com as prioridades:
os livros dos sonhos e/ou os mais caros. Tendo em vista a lista: agrupe os títulos por editora. Porque a Festa é organizada por editoras, daí basta dar a lista na mão do vendedor: “quero todos esses”.
Daí evita de ficar de um lado para o outro como barata tonta 😉

b) Dê preferência a dinheiro vivo, porque – geralmente – a rede das maquinas de cartão de crédito ficam ‘fora do ar’ por horas – devido a quantidade de gente comprando. Geralmente aceitam cheque!

c) Ah sim: preste muita atenção no estado do livro, porque mew… Acredite: não é à que toa os  livros estão ali – pela metade do preço.

Ou você pensa as pessoas são boazinhas, principalmente aquelas que dizem “eu te amo, de corpo e alma, e meu amor é puro”!? Pois pensou errado! Porque, depois de três anos e meio – tentando fazê-la feliz, inutilmente, porque ela não poderia ser feliz escondendo algo no coração; depois dela ter vivido todo este tempo movida pelo ciúme, que corroía o relacionamento; depois de tê-lo deixado semear e cultivar o amor num campo minado, onde havia uma bomba-relógio-atômica escondida: te acusando, julgando e condenado por crimes que você não cometeu: “você tem outra, há outra no seu coração, você não me ama” nhe, nhe, nhem, depois ela diz: “pois não é que tinha alguém no meu coração, há mais de sete anos ? – e agora estamos juntos, e a culpa é toda sua  – porque você que me afastou de ti [e nem metade da ‘culpa’ é dela, devido ao ciúme e a projeção do que ocorria com ela, né!? isso não… claro que nao, magina!]. E agora estou feliz, me sentindo leve e serena: passar bem”.

d) Por fim,  tente ir logo no primeiro dia, e o mais cedo que puder. Porque no dia 26 só terá o resto do resto!

A 12ª edição da Festa do livro da USP  será realizada nos dias 24, 25 e 26, das 9 às 21 horas, no saguão do prédio da Geografia e História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Todos os livros vendidos durante o evento terão, obrigatoriamente, desconto mínimo de 50% em relação ao preço de capa praticado pelos editores.

Organizada pela Editora da USP (Edusp), a Festa do Livro da USP é um evento gratuito e aberto ao público geral. O endereço do prédio da Geografia e História é Av. Prof. Lineu Prestes, 338, Cidade Universitária, São Paulo.

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Bertrand Russel – A filosofia entre a religião e a ciência

Os conceitos da vida e do mundo que chamamos "filosóficos" são
produto de dois fatores: um, constituído de fatores religiosos e éticos
herdados; o outro, pela espécie de investigação que podemos denominar
"científica", empregando a palavra em seu sentido mais amplo. Os filósofos,
individualmente, têm diferido amplamente quanto às proporções em que esses
dois fatores entraram em seu sistema, mas é a presença de ambos que, em
certo grau, caracteriza a filosofia.
"Filosofia" é uma palavra que tem sido empregada de várias maneiras,
umas mais amplas, outras mais restritas. Pretendo empregá-la em seu sentido
mais amplo, como procurarei explicar adiante. A filosofia, conforme entendo
a palavra, é algo intermediário entre a teologia e a ciência. Como a teologia,
consiste de especulações sobre assuntos a que o conhecimento exato não
conseguiu até agora chegar, mas, como ciência, apela mais à razão humana do
que à autoridade, seja esta a da tradição ou a da revelação. Todo conhecimento
definido – eu o afirmaria – pertence à ciência; e todo dogma quanto ao que
ultrapassa o conhecimento definido, pertence à teologia. Mas entre a teologia
e a ciência existe uma Terra de Ninguém, exposta aos ataques de ambos os
campos: essa Terra de Ninguém é a filosofia. Quase todas as questões do
máximo interesse para os espíritos especulativos são de tal índole que a
ciência não as pode responder, e as respostas confiantes dos teólogos já não
nos parecem tão convincentes como o eram nos séculos passados. Acha-se o
mundo dividido em espírito e matéria? E, supondo-se que assim seja, que é
espírito e que é matéria? Acha-se o espírito sujeito à matéria, ou é ele dotado
de forças independentes? Possui o universo alguma unidade ou propósito?
Está ele evoluindo rumo a alguma finalidade? Existem realmente leis da
natureza, ou acreditamos nelas devido unicamente ao nosso amor inato pela
ordem? é o homem o que ele parece ser ao astrônomo, isto é, um minúsculo
conjunto de carbono e água a rastejar, impotentemente, sobre um pequeno
planeta sem importância? Ou é ele o que parece ser a Hamlet? Acaso é ele, ao
mesmo tempo, ambas as coisas? Existe uma maneira de viver que seja nobre e
uma outra que seja baixa, ou todas as maneiras de viver são simplesmente
inúteis? Se há um modo de vida nobre, em que consiste ele, e de que maneira
realizá-lo? Deve o bem ser eterno, para merecer o valor que lhe atribuímos, ou
vale a pena procurá-lo, mesmo que o universo se mova, inexoravelmente, para
a morte? Existe a sabedoria, ou aquilo que nos parece tal não passa do último
refinamento da loucura Tais questões não encontram resposta no laboratório.
As teologias têm pretendido dar respostas, todas elas demasiado concludentes,
mas a sua própria segurança faz com que o espírito moderno as encare com
suspeita. 0 estudo de tais questões, mesmo que não se resolva esses
problemas, constitui o empenho da filosofia.
Mas por que, então, – poderíeis perguntar – perder tempo com problemas
tão insolúveis? A isto, poder-se-ia responder como historiador ou como
indivíduo que enfrenta o terror da solidão cósmica. A resposta do historiador,
tanto quanto me é possível dá-la, aparecerá no decurso desta obra. Desde que
o homem se tornou capaz de livre especulação, suas ações, em muitos
aspectos importantes, têm dependido de teorias relativas ao mundo e á vi a
humana, relativas ao bem e ao mal. Isto é tão verdadeiro em nossos dias como
em qualquer época anterior. Para compreender uma época ou uma nação,
devemos compreender sua filosofia e, para que compreendamos sua filosofia,
temos de ser, até certo ponto, filósofos. Há uma relação causal recíproca. As
circunstâncias das vidas humanas contribuem muito para determinar a sua
filosofia, mas, inversamente, sua filosofia muito contribui para determinar tais
circunstâncias. Essa ação mútua, através dos séculos, será o tema das páginas
seguintes.
Há, todavia, uma resposta mais pessoal. A ciência diz-nos o que podemos
saber, mas o que podemos saber é muito pouco e, se esquecemos quanto nos é
impossível saber, tornamo-nos insensíveis a muitas coisas sumamente
importantes. A teologia, por outro lado, nos induz â crença dogmática de que
temos conhecimento de coisas que, na realidade, ignoramos e, por isso, gera
uma espécie de insolência impertinente com respeito ao universo. A incerteza,
na presença de grandes esperanças e receios, é dolorosa, mas temos de
suportá-la, se quisermos viver sem o apoio de confortadores contos de fadas,
Não devemos também esquecer as questões suscitadas pela filosofia, ou
persuadir-nos de que encontramos, para as mesmas, respostas indubitáveis.
Ensinar a viver sem essa segurança e sem que se fique, não obstante,
paralisado pela hesitação, é talvez a coisa principal que a filosofia, em nossa
época, pode proporcionar àqueles que a estudam.
A filosofia, ao contrário do que ocorreu com a teologia , surgiu, na
Grécia, no século VI antes de Cristo. Depois de seguir o seu curso na
antigüidade, foi de novo submersa pela teologia quando surgiu o Cristianismo
e Roma se desmoronou. Seu segundo período importante, do século YI ao
século XIV, foi dominado pela Igreja Católica, com exceção de alguns poucos
e grandes rebeldes, como, por exemplo, o imperador Frederico II (1195-1250).
Este período terminou com as perturbações que culminaram na Reforma. O
terceiro período, desde o século XVII até hoje, é dominado, mais do que os
períodos que o precederam, pela ciência. As crenças religiosas tradicionais
mantêm sua importância, mas se sente a necessidade de que sejam
justificadas, sendo modificadas sempre que a ciência torna imperativo tal
passo. Poucos filósofos deste período são ortodoxos do ponto de vista
católico, e o Estado secular adquire mais importância em suas especulações do
que a Igreja.
A coesão social e a liberdade individual, como a religião e a ciência,
acham-se num estado de conflito ou difícil compromisso durante todo este
período. Na Grécia, a coesão social era assegurada pela lealdade ao Estado-
Cidade; o próprio Aristóteles, embora, em sua época, Alexandre estivesse
tornando obsoleto o Estado-Cidade, não conseguia ver mérito algum em
qualquer outro tipo de comunidade. Variava grandemente o grau em que a
liberdade individual cedia ante seus deveres para com a Cidade. Em Esparta, o
indivíduo tinha tão pouca liberdade como na Alemanha ou na Rússia
modernas; em Atenas, apesar de perseguições ocasionais, os cidadãos
desfrutaram, em seu melhor período, de extraordinária liberdade quanto a
restrições impostas pelo Estado. 0 pensamento grego, até Aristóteles, é
dominado por uma devoção religiosa e patriótica á Cidade; seus sistemas
éticos são adaptados às vidas dos cidadãos e contêm grande elemento político.
Quando os gregos se submeteram, primeiro aos macedônios e, depois, aos
romanos, as concepções válidas em seus dias de independência não eram mais
aplicáveis. Isto produziu, por um lado, uma perda de vigor, devido ao
rompimento com as tradições e, por outro lado, uma ética mais individual e
menos social. Os estóicos consideravam a vida virtuosa mais como uma
relação da alma com Deus do que como uma relação do cidadão com o
Estado. Prepararam, dessa forma, o caminho para o Cristianismo, que, como o
estoicismo, era, originalmente, apolítico, já que, durante os seus três primeiros
séculos, seus adeptos não tinham influência no governo. A coesão social,
durante os seis séculos e meio que vão de Alexandre a Constantino, f oi
assegurada, não pela filosofia nem pelas antigas fidelidades, mas pela força –
primeiro a força dos exércitos e, depois, a da administração civil. Os exércitos
romanos, as estradas romanas, a lei romana e os funcionários romanos,
primeiro criaram e depois preservaram um poderoso Estado centralizado.
Nada se pode atribuir à filosofia romana, já que esta não existia.
Durante esse longo período, as idéias gregas herdadas da época da
liberdade sofreram um processo gradual de transformação. Algumas das
velhas idéias, principalmente aquelas que deveríamos encarar como
especificamente religiosas, adquiriram uma importância relativa; outras, mais
racionalistas, foram abandonadas, pois não mais se ajustavam ao espírito da
época. Desse modo, os pagãos posteriores foram se adaptando á tradição
grega, até esta poder incorporar-se na doutrina cristã.
O Cristianismo popularizou uma idéia importante, já implícita nos
ensinamentos dos estóicos, mas estranha ao espírito geral da antigüidade, isto
é, a idéia de que o dever do homem para com Deus é mais imperativo do que o
seu dever para com o Estado.l A opinião de que "devemos obedecer mais a
Deus que ao homem", como Sócrates e os Apóstolos afirmavam, sobreviveu à
conversão de Constantino, porque os primeiros cristãos eram arianos ou se
sentiam inclinados para o arianismo. Quando os imperadores se tornaram
ortodoxos, foi ela suspensa temporariamente. Durante o Império Bizantino,
permaneceu latente, bem como no Império Russo subseqüente, o qual derivou
do Cristianismo de Constantinopla. Mas no Ocidente, onde os imperadores
católicos foram quase imediatamente substituídos ( exceto em certas partes da
Gália ) por conquistadores bárbaros heréticos, a superioridade da lealdade
religiosa sobre a lealdade política sobreviveu e, até certo ponto, persiste ainda
hoje.
A invasão dos bárbaros pôs fim, por espaço de seis séculos, à civilização
da Europa Ocidental. Subsistiu, na Irlanda, até que os dinamarqueses a
destruíram no século IX. Antes de sua extinção produziu, lá, uma figura
notável, Scotus Erigena. No Império Oriental, a civilização grega sobreviveu,
em forma dissecada, como num museu, até à queda de Constantinopla, em
1453, mas nada que fosse de importância para o mundo saiu de
Constantinopla, exceto uma tradição artística e os Códigos de Direito Romano
de Justiniano.
Durante o período de obscuridade, desde o fim do século V até a metade
do século XI, o mundo romano ocidental sofreu algumas transformações
interessantes. O conflito entre o dever para com Deus e o dever para com o
Estado, introduzido pelo Cristianismo, adquiriu o caráter de um conflito entre
a Igreja e o rei. A jurisdição eclesiástica do Papa estendia-se sobre a Itália,
França, Espanha, Grã-Bretanha e Irlanda, Alemanha, Escandinávia e Polônia.
A princípio, fora da Itália e do sul da França foi muito leve o seu controle
sobre bispos e abades, mas, desde o tempo de Gregório VII ( fins do século XI
), tornou-se real e efetivo. Desde então o clero, em toda a Europa Ocidental,
formou uma única organização, dirigida por Roma, que procurava o poder
inteligente e incansavelmente e, em geral, vitoriosamente, até depois do ano
1300, em seus conflitos com os governantes seculares. O conflito entre a
Igreja e o Estado não foi apenas um conflito entre o clero e os leigos; foi,
também, uma renovação da luta entre o mundo mediterrâneo e os bárbaros do
norte. A unidade da Igreja era um reflexo da unidade do Império Romano; sua
liturgia era latina, e os seus homens mais proeminentes eram, em sua maior
parte, italianos, espanhóis ou franceses do sul. Sua educação, quando esta
renasceu, foi clássica; suas concepções da lei e do governo teriam sido mais
compreensíveis para Marco Aurélio do que para os monarcas contemporâneos.
A Igreja representava, ao mesmo tempo, continuidade com o passado e com o
que havia de mais civilizado no presente.
O poder secular, ao contrário, estava nas mãos de reis e barões de origem
teutônica, os quais procuravam preservar, o máximo possível, as instituições
que haviam trazido as florestas da Alemanha. O poder absoluto era alheio a
essas instituições, como também era estranho, a esses vigorosos
conquistadores, tudo aquilo que tivesse aparência de uma legalidade monótona
e sem espírito. O rei tinha de compartilhar seu poder com a aristocracia feudal,
mas todos esperavam, do mesmo modo, que lhes fosse permitido, de vez em
quando, uma explosão ocasional de suas paixões em forma de guerra,
assassínio, pilhagem ou rapto. é possível que os monarcas se arrependessem,
pois eram sinceramente piedosos e, afinal de contas, o arrependimento era em
si mesmo uma forma de paixão. A Igreja, porém, jamais conseguiu produzir
neles a tranqüila regularidade de uma boa conduta, como a que o empregador
moderno exige e, às vezes, consegue obter de seus empregados. De que lhes
valia conquistar o mundo, se não podiam beber, assassinar e amar como o
espírito lhes exigia? E por que deveriam eles, com seus exércitos de altivos,
submeter-se ás ordens de homens letrados, dedicados ao celibato e destituídos
de forças armadas? Apesar da desaprovação eclesiástica, conservaram o duelo
e a decisão das disputas por meio das armas, e os torneios e o amor cortesão
floresceram. às vezes, num acesso de raiva, chegavam a matar mesmo
eclesiásticos eminentes.
Toda a força armada estava do lado dos reis, mas, não obstante, a Igreja
saiu vitoriosa. A Igreja ganhou a batalha, em parte, porque tinha quase todo o
monopólio do ensino e, em parte, porque os reis viviam constantemente em
guerra. uns com os outros; mas ganhou-a, principalmente, porque, com muito
poucas exceções, tanto os governantes como ó povo acreditavam sinceramente
que a Igreja possuía as chaves do céu. A Igreja podia decidir se um rei devia
passar a eternidade no céu ou no inferno; a Igreja podia absolver os súditos do
dever de fidelidade e, assim, estimular a rebelião. Além disso, a Igreja
representava a ordem em lugar da anarquia e, por conseguinte, conquistou o
apoio da classe mercantil que surgia. Na Itália, principalmente, esta última
consideração foi decisiva.
A tentativa teutônica .de preservar pelo menos uma independência. parcial
da Igreja manifestou-se não apenas na política, mas, também, na arte, no
romance, no cavalheirismo e na guerra. Manifestou-se muito pouco no mundo
intelectual, pois o ensino se achava quase inteiramente nas mãos do clero. A
filosofia explícita da Idade Média não é um espelho exato da época, mas
apenas do pensamento de um grupo. Entre os eclesiásticos, porém –
principalmente entre os frades franciscanos – havia alguns que, por várias
razões, estavam em desacordo com o Papa. Na Itália, ademais, a cultura
estendeu-se aos leigos alguns séculos antes de se estender até ao norte dos
Alpes. Frederico II, que procurou fundar uma nova religião, representa o
extremo da cultura antipapista; Tomás de Aquino, que nasceu no reino de
Nápoles, onde o poder de Frederico era supremo, continua sendo até hoje o
expoente clássico da filosofia papal. Dante, cerca de cinqüenta anos mais
tarde, conseguiu chegar a uma síntese, oferecendo a única exposição
equilibrada de todo o mundo ideológico medieval
Depois de Dante, tanto por motivos políticos como intelectuais, a síntese
filosófica medieval se desmoronou. Teve ela, enquanto durou, uma qualidade
de ordem e perfeição de miniatura: qualquer coisa de que esse sistema se
ocupasse, era colocada com precisão em relação com o que constituía o seu
cosmo bastante limitado. Mas o Grande Cisma, o movimento dos Concílios e
o papado da renascença produziram a Reforma, que destruiu a unidade do
Cristianismo e a teoria escolástica de governo que girava em torno do Papa. N
o período da Renascença, o novo conhecimento, tanto da antigüidade como da
superfície da terra, fez com que os homens se cansassem de sistemas, que
passaram a ser considerados como prisões mentais. A astronomia de
Copérnico atribuiu á terra e ao homem uma posição mais humilde do que
aquela que haviam desfrutado na teoria de Ptolomeu. O prazer pelos f atos
recentes tomou o lugar, entre os homens inteligentes, do prazer de raciocinar,
analisar e construir sistemas. Embora a Renascença, na arte, conserve ainda
uma determinada ordem, prefere, quanto ao que diz respeito ao pensamento,
uma ampla e fecunda desordem. Neste sentido, Montaigne é o mais típico
expoente da época.
Tanto na teoria política como em tudo o mais, exceto a arte, a ordem sofre
um colapso. A Idade Média, embora praticamente turbulenta, era dominada,
em sua ideologia, pelo amor da legalidade e por uma teoria muito precisa do
poder político. Todo poder procede, em última análise, de Deus; Ele delegou
poder ao Papa nos assuntos sagrados, e ao Imperador nos assuntos seculares.
Mas tanto o Papa como o Imperador perderam sua importância durante o
século XV. O Papa tornou-se simplesmente um dos príncipes italianos,
empenhado no jogo incrivelmente complicado e inescrupuloso do poder
político italiano. As novas monarquias nacionais na França, Espanha e
Inglaterra tinham, em seus próprios territórios, um poder no qual nem o Papa
nem o Imperador podiam interferir. O Estado nacional, devido, em grande
parte, à pólvora, adquiriu uma influência sobre o pensamento e o modo de
sentir dos homens, como jamais exercera antes – influência essa que,
progressivamente, destruiu o que restava da crença romana quanto à unidade
da civilização.
Essa desordem política encontrou sua expressão no Príncipe, de
Maquiavel. Na ausência de qualquer princípio diretivo, a política se
transformou em áspera luta pelo poder. O Príncipe dá conselhos astutos
quanto à maneira de se participar com êxito desse jogo. O que já havia
acontecido na idade de ouro da Grécia, ocorreu de novo na Itália renascentista:
os freios morais tradicionais desapareceram, pois eram considerados como
coisa ligada à superstição; a libertação dos grilhões tornou os indivíduos
enérgicos e criadores, produzindo um raro florescimento do gênio mas a
anarquia e a traição resultantes, inevitavelmente, da decadência da moral,
tornou os italianos coletivamente impotentes, e caíram, como os gregos, sob o
domínio de nações menos civilizadas do que eles, mas não tão destituídas – de
coesão social.
Todavia, o resultado foi menos desastroso do que no caso da Grécia, pois
as nações que tinham acabado de chegar ao poder, com exceção da Espanha,
se mostravam capazes de tão grandes realizações como o havia sido a Itália.
Do século XVI em diante, a história do pensamento europeu é dominada pela
Reforma. Reforma foi um movimento complexo, multiforme, e seu êxito se
deve a numerosas causas. De um modo geral, foi uma revolta das nações do
norte contra o renovado domínio de Roma. A religião fora a força que
subjugara o Norte, mas a religião, na Itália, decaíra: o papado permanecia
como uma instituição, extraindo grandes tributos da Alemanha e da Inglaterra,
mas estas nações, que eram ainda piedosas, não podiam sentir reverência
alguma para com os Bórgias e os Médicis, que pretendiam salvar as almas do
purgatório em troca de dinheiro, que esbanjavam no luxo e na imoralidade.
Motivos nacionais motivos econômicos e motivos, religiosos conjugaram-se
para fortalecer a revolta contra Roma. Além disso, os príncipes logo
perceberam que, se a Igreja se tornasse, em seus territórios, simplesmente
nacional, eles seriam capazes de dominá-la, tornando-se, assim, muito mais
poderosos, em seus países, do que jamais o haviam sido compartilhando o seu
domínio com o Papa. Por todas essas razões, as inovações teológicas de
Lutero foram bem recebidas, tanto pelos governantes como pelo povo, na
maior parte da Europa Setentrional.
A Igreja Católica procedia de três fontes. Sua história sagrada era judaica;
sua teologia, grega, e seu governo e leis canônicas, ao menos indiretamente,
romanos. A Reforma rejeitou os elementos romanos, atenuou os elementos
gregos e fortaleceu grandemente os elementos judaicos. Cooperou, assim, com
as forças nacionalistas que estavam desfazendo a obra de coesão nacional que
tinha sido levada a cabo primeiro pelo Império Romano e, depois, pela Igreja
Romana. Na doutrina católica, a revelação divina não terminava na sagrada
escritura, mas continuava, de era em era, através da Igreja, à qual, pois, era
dever do indivíduo submeter suas opiniões pessoais. Os protestantes, ao
contrário, rejeitaram a Igreja como veículo da revelação divina; a verdade
devia ser procurada unicamente na Bíblia, que cada qual podia interpretar à
sua maneira. Se os homens diferissem em sua interpretação, não havia
nenhuma autoridade designada pela divindade que resolvesse tais
divergências. Na prática, o Estado reivindicava o direito que pertencera antes
à Igreja – mas isso era uma usurpação. Na teoria protestante, não devia haver
nenhum intermediário terreno entre a alma e Deus.
Os efeitos dessa mudança foram importantes. A verdade não mais era
estabelecida mediante consulta à autoridade, mas por meio da meditação
íntima. Desenvolveu-se, rapidamente, uma tendência para o anarquismo na
política e misticismo na religião, o que sempre fora difícil de se ajustar à
estrutura da ortodoxia católica. Aconteceu que, em lugar de um único
Protestantismo, surgiram numerosas seitas; nenhuma filosofia se opunha à
escolástica, mas havia tantas filosofias quantos eram os filósofos. Não havia,
no século XIII, nenhum Imperador que se opusesse ao Papa, mas sim um
grande número de reis heréticos. O resultado disso, tanto no pensamento como
na literatura, foi um subjetivismo cada vez mais profundo, agindo primeiro
como uma libertação saudável da escravidão espiritual mas caminhando,
depois, constantemente, para um isolamento pessoal, contrário à solidez
social.
A filosofia moderna começa com Descartes, cuja certeza fundamental é a
existência de si mesmo e de seus pensamentos, dos quais o mundo exterior
deve ser inferido. Isso constitui apenas a primeira fase de um desenvolvimento
que, passando por Berkeley e Kant, chega a Fichte, para quem tudo era apenas
uma emanação do eu. Isso era uma loucura, e, partindo desse extremo, a
filosofia tem procurado, desde então, evadir-se para o mundo do senso comum
cotidiano.
Com o subjetivismo na filosofia, o anarquismo anda de mãos dadas com a
política. Já no tempo de Lutero, discípulos inoportunos e não reconhecidos
haviam desenvolvido a doutrina do anabatismo, a qual, durante algum tempo,
dominou a cidade de Wünster. Os anabatistas repudiavam toda lei, pois
afirmavam que o homem bom seria guiado, em todos os momentos, pelo
Espírito Santo, que não pode ser preso a fórmulas. Partindo dessas premissas,
chegam ao comunismo e à promiscuidade sexual. Foram, pois, exterminados,
após uma resistência heróica. Mas sua doutrina, em formas mais atenuadas, se
estendem pela Holanda, Inglaterra e Estados Unidos; historicamente, é a
origem do "quakerismo". Uma forma mais feroz de anarquismo, não mais
relacionada Com a religião, surgiu no século XIX. Na Rússia, Espanha e, em
menor grau, na Itália, obteve considerável êxito, constituindo, até hoje, um
pesadelo para as autoridades americanas de imigração. Esta versão moderna,
embora anti-religiosa, encerra ainda muito do espírito do protestantismo
primitivo; difere principalmente dele devido ao fato de dirigir contra os
governos seculares a hostilidade que Lutero dirigia contra os Papas.
A subjetividade, uma vez desencadeada, já não podia circunscrevem-se
aos seus limites, até que tivesse seguido seu curso. Na moral, a atitude enfática
dos protestantes, quanto à consciência individual, era essencialmente
anárquica. O hábito e o costume eram tão fortes que, exceto em algumas
manifestações ocasionais, como, por exemplo, a de Münster, os discípulos do
individualismo na ética continuaram a agir de maneira convencionalmente
virtuosa. Mas era um equilíbrio precário. O culto do século XVIII à
"sensibilidade" começou a romper esse equilíbrio: um ato era admirado não
pelas suas boas conseqüências, ou porque estivesse de acordo com um código
moral, mas devido à emoção que o inspirava. Dessa atitude nasceu o culto do
herói, tal como foi manifestado por Carlyle e Nietzsche, bem como o culto
byroniano da paixão violenta, qualquer que esta seja.
O movimento romântico, na arte, na literatura e na política, está ligado a essa
maneira subjetiva de julgar-se os homens, não como membros de uma
comunidade, mas como objetos de contemplação esteticamente encantadores.
Os tigres são mais belos do que as ovelhas, mas preferimos que estejam atrás
de grades. O romântico típico remove as grades e delicia-se com os saltos
magníficos com que o tigre aniquila as ovelhas. Incita os homens a imaginar
que são tigres e, quando o consegue, os resultados não são inteiramente
agradáveis.
Contra as formas mais loucas do subjetivismo nos tempos modernos tem
havido várias reações. Primeiro, uma filosofia de semicompromisso, a
doutrina do liberalismo, que procurou delimitar as esferas relativas ao governo
e ao indivíduo. Isso começa, em sua forma moderna, com Locke, que é tão
contrário ao "entusiasmo" – o individualismo dos anabatistas como à
autoridade absoluta e à cega subserviência à tradição. Uma rebelião mais
extensa conduz à doutrina do culto do Estado, que atribui ao Estado a posição
que o Catolicismo atribuía à Igreja, ou mesmo, às vezes, a Deus. Hobbes,
Rousseau e Hegel representam fases distintas desta teoria, e suas doutrinas se
acham encarnadas, praticamente, em Cromwell, Napoleão e na Alemanha
moderna. O comunismo, na teoria, está muito longe dessas filosofias, mas é
conduzido, na prática, a um tipo de comunidade bastante semelhante àquela e
que resulta a adoração do Estado.
Durante todo o transcurso deste longo desenvolvimento, desde 600 anos
antes de Cristo até aos nossos dias, os filósofos têm-se dividido entre aqueles
que querem estreitar os laços sociais e aqueles que desejam afrouxá-los. A
esta diferença, acham-se associadas outras. Os partidários da disciplina
advogaram este ou aquele sistema dogmático, velho ou novo, chegando,
portanto a ser, em menor ou maior grau, hostis à ciência, já que seus dogmas
não podiam ser provados empiricamente. Ensinavam, quase invariavelmente,
que a felicidade não constitui o bem, mas que a "nobreza" ou o "heroísmo"
devem ser a ela preferidos. Demonstravam simpatia pelo que havia de
irracional na natureza humana, pois acreditavam que a razão é inimiga da
coesão social. Os partidários da liberdade, por outro lado, com exceção dos
anarquistas extremados, procuravam ser científicos, utilitaristas, racionalistas,
contrários à paixão violenta, e inimigos de todas as formas mais profundas de
religião. este conflito existiu, na Grécia, antes do aparecimento do que
chamamos filosofia, revelando-se já, bastante claramente, no mais antigo
pensamento grego. Sob formas diversas, persistiu até aos nossos dias, e
continuará, sem dúvida, a existir durante muitas das eras vindouras.
É claro que cada um dos participantes desta disputa como em tudo que
persiste durante longo tempo – tem a sua parte de razão e a sua parte de
equívoco. A coesão social é uma necessidade, e a humanidade jamais
conseguiu, até agora, impor a coesão mediante argumentos meramente
racionais. Toda comunidade está exposta a dois perigos opostos: por um lado,
a fossilização, devido a uma disciplina exagerada e um respeito excessivo pela
tradição; por outro lado, a dissolução, a submissão ante a conquista
estrangeira, devido ao desenvolvimento da independência pessoal e do
individualismo, que tornam impossível a cooperação. Em geral, as civilizações
importantes começam por um sistema rígido e supersticioso que, aos poucos,
vai sendo afrouxado, e que conduz, em determinada fase, a um período de
gênio brilhante, enquanto perdura o que há de bom na tradição antiga, e não se
desenvolveu ainda o mal inerente à sua dissolução. Mas, quando o mal
começa a manifestar-se, conduz à anarquia e, daí, inevitavelmente, a uma
nova tirania, produzindo uma nova síntese, baseada num novo sistema
dogmático. A doutrina do liberalismo é uma tentativa para evitar essa
interminável oscilação. A essência do liberalismo é uma tentativa no sentido
de assegurar uma ordem social que não se baseie no dogma irracional, e
assegurar uma estabilidade sem acarretar mais restrições do que as necessárias
à preservação da comunidade. Se esta tentativa pode ser bem sucedida,
somente o futuro poderá demonstrá-lo.

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Max Horkheimer – Crítica da Razão Instrumental1

Prefácio à segunda edição alemã2

O fato de perceber (de aceitar dentro de si) idéias eternas, tais que serviram ao homem como alvo (objetivo) eram chamadas, desde muito, de razão.

Hoje, porém, se considera que a tarefa, e inclusive a verdadeira essência da razão – consiste em alavancar meios afim de desfrutar os objetivos (fins) propostos em cada caso. Os objetivos que, uma vez alcançados, não se convertem em meios são considerados como superstição. Embora a obediência a Deus tenha servido sempre como meio para conquistar seus favores – e por outro lado como racionalização de qualquer tipo de demônio, de expedições conquistadoras e de terrorismo – os iluministas, tanto deístas, quanto ateístas: interpretaram os Mandamentos, a partir de Hobbes, como princípios morais socialmente úteis, destinados a fomentar uma vida livre de tensões; um acordo pacífico entre iguais, bem como, respeitar a ordem existente. Isenta de conotações teológicas — a sentença: “sê racional” equivale a dizer: observa as regras, sem as quais – nem o indivíduo, nem o todo – não se pode viver; não pense apenas em coisas momentâneas. A razão se realiza a si mesma quando nega sua própria condição absoluta – razão com um sentido enfático – e se considera como mero instrumento. Não que não haja sérias intenções de endossar teoricamente a afirmação da verdade racional. A partir de Descartes, grandes correntes da Nova Filosofia intentaram um acordo (harmonia) entre teologia e ciência. “A faculdade das idéias intelectuais (a razão)”3 desempenhava o papel de mediadora. “O divino de nossa alma consiste em sua capacidade para conceber idéias” — lemos nos escritos póstumos de Kant4. Nietzsche acusou semelhante fé na razão autônoma de atraso, porque: “segundo instintos valorativos alemães, tanto Locke como Hume, foram por si mesmos… demasiado lúcidos, demasiado claros”5. Para ele [Nietzsche], Kant foi um “atraso” (demorador)6. A razão não é nada além que um instrumento, e Descartes foi superficial”7. Como no caso de outros fenômenos culturais ofendidos pela decadência, o século XX repetiu o processo histórico. Em 1900, ano da morte de Nietzsche apareceu as “Logische Unterschungen” (Investigações Lógicas) de Husserl, com o objetivo de fundamentar mais uma vez – com rigor científico – a percepção do ente espiritual, a contemplação do essencial. Apesar de Husserl ter se ocupado principalmente das categorias lógicas, Max Scheler e outros estenderam sua teoria para que elas abarcassem estruturas morais. Desde o início, este esforço carregou o signo de renovador (restaurativo). A auto distinção da razão enquanto substância espiritual obedece a uma necessidade interior. A teoria precisa refletir e expressar tanto o processo e a propensão socialmente condicionada, quanto o neo-positivismo, também a instrumentalização do pensamento, bem como os vãos planos de salvação.

Atendendo aos rogos de publicar meus escritos em sua totalidade eu decidi selecionar, por enquanto, os trabalhos que produzi desde meados da década de quarenta. Eles surgiram na fronteira de minha atividade prática, da organização dos Studies in Prejudice, da administração acadêmica, da reconstrução do Instituto de Pesquisa Social, dos esforços em pró da reforma educacional. Me dei conta de que tais pedidos se referem àquele período no qual surgiu a teoria crítica, ante todos os ensaios publicados na revista, editada por Alcan em Paris, que eu dirigia, bem como os estudos inéditos e, não menos importante: a Dialética do Esclarecimento – esgotada há tempos, a qual tem como co-autor meu amigo Adorno. Com o fim do nacional socialismo – assim cria eu então — iria amanhecer, um novo dia, nos países progressistas – seja mediante reformas ou através de uma revolução; e começaria a verdadeira história da humanidade. Junto com os fundadores do “socialismo científico” tinha acreditado que necessariamente se estenderiam pelo mundo os s ganhos culturais da época burguesa, o livre desdobramento das forças, a produtividade intelectual, e tudo isso, sem levar o estigma da violência da exploração.

No entanto, o que verifiquei desde aqueles tempos não parou de afetar meu pensamento. Sem dúvida alguma, os Estados que se dizem comunistas e fazem uso das mesmas categorias marxistas – para as quais minha atividade teórica tanto deve – hoje em dia já não estão próximos do advento daquele novo dia em que os países nos quais, por enquanto, a liberdade do indivíduo não tenha sido extinta 8. Tendo em vista tal situação – há de ser publicado agora – contíguo a ensaios anteriores, as reflexões sobre a razão. Junto com tais reflexões podem hoje servir de base à dúvida – de grande gravidade teórica – a respeito do ponto ao qual o reino da liberdade, uma vez realizada, não há de transformar-se necessariamente em seu contrário: na automatização, tanto da sociedade, quanto do comportamento humano.

Mas Horkheimer

Maio 1967

1Horkheimer, Max. Crítica de la Razón Instrumental.Editorial SUR, S. A., Buenos Aires. 1973

Versión castellana de H. A. MURENA y D. J. VOGELMANN; Título del original en alemán: ZUR KRITIK DER INSTRUMENTEL.L.EN VERNUNFT

2Traduzido do Espanhol por a.topos

3Kant, Kritik der Urteilskraft, Ed. Ak., vol. V, pág 315.

4Iind., XVIII, pág. 130

5Nietzsche, Nachlass, Obras. ed. Kroener, vol. XV. Pag. 217

6Ibid.

7Jenseits von Gut und Böse. III, pág 191

8“no se encuentran hoy día más próximos al advenimiento de aquel nuevo día que los países en los cuales por el momento no se ha extinguido todavía la libertad del individuo” – no original.

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A Escola de Frankfurt – uma breve (muito breve mesmo) introdução 1

Introdução

Imagine-se em um aposento do século 19. Esse aposento é um lugar no qual há longas conversas. Há uma conversa primordial, onde um grupo de homens muito idosos apresentam questões e definem o tom (forma) da discussão. Há uns que estão, de alguma maneira, reagindo às idéias dos homens antigos. Há outros, os verdadeiramente profundos, inovadores, senão “estranhos” afirmam suas próprias observações, e esforçam-se afim de entrar em diálogo com os homens antigos. Pessoas chegam e saem do aposento. Fora os já citados, há – também – quem se se agrupe em torno de seu seu orador favorito, são atraídos por determinados grupos – pelo fato de compartilharem um assunto (tema) específico.

A imagem do aposento representa a totalidade da Filosofia Ocidental. O homem antigo, representa os filósofos clássicos – tais como Sócrates e Platão. Os profundos, inovadores e ‘bizarros’, são os pensadores modernos como Hegel e Marx. E, finalmente, a Escola de Frankfurt a qual consiste a categoria daqueles agrupados em torno de seus oradores prediletos. Ou seja, a Escola de Frankfurt não é um lugar, mas sim, uma escola de pensamento — um conjunto de teorias similares que tem como foco o mesmo assunto. O pensamento da Escola é um diálogo, que resultou depois de Karl Marx acrescentou seu notório “two cents2 ao progressivo debate da filosofia.

Os acadêmicos que originaram a Escola de Frankfurt eram todos, direta ou indiretamente, associados a um orgão chamado Institute of Social Research (Instituto de Pesquisa Social). O apelido (nickname), por assim dizer, dos pensadores teve origem devido à localização do instituto – Frankfurt, Alemanha. Aqueles que contribuíram de forma mais significativa à escola de pensamento são: Theodor W. Adorno (1903-1969) filósofo, sociólogo e musicologista; Walter Benjamin (1892-1940) ensaísta e crítico literário; Herbert Marcuse (1898-1979) filósofo; Max Horkheimer (1895-1973) filósofo e sociólogo. E mais tarde Jungen Habermas (Düsseldorf, 18 de Junho 1929). Cada um desses filósofos confiava na teoria do Materialismo Histórico de Marx – até certo ponto… Todos eles acompanharam o advento do Comunismo na Russia, culminando, mais tarde, no fascismo na Itália. Eles viveram a primeira guerra mundial (1914 – 1918), o ápice e a queda de Hitler; e obviamente, a devastação provocada pelo Holocausto. Eles erigiram reações, isto é, tentativas de reconciliar a teoria marxista com a realidade na qual, tanto as pessoas, quanto os governos – estavam inseridos. Cada um dos membros da Escola de Frankfurt ajustou o Marxismo com seus próprios acréscimos – ou “jeitinho” (fix) se você preferir. Em seguida, usaram a teoria marxista “estabelecida” (fixed), com o objetivo de avaliar o quanto a sociedade moderna necessitava encontrar-se3. Essas idéias vieram a ser conhecidas como “Teoria Crítica”.

História da Escola de Frankfurt

Foi a partir do Institut für Sozialforschung (Instituto de Pesquisa Social), que surgiu a Escola de Frankfurt. No início, ambos eram indistinguíveis. O Instituto começou como parte da Universidade de Frankfurt, na Alemanha. O instituto foi fundado por Felix Weil em 1923, e pôde funcionar com grande autonomia4. Car Grünberg foi diretor do Instituto entre os anos de 1923-1929. Grünberg um marxista “confesso”, e devido a isso fez com que a base teórica do programa do Instituto fosse marxista – entretanto, o Instituto não teve qualquer afiliação partidária. Ele enfatizou a importância do contexto histórico — do significado, bem como dos resultados – à investigação5. Max Horkheimer assumiu a direção do instituto em 1930; e, por sua vez, enfatizou a relação entre a filosofia social e a ciência. Seu foco principal foi um estudo interdisciplinar. Como Grünberg, Horkheimer acreditava que a teoria marxista deveria ser a base do Instituto de Pesquisa.

Em 1933, o Instituto foi forçado a deixara a Alemanha por conta da tomada de poder pelos Nazistas, e durante os anos de 1933-1935, a localização do instituto foi em Genebra, Suíça. Em torno de 1935, o endereço foi mudado para Nova Iorque; e em 1941, o Instituto mudou – novamente – de endereço e dessa vez para Califórnia. Durante esse período, ele enfrentou muitos problemas – incluindo uma audiência, na qual foi discutida o seu funcionamento. Porque, em vez de escrever para outros meios acadêmicos Alemães, eles começaram a escrever para cientistas sociais americanos. E Isso, somado às mudanças de localização e as perturbações causadas pelos nazistas — criou problemas para os membros do Instituto. Por volta de 1953, o Instituto foi permitido a voltar para a Universidade de Frankfurt, na Alemanha. Adorno assumiu a co-direção com Horkheimer em 1955. Até que em 1959 Adorno veio a falecer, e Horkheimer em 1973. Assim, O Instituto de Pesquisa Social persistiu, mas não com a alcunha de Escola de Frankfurt.

Max Horkheimer – O eclipse da Razão

O livro de Horkheimer intitulado “Eclipse da Razão”, ocupa-se com o conceito de “razão”6 no âmbito da filosofia ocidental. O autor define a “verdadeira razão”, como racionalidade7. Então ele define a diferença entre razão objetiva8 e razão subjetiva9. A primeira diz respeito a verdades universais, as quais ditam que uma ação é certa ou errada. A razão subjetiva — por outro lado – leva em conta, tanto a situação, quanto as normas sociais: as ações que proporcionam a melhor situação para o indivíduo são “reasonable” (lógicas, racionais) concordando com a razão subjetiva. O movimento do primeiro tipo de razão para o outro, ocorreu quando o pensamento não pôde mais acomodar as tais verdades objetivas, ou quando elas foram julgadas ilusórias. Submetida às verdades subjetivas, os conceitos perdem seus significados. Todos os conceitos precisam ser estritamente funcionais para que sejam racionais. Devido as regras da razão subjetiva, tanto os ideais de sociedade, quanto os de democracia – por exemplo – se tornam dependentes de “interests” (interesses) das pessoas, em vez de serem dependentes de verdades objetivas.

Horkheimer escreveu o “Eclipse da Razão”, o livro foi influenciado (inspirado) pelo poder dos nazistas sob à Alemanha. Ele descreve como os nazistas foram capaz de fazer sua agenda (aparentar) ser racional. Além disso, é uma emissão de advertência para que isso não ocorra novamente. O autor, acredita que as calamidades da sociedade moderna são causadas pelo mal uso da razão, bem como por tê-la interpretado mal. E se as pessoas usaram a “verdadeira razão” afim de criticar suas sociedades, elas serão capazes de identificar e resolver os problemas delas [das sociedades].

Conclusão

Então, depois dessa navegada, o que a Escola de Frankfurt realmente fez? Bom, se nós usarmos a imagem da filosofia como uma longa conversa (debate) – como foi feito no início do texto – veremos que Escola lançou o materialismo histórico para o centro do aposento (da discussão). Isso forçou a ideologia marxista a horizontalizar seu propósito e levar em consideração questões pendentes, tais como: “de que forma as pessoas e as instituições interagem?” Notaremos, também, o impacto da Escola de Frankfurt no marxismo e que ela o validou analisando e provando a “evidência empírica” de sua existência. Ela forneceu uma metodologia ao marxismo. – E isso, sob através de uma interdisciplinaridade: Horkheimer utilizou a noção de racionalidade como uma maneira de explicar e descrever o materialismo histórico; Adorno, por sua vez utilizou a linguagem; Benjamin, a metáfora das cidades; e Habermas reconstruiu todo o pensamento – . Porque em certo ponto o marxismo disse: “este é o materialismo histórico, e este é o que ele faz.” E a Escola de Frankfurt retrucou: “este é o materialismo histórico; isto é o que é certo a respeito dele, e aquilo é o que é errado a respeito dele, e é assim que ele funciona”. A EF além disso, e talvez seja o mais importante: ajudou o marxismo a libertar-se do dogmatismo – o qual se uniu ao marxismo durante o advento do socialismo. Além de ter influenciado, diretamente, o marxismo, a EF impactou a filosofia como um todo. O fez, através da preservação da noção de meta-análise da sociedade através de seus sistemas econômicos, políticos e sociais. Além, disso, introduziu a noção de filosofia social, e fez da teoria uma prática cotidiana

misturando problemas filosóficos e problemas empíricos.

***

Algumas notas:

Hermenêutica – a ciência da interpretação e da explicação

Idealismo – o sistema teórico que nega a existência de corpos materiais, e ensina que nós não temos fundamentação racional para acreditar realmente em nada além de idéias e suas relações.

Dialética – relacionado a ou envolvendo dialética; “o método dialético” é qualquer sistema racional que faz surgir a verdade através de uma permutação de argumentos lógicos.

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1Traduzido por a.topos, texto original no site: http://filer.case.edu/~ngb2/Pages/Intro.html

2 opinião não solicitada; algo não importante, ou muito pequeno – provavelmente uma irnoa, talvez!? Passagem obscura, ao menos para mim. No original está como: The thought of the Frankfurt school is a dialogue, that resulted after Karl Marx added his proverbial “two cents” to the ongoing conversation of philosophy.

3 Passagem “obscura” (ao menos para mim… HeHe), no original: They then used the “fixed” Marxist theory as a measure modern society needed to meet.

4 Autonomia – imunidade à arbitrariedade do exercício da autoridade: independência política [sin. Liberty] 2: independencia pessoal.

5 Grünberg stressed the importance of the historical context of meaning and results to research.

6 Razão – é uma da faculdade da mente humana através da qual se distingue da ‘inteligência’ dos animais inferiores; está muito acima das faculdades cognitivas inferiores – como os sentidos, imaginação e memória; e em contraste com os sentimentos (feelings) e os desejos (desires). A razão compreende as faculdades de formular idéias, de julgar, de raciocínio e intuitiva.

7 racionalidade: é a qualidade de ser coerente com, ou fundamentado na logica [sinônimo de rationalness: racionalidade lógica]

8 objetivo – a respeito de, ou pertencente a um objeto; contido em ou que tem essência ou a localização em um objeto; exterior; externo; extrínseco; – um modo de se referir a qualquer coisa externa à mente, ou simplesmente um objeto do pensamento ou sensível – em oposição a algo subjetivo. Objetivo diz respeito a algo que se torna, ou procede de um objeto conhecido, e não de um conhecimento subjetivo, e dessa forma, denota algo que é real – em oposição a algo que se diz ideal – o que existe na natureza, em contraste com o que existe, meramente, no pensamento do indivíduo.

9 subjetivo: é principalmente relacionado a, ou derivado da própria consciência de alguém – distinta da observação externa; relacionado à mente, ou universo intelectual, em oposição ao mundo externo (material); excessivamente ocupado com ou, meditando a respeito de algo.

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