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Archive for the ‘Machado de Assis’ Category

O ensaísta José Miguel Wisnik lança o livro Machado Maxixe: O caso Pestana (Publifolha, 2008) a partir da leitura do conto "Um Homem Célebre" (1888) (Leia o conto aqui no blogue), de Machado de Assis (e veja outros contos e artigos sobre o nosso Machadão). O ensaio foi publicado originalmente no livro Sem receita – ensaios e canções, da mesma editora. O autor mergulha nas origens da polca, estilo musical e de dança de salão importada, e a música de escravos brasileiros que, misturadas, dão origem ao maxixe.

José Miguel Wisnik é professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo, autor de (entre outros) O Coro dos Contrários – A Música em Torno da Semana de 22 (Duas Cidades, 1977), O Som e o Sentido – Uma Outra História das Músicas (Companhia das Letras, 1989), compositor, cantor, letrista e autor de trilhas para balés e peças de teatro.

Capa do Livro Machado Maxixe: O Caso Pestana
José Miguel Wisnik
Editora: Publifolha
96 páginas
R$ 19,90

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Oquê? Adaptações audiovisuais da obra de Machado de Assis.

Quando? dia 21/11 – sexta-feira,  às 20h.

Onde? Centro Cultural Vergueiro –

Entrada franca (a bilheteria será aberta com uma hora de antecedência) Sala Lima Barreto (110 lugares).

Mais informações:
Adaptações audiovisuais da obra de Machado de Assis – Machado em novas versões: o romance no cinema
com: Gilberto Figueiredo Martins (professor doutor pela UNESP/ASSIS).

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Roberto Schwarz – NOVOS ESTUDOS N.º 11

Texto completo pode ser obtido clicando aqui (mas, pelo que li, o texto não é tão compleo assim: só tem o primeiro capítulo, que trata, justamente, do primeiro capítulo do Memórias. Bom, aí a culpa não é minha! – mas vale a pena lê-lo)

A estridência, os artifícios numerosos e a vontade de chamar atenção dominam o começo das Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). O tom é de abuso deliberado: o título do livro é um contra-senso, pois não é possível escrever depois de morto; a dedicatória saudosa ao verme que primeiro roeu as frias carnes de meu cadáver, arranjada em forma de epitáfio, é outro desrespeito; mesma coisa para a intimidade forçada com que se prometem “piparotes”1 ao leitor, caso a obra não lhe agrade; por fim, a idéia que vem a Brás Cubas de comparar a sua literatura à de Moisés, no Pentateuco, para gabar a originalidade da primeira,

dispensa comentários. Em suma, trata-se de um show de impudência, em que as provocações se sucedem, numa gama que vai da gracinha à profanação.

A persistência no abuso, sem a qual as Memórias ficariam privadas de seu ritmo próprio, do ponto de vista técnico realiza-se através de intromissões do narrador, que a todo momento invade a cena e “perturba” o curso de seu romance. Estas intervenções, que são o recurso machadiano mais saliente e famoso, são elas também expressão de arbitrariedade. A crítica as tratou como traço psicológico do autor, deficiência narrativa, superioridade de espírito, empréstimo inglês, metalinguagem, nada disso estando errado.

Neste ensaio, serão vistas enquanto forma, tomado o termo em dois sentidos: a) como regra de composição da narrativa; e b) como estilização de uma conduta própria à classe dominante brasileira. No romance machadiano praticamente não há frase que não tenha segunda intenção ou propósito espirituoso. A prosa é detalhista ao extremo, sempre à cata de efeitos imediatos, o que amarra a leitura ao pormenor e dificulta a imaginação do panorama. Em conseqüência, e por causa também da campanha do narrador

para chamar atenção sobre si mesmo, a composição do conjunto pouco aparece. Entretanto ela existe, e se tomarmos distância enxergaremos no seu traçado as grandes linhas de uma dinâmica social.

São estas que dão a terceira dimensão, ou integridade romanesca, ao brilho algo fácil dos gracejos de primeiro plano. Difícil de precisar, esta consistência é um segredo da obra machadiana. Depois de fixá-la, tentaremos uma interpretação, que vai nos levar a circunstâncias brasileiras.

1O famoso “cascudo”, “peteleco”

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Uns Braços1

INÁCIO ESTREMECEU, ouvindo os gritos do solicitador, recebeu o prato
que este lhe apresentava e tratou de comer, debaixo de uma trovoada de
nomes, malandro, cabeça de vento, estúpido, maluco.
— Onde anda que nunca ouve o que lhe digo? Hei de contar tudo a seu pai,
para que lhe sacuda a preguiça do corpo com uma boa vara de marmelo, ou
um pau; sim, ainda pode apanhar, não pense que não. Estúpido! maluco!
— Olhe que lá fora é isto mesmo que você vê aqui, continuou, voltando-se
para D. Severina, senhora que vivia com ele maritalmente, há anos.
Confunde-me os papéis todos, erra as casas, vai a um escrivão em vez de ir a
outro, troca os advogados: é o diabo! É o tal sono pesado e contínuo. De
manhã é o que se vê; primeiro que acorde é preciso quebrar-lhe os ossos.. .
Deixe; amanhã hei de acordá-lo a pau de vassoura!
D. Severina tocou-lhe no pé, como pedindo que acabasse. Borges
espeitorou ainda alguns impropérios, e ficou em paz com Deus e os homens.
Não digo que ficou em paz com os meninos, porque o nosso Inácio não
era propriamente menino. Tinha quinze anos feitos e bem feitos. Cabeça
inculta, mas bela, olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que
quer saber e não acaba de saber nada. Tudo isso posto sobre um corpo não
destituído de graça, ainda que mal vestido. O pai é barbeiro na Cidade Nova,
e pô-lo de agente, escrevente, ou que quer que era, do solicitador Borges,
com esperança de vê-lo no foro, porque lhe parecia que os procuradores de
causas ganhavam muito. Passava-se isto na Rua da Lapa, em 1870.
Durante alguns minutos não se ouviu mais que o tinir dos talheres e o
ruído da mastigação. Borges abarrotava-se de alface e vaca; interrompia-se
para virgular a oração com um golpe de vinho e continuava logo calado.
Inácio ia comendo devagarinho, não ousando levantar os olhos do prato,
nem para colocá-los onde eles estavam no momento em que o terrível
Borges o descompôs. Verdade é que seria agora muito arriscado. Nunca ele
pôs os olhos nos braços de D. Severina que se não esquecesse de si e de
tudo.
Também a culpa era antes de D. Severina em trazê-los assim nus,
constantemente. Usava mangas curtas em todos os vestidos de casa, meio
palmo abaixo do ombro; dali em diante ficavam-lhe os braços à mostra. Na
verdade, eram belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa
que fina, e não perdiam a cor nem a maciez por viverem ao ar; mas é justo
explicar que ela os não trazia assim por faceira, senão porque já gastara
todos os vestidos de mangas compridas. De pé, era muito vistosa; andando,
tinha meneios engraçados; ele, entretanto, quase que só a via à mesa, onde,
além dos braços, mal poderia mirar-lhe o busto. Não se pode dizer que era
bonita; mas também não era feia. Nenhum adorno; o próprio penteado
consta de mui pouco; alisou os cabelos, apanhou-os, atou-os e fixou-os no
alto da cabeça com o pente de tartaruga que a mãe lhe deixou. Ao pescoço,
um lenço escuro, nas orelhas, nada. Tudo isso com vinte e sete anos floridos
e sólidos.
Acabaram de jantar. Borges, vindo o café, tirou quatro charutos da
algibeira, comparou-os, apertou-os entre os dedos, escolheu um e guardou os
restantes. Aceso o charuto, fincou os cotovelos na mesa e falou a D.
Severina de trinta mil cousas que não interessavam nada ao nosso Inácio;
mas enquanto falava, não o descompunha e ele podia devanear à larga.
Inácio demorou o café o mais que pôde. Entre um e outro gole alisava a
toalha, arrancava dos dedos pedacinhos de pele imaginários ou passava os
olhos pelos quadros da sala de jantar, que eram dous, um S. Pedro e um S.
João, registros trazidos de festas encaixilhados em casa. Vá que disfarçasse
com S. João, cuja cabeça moça alegra as imaginações católicas, mas com o
austero S. Pedro era demais. A única defesa do moço Inácio é que ele não
via nem um nem outro; passava os olhos por ali como por nada. Via só os
braços de D. Severina, — ou porque sorrateiramente olhasse para eles, ou
porque andasse com eles impressos na memória.
— Homem, você não acaba mais? bradou de repente o solicitador.
Não havia remédio; Inácio bebeu a última gota, já fria, e retirou-se, como
de costume, para o seu quarto, nos fundos da casa. Entrando, fez um gesto
de zanga e desespero e foi depois encostar-se a uma das duas janelas que
davam para o mar. Cinco minutos depois, a vista das águas próximas e das
montanhas ao longe restituía-lhe o sentimento confuso, vago, inquieto, que
lhe doía e fazia bem, alguma cousa que deve sentir a planta, quando abotoa a
primeira flor. Tinha vontade de ir embora e de ficar. Havia cinco semanas
que ali morava, e a vida era sempre a mesma, sair de manhã com o Borges,
andar por audiências e cartórios, correndo, levando papéis ao selo, ao
distribuidor, aos escrivães, aos oficiais de justiça. Voltava à tarde jantava e
recolhia-se ao quarto, até a hora da ceia; ceava e ia dormir. Borges não lhe
dava intimidade na família, que se compunha apenas de D. Severina, nem
Inácio a via mais de três vezes por dia, durante as refeições. Cinco semanas
de solidão, de trabalho sem gosto, longe da mãe e das irmãs; cinco semanas
de silêncio, porque ele só falava uma ou outra vez na rua; em casa, nada.
"Deixe estar, — pensou ele um dia — fujo daqui e não volto mais."
Não foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braços de D. Severina.
Nunca vira outros tão bonitos e tão frescos. A educação que tivera não lhe
permitia encará-los logo abertamente, parece até que a princípio afastava os
olhos, vexado. Encarou-os pouco a pouco, ao ver que eles não tinham outras
mangas, e assim os foi descobrindo, mirando e amando. No fim de três
semanas eram eles, moralmente falando, as suas tendas de repouso.
Agüentava toda a trabalheira de fora toda a melancolia da solidão e do
silêncio, toda a grosseria do patrão, pela única paga de ver, três vezes por
dia, o famoso par de braços.
Naquele dia, enquanto a noite ia caindo e Inácio estirava-se na rede (não
tinha ali outra cama), D. Severina, na sala da frente, recapitulava o episódio
do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma cousa Rejeitou a idéia
logo, uma criança! Mas há idéias que são da família das moscas teimosas:
por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam. Criança? Tinha
quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e a boca do rapaz havia um
princípio de rascunho de buço. Que admira que começasse a amar? E não
era ela bonita? Esta outra idéia não foi rejeitada, antes afagada e beijada. E
recordou então os modos dele, os esquecimentos, as distrações, e mais um
incidente, e mais outro, tudo eram sintomas, e concluiu que sim.
— Que é que você tem? disse-lhe o solicitador, estirado no canapé, ao cabo
de alguns minutos de pausa.
— Não tenho nada.
— Nada? Parece que cá em casa anda tudo dormindo! Deixem estar, que eu
sei de um bom remédio para tirar o sono aos dorminhocos . . .
E foi por ali, no mesmo tom zangado, fuzilando ameaças, mas realmente
incapaz de as cumprir, pois era antes grosseiro que mau. D. Severina
interrompia-o que não, que era engano, não estava dormindo, estava
pensando na comadre Fortunata. Não a visitavam desde o Natal; por que não
iriam lá uma daquelas noites? Borges redargüia que andava cansado,
trabalhava como um negro, não estava para visitas de parola, e descompôs a
comadre, descompôs o compadre, descompôs o afilhado, que não ia ao
colégio, com dez anos! Ele, Borges, com dez anos, já sabia ler, escrever e
contar, não muito bem, é certo, mas sabia. Dez anos! Havia de ter um bonito
fim: — vadio, e o covado e meio nas costas. A tarimba é que viria ensiná-lo.
D. Severina apaziguava-o com desculpas, a pobreza da comadre, o
caiporismo do compadre, e fazia-lhe carinhos, a medo, que eles podiam
irritá-lo mais. A noite caíra de todo; ela ouviu o tlic do lampião do gás da
rua, que acabavam de acender, e viu o clarão dele nas janelas da casa
fronteira. Borges, cansado do dia, pois era realrnente um trabalhador de
primeira ordem, foi fechando os olhos e pegando no sono, e deixou-a só na
sala, às escuras, consigo e com a descoberta que acaba de fazer.
Tudo parecia dizer à dama que era verdade; mas essa verdade, desfeita a
impressão do assombro, trouxe-lhe uma complicação moral que ela só
conheceu pelos efeitos, não achando meio de discernir o que era. Não podia
entender-se nem equilibrar-se, chegou a pensar em dizer tudo ao solicitador,
e ele que mandasse embora o fedelho. Mas que era tudo? Aqui estacou:
realmente, não havia mais que suposção, coincidência e possivelmente
ilusão. Não, não, ilusão não era. E logo recolhia os indícios vagos, as
atitudes do mocinho, o acanhamento, as distrações, para rejeitar a idéia de
estar enganada. Daí a pouco, (capciosa natureza!) refletindo que seria mau
acusá-lo sem fundamento, admitiu que se iludisse, para o único fim de
observá-lo melhor e averiguar bem a realidade das cousas.
Já nessa noite, D. Severina mirava por baixo dos olhos os gestos de
Inácio; não chegou a achar nada, porque o tempo do chá era curto e o
rapazinho não tirou os olhos da xícara. No dia seguinte pôde observar
melhor, e nos outros otimamente. Percebeu que sim, que era amada e
temida, amor adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um
sentimento de inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo. D.
Severina compreendeu que não havia recear nenhum desacato, e concluiu
que o melhor era não dizer nada ao solicitador; poupava-lhe um desgosto, e
outro à pobre criança. Já se persuadia bem que ele era criança, e assentou de
o tratar tão secamente como até ali, ou ainda mais. E assim fez; Inácio
começou a sentir que ela fugia com os olhos, ou falava áspero, quase tanto
como o próprio Borges. De outras vezes, é verdade que o tom da voz saía
brando e até meigo, muito meigo; assim como o olhar geralmente esquivo,
tanto errava por outras partes, que, para descansar, vinha pousar na cabeça
dele; mas tudo isso era curto.
— Vou-me embora, repetia ele na rua como nos primeiros dias.
Chegava a casa e não se ia embora. Os braços de D. Severina fechavamlhe
um parêntesis no meio do longo e fastidioso período da vida que levava,
e essa oração intercalada trazia uma idéia original e profunda, inventada pelo
céu unicamente para ele. Deixava-se estar e ia andando. Afinal, porém, teve
de sair, e para nunca mais; eis aqui como e porquê.
D. Severina tratava-o desde alguns dias com benignidade. A rudeza da
voz parecia acabada, e havia mais do que brandura, havia desvelo e carinho.
Um dia recomendava-lhe que não apanhasse ar, outro que não bebesse água
fria depois do café quente, conselhos, lembranças, cuidados de amiga e mãe,
que lhe lançaram na alma ainda maior inquietação e confusão. Inácio chegou
ao extremo de confiança de rir um dia à mesa, cousa que jamais fizera; e o
solicitador não o tratou mal dessa vez, porque era ele que contava um caso
engraçado, e ninguém pune a outro pelo aplauso que recebe. Foi então que
D. Severina viu que a boca do mocinho, graciosa estando calada, não o era
menos quando ria.
A agitação de Inácio ia crescendo, sem que ele pudesse acalmar-se nem
entender-se. Não estava bem em parte nenhuma. Acordava de noite,
pensando em D. Severina. Na rua, trocava de esquinas, errava as portas,
muito mais que dantes, e não via mulher, ao longe ou ao perto, que lha não
trouxesse à memória. Ao entrar no corredor da casa, voltando do trabalho,
sentia sempre algum alvoroço, às vezes grande, quando dava com ela no
topo da escada, olhando através das grades de pau da cancela, como tendo
acudido a ver quem era.
Um domingo, — nunca ele esqueceu esse domingo, — estava só no
quarto, à janela, virado para o mar, que lhe falava a mesma linguagem
obscura e nova de D. Severina. Divertia-se em olhar para as gaivotas, que
faziam grandes giros no ar, ou pairavam em cima d’água, ou avoaçavam
somente. O dia estava lindíssimo. Não era só um domingo cristão; era um
imenso domingo universal.
Inácio passava-os todos ali no quarto ou à janela, ou relendo um dos três
folhetos que trouxera consigo, contos de outros tempos, comprados a tostão,
debaixo do passadiço do Largo do Paço. Eram duas horas da tarde. Estava
cansado, dormira mal a noite, depois de haver andado muito na véspera;
estirou-se na rede, pegou em um dos folhetos, a Princesa Magalona, e
começou a ler. Nunca pôde entender por que é que todas as heroínas dessas
velhas histórias tinham a mesma cara e talhe de D. Severina, mas a verdade
é que os tinham. Ao cabo de meia hora, deixou cair o folheto e pôs os olhos
na parede, donde, cinco minutos depois, viu sair a dama dos seus cuidados.
O natural era que se espantasse; mas não se espantou. Embora com as
pálpebras cerradas viu-a desprender-se de todo, parar, sorrir e andar para a
rede. Era ela mesma, eram os seus mesmos braços.
É certo, porém, que D. Severina, tanto não podia sair da parede, dado que
houvesse ali porta ou rasgão, que estava justamente na sala da frente
ouvindo os passos do solicitador que descia as escadas. Ouviu-o descer; foi à
janela vê-lo sair e só se recolheu quando ele se perdeu ao longe, no caminho
da Rua das Mangueiras. Então entrou e foi sentar-se no canapé. Parecia fora
do natural, inquieta, quase maluca; levantando-se, foi pegar na jarra que
estava em cima do aparador e deixou-a no mesmo lugar; depois caminhou
até à porta, deteve-se e voltou, ao que parece, sem plano. Sentou-se outra
vez cinco ou dez minutos. De repente, lembrou-se que Inácio comera pouco
ao almoço e tinha o ar abatido, e advertiu que podia estar doente; podia ser
até que estivesse muito mal.
Saiu da sala, atravessou rasgadamente o corredor e foi até o quarto do
mocinho, cuja porta achou escancarada. D. Severina parou, espiou, deu com
ele na rede, dormindo, com o braço para fora e o folheto caído no chão. A
cabeça inclinava-se um pouco do lado da porta, deixando ver os olhos
fechados, os cabelos revoltos e um grande ar de riso e de beatitude.
D. Severina sentiu bater-lhe o coração com veemência e recuou. Sonhara
de noite com ele; pode ser que ele estivesse sonhando com ela. Desde
madrugada que a figura do mocinho andava-lhe diante dos olhos como uma
tentação diabólica. Recuou ainda, depois voltou, olhou dous, três, cinco
minutos, ou mais. Parece que o sono dava à adolescência de Inácio uma
expressão mais acentuada, quase feminina, quase pueril. "Uma criança!"
disse ela a si mesma, naquela língua sem palavras que todos trazemos
conosco. E esta idéia abateu-lhe o alvoroço do sangue e dissipou-lhe em
parte a turvação dos sentidos.
"Uma criança!"
E mirou-o lentamente, fartou-se de vê-lo, com a cabeça inclinada, o braço
caído; mas, ao mesmo tempo que o achava criança, achava-o bonito, muito
mais bonito que acordado, e uma dessas idéias corrigia ou corrompia a outra.
De repente estremeceu e recuou assustada: ouvira um ruído ao pé, na saleta
do engomado; foi ver, era um gato que deitara uma tigela ao chão. Voltando
devagarinho a espiá-lo, viu que dormia profundamente. Tinha o sono duro a
criança! O rumor que a abalara tanto, não o fez sequer mudar de posição. E
ela continuou a vê-lo dormir, — dormir e talvez sonhar.
Que não possamos ver os sonhos uns dos outros! D. Severina ter-se-ia
visto a si mesma na imaginação do rapaz; ter-se-ia visto diante da rede,
risonha e parada; depois inclinar-se, pegar-lhe nas mãos, levá-las ao peito,
cruzando ali os braços, os famosos braços. Inácio, namorado deles, ainda
assim ouvia as palavras dela, que eram lindas cálidas, principalmente novas,
— ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que ele não conhecia, posto
que o entendesse. Duas três e quatro vezes a figura esvaía-se, para tornar
logo, vindo do mar ou de outra parte, entre gaivotas, ou atravessando o
corredor com toda a graça robusta de que era capaz. E tornando, inclinavase,
pegava-lhe outra vez das mãos e cruzava ao peito os braços, até que
inclinando-se, ainda mais, muito mais, abrochou os lábios e deixou-lhe um
beijo na boca.
Aqui o sonho coincidiu com a realidade, e as mesmas bocas uniram-se na
imaginação e fora dela. A diferença é que a visão não recuou, e a pessoa real
tão depressa cumprira o gesto, como fugiu até à porta, vexada e medrosa.
Dali passou à sala da frente, aturdida do que fizera, sem olhar fixamente
para nada. Afiava o ouvido, ia até o fim do corredor, a ver se escutava algum
rumor que lhe dissesse que ele acordara, e só depois de muito tempo é que o
medo foi passando. Na verdade, a criança tinha o sono duro; nada lhe abria
os olhos, nem os fracassos contíguos, nem os beijos de verdade. Mas, se o
medo foi passando, o vexame ficou e cresceu. D. Severina não acabava de
crer que fizesse aquilo; parece que embrulhara os seus desejos na idéia de
que era uma criança namorada que ali estava sem consciência nem
imputação; e, meia mãe, meia amiga, inclinara-se e beijara-o. Fosse como
fosse, estava confusa, irritada, aborrecida mal consigo e mal com ele. O
medo de que ele podia estar fingindo que dormia apontou-lhe na alma e deulhe
um calefrio.
Mas a verdade é que dormiu ainda muito, e só acordou para jantar.
Sentou-se à mesa lépido. Conquanto achasse D. Severina calada e severa e o
solicitador tão ríspido como nos outros dias, nem a rispidez de um, nem a
severidade da outra podiam dissipar-lhe a visão graciosa que ainda trazia
consigo, ou amortecer-lhe a sensação do beijo. Não reparou que D. Severina
tinha um xale que lhe cobria os braços; reparou depois, na segunda-feira, e
na terça-feira, também, e até sábado, que foi o dia em que Borges mandou
dizer ao pai que não podia ficar com ele; e não o fez zangado, porque o
tratou relativamente bem e ainda lhe disse à saída:
— Quando precisar de mim para alguma cousa, procure-me.
— Sim, senhor. A Sra. D. Severina. . .
— Está lá para o quarto, com muita dor de cabeça. Venha amanhã ou depois
despedir-se dela.
Inácio saiu sem entender nada. Não entendia a despedida, nem a completa
mudança de D. Severina, em relação a ele, nem o xale, nem nada. Estava tão
bem! falava-lhe com tanta amizade! Como é que, de repente. . . Tanto
pensou que acabou supondo de sua parte algurn olhar indiscreto, alguma
distração que a ofendera, não era outra cousa; e daqui a cara fechada e o xale
que cobria os braços tão bonitos… Não importa; levava consigo o sabor do
sonho. E através dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos e
longos, nenhuma sensação achou nunca igual à daquele domingo, na Rua da
Lapa, quando ele tinha quinze anos. Ele mesmo exclama às vezes, sem saber
que se engana:
E foi um sonho! um simples sonho!
FIM

 

1Fonte:

ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II.

Texto proveniente de:

A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br&gt;

A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo

Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:

Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística

(http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/literat.html)

Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as

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Um Homem Célebre1

— AH! o SENHOR é que é o Pestana? perguntou Sinhazinha Mota, fazendo
um largo gesto admirativo. E logo depois, corrigindo a familiaridade: —
Desculpe meu modo, mas. .. é mesmo o senhor?
Vexado, aborrecido, Pestana respondeu que sim, que era ele. Vinha do
piano, enxugando a testa com o lenço, e ia a chegar à janela, quando a moça
o fez parar. Não era baile; apenas um sarau íntimo, pouca gente, vinte
pessoas ao todo, que tinham ido jantar com a viúva Camargo, Rua do Areal,
naquele dia dos anos dela, cinco de novembro de 1875… Boa e patusca
viúva! Amava o riso e a folga, apesar dos sessenta anos em que entrava, e
foi a última vez que folgou e riu, pois faleceu nos primeiros dias de 1876.
Boa e patusca viúva! Com que alma e diligência arranjou ali umas danças,
logo depois do jantar, pedindo ao Pestana que tocasse uma quadrilha! Nem
foi preciso acabar o pedido; Pestana curvou-se gentilmente, e correu ao
piano. Finda a quadrilha, mal teriam descansado uns dez minutos, a viúva
correu novamente ao Pestana para um obséquio mui particular.
— Diga, minha senhora.
— É que nos toque agora aquela sua polca Não Bula Comigo, Nhonhô.
Pestana fez uma careta, mas dissimulou depressa, inclinou-se calado, sem
gentileza, e foi para o piano, sem entusiasmo. Ouvidos os primeiros
compassos, derramou-se pela sala uma alegria nova, os cavalheiros correram
às damas, e os pares entraram a saracotear a polca da moda. Da moda, tinha
sido publicada vinte dias antes, e já não havia recanto da cidade em que não
fosse conhecida. Ia chegando à consagração do assobio e da cantarola
noturna.
Sinhazinha Mota estava longe de supor que aquele Pestana que ela vira à
mesa de jantar e depois ao piano, metido numa sobrecasaca cor de rapé,
cabelo negro, longo e cacheado, olhos cuidosos, queixo rapado, era o mesmo
Pestana compositor; foi uma amiga que lho disse quando o viu vir do piano,
acabada a polca. Daí a pergunta admirativa. Vimos que ele respondeu
aborrecido e vexado. Nem assim as duas moças lhe pouparam finezas, tais e
tantas, que a mais modesta vaidade se contentaria de as ouvir; ele recebeu-as
cada vez mais enfadado, até que, alegando dor de cabeça, pediu licença para
sair. Nem elas, nem a dona da casa, ninguém logrou retê-lo. Ofereceram-lhe
remédios caseiros, algum repouso, não aceitou nada, teimou em sair e saiu.
Rua fora, caminhou depressa, com medo de que ainda o chamassem; só
afrouxou, depois que dobrou a esquina da Rua Formosa. Mas aí mesmo
esperava-o a sua grande polca festiva. De uma casa modesta, à direita, a
poucos metros de distância, saíam as notas da composição do dia, sopradas
em clarineta. Dançava-se. Pestana parou alguns instantes, pensou em
arrepiar caminho, mas dispôs-se a andar, estugou o passo, atravessou a rua, e
seguiu pelo lado oposto ao da casa do baile. As notas foram-se perdendo, ao
longe, e o nosso homem entrou na Rua do Aterrado, onde morava. Já perto
de casa, viu vir dois homens: um deles, passando rentezinho com o Pestana,
começou a assobiar a mesma polca, rijamente, com brio, e o outro pegou a
tempo na música, e aí foram os dois abaixo, ruidosos e alegres, enquanto o
autor da peça, desesperado, corria a meter-se em casa.
Em casa, respirou. Casa velha. escada velha. um preto velho que o servia,
e que veio saber se ele queria cear.
— Não quero nada, bradou o Pestana: faça-me café e vá dormir.
Despiu-se, enfiou uma camisola, e foi para a sala dos fundos. Quando o
preto acendeu o gás da sala, Pestana sorriu e, dentro d’alma, cumprimentou
uns dez retratos que pendiam da parede. Um só era a óleo, o de um padre,
que o educara, que lhe ensinara latim e música, e que, segundo os ociosos,
era o próprio pai do Pestana. Certo é que lhe deixou em herança aquela casa
velha, e os velhos trastes, ainda do tempo de Pedro I. Compusera alguns
motetes o padre, era doudo por música, sacra ou profana, cujo gosto incutiu
no moço, ou também lhe transmitiu no sangue, se é que tinham razão as
bocas vadias, cousa de que se não ocupa a minha história, como ides ver.
Os demais retratos eram de compositores clássicos, Cimarosa, Mozart,
Beethoven, Gluck, Bach, Schumann, e ainda uns três, alguns, gravados,
outros litografados, todos mal encaixilhados e de diferente tamanho, mas
postos ali como santos de uma igreja. O piano era o altar; o evangelho da
noite lá estava aberto: era uma sonata de Beethoven.
Veio o café; Pestana engoliu a primeira xícara, e sentou-se ao piano.
Olhou para o retrato de Beethoven, e começou a executar a sonata, sem
saber de si, desvairado ou absorto, mas com grande perfeição. Repetiu a
peça, depois parou alguns instantes, levantou-se e foi a uma das janelas.
Tornou ao piano; era a vez de Mozart, pegou de um trecho, e executou-o do
mesmo modo, com a alma alhures. Haydn levou-o à meia-noite e à segunda
xícara de café.
Entre meia-noite e uma hora, Pestana pouco mais fez que estar à janela e
olhar para as estrelas, entrar e olhar para os retratos. De quando em quando
ia ao piano, e, de pé, dava uns golpes soltos no teclado, como se procurasse
algum pensamento mas o pensamento não aparecia e ele voltava a encostarse
à janela. As estrelas pareciam-lhe outras tantas notas musicais fixadas no
céu à espera de alguém que as fosse descolar; tempo viria em que o céu
tinha de ficar vazio, mas então a terra seria uma constelação de partituras.
Nenhuma imagem, desvario ou reflexão trazia uma lembrança qualquer de
Sinhazinha Mota, que entretanto, a essa mesma hora, adormecia, pensando
nele, famoso autor de tantas polcas amadas. Talvez a idéia conjugal tirou à
moça alguns momentos de sono. Que tinha? Ela ia em vinte anos, ele em
trinta, boa conta. A moça dormia ao som da polca, ouvida de cor, enquanto o
autor desta não cuidava nem da polca nem da moça, mas das velhas obras
clássicas, interrogando o céu e a noite, rogando aos anjos, em último caso ao
diabo. Por que não faria ele uma só que fosse daquelas páginas imortais?
Às vezes, como que ia surgir das profundezas do inconsciente uma aurora
de idéia: ele corria ao piano para aventá-la inteira, traduzi-la, em sons, mas
era em vão: a idéia esvaía-se. Outras vezes, sentado, ao piano, deixava os
dedos correrem, à ventura, a ver se as fantasias brotavam deles, como dos de
Mozart: mas nada, nada, a inspiração não vinha, a imaginação deixava-se
estar dormindo. Se acaso uma idéia aparecia, definida e bela, era eco apenas
de alguma peça alheia, que a memória repetia, e que ele supunha inventar.
Então, irritado, erguia-se, jurava abandonar a arte, ir plantar café ou puxar
carroça: mas daí a dez minutos, ei-lo outra vez, com os olhos em Mozart, a
imitá-lo ao piano.
Duas, três, quatro horas. Depois das quatro foi dormir; estava cansado,
desanimado, morto; tinha que dar lições no dia seguinte. Pouco dormiu;
acordou às sete horas. Vestiu-se e almoçou.
— Meu senhor quer a bengala ou o chapéu-de-sol? perguntou o preto,
segundo as ordens que tinha. porque as distrações do senhor eram
freqüentes.
— A bengala.
— Mas parece que hoje chove.
— Chove, repetiu Pestana maquinalmente.
— Parece que sim, senhor, o céu está meio escuro.
Pestana olhava para o preto, vago, preocupado. De repente:
— Espera aí.
Correu à sala dos retratos, abriu o piano, sentou-se e espalmou as mãos no
teclado. Começou a tocar alguma cousa própria, uma inspiração real e
pronta, uma polca, uma polca buliçosa, como dizem os anúncios. Nenhuma
repulsa da parte do compositor; os dedos iam arrancando as notas, ligando-
as, meneando-as; dir-se-ia que a musa compunha e bailava a um tempo.
Pestana esquecera as discípulas, esquecera o preto, que o esperava com a
bengala e o guarda-chuva, esquecera até os retratos que pendiam gravemente
da parede. Compunha só, teclando ou escrevendo, sem os vãos esforços da
véspera, sem exasperação, sem nada pedir ao céu, sem interrogar os olhos de
Mozart. Nenhum tédio. Vida, graça, novidade, escorriam-lhe da alma como
de uma fonte perene.
Em pouco tempo estava a polca feita. Corrigiu ainda alguns pontos,
quando voltou para jantar: mas já a cantarolava, andando, na rua. Gostou
dela; na composição recente e inédita circulava o sangue da paternidade e da
vocação. Dois dias depois, foi levá-la ao editor das outras polcas suas, que
andariam já por umas trinta. O editor achou-a linda.
— Vai fazer grande efeito.
Veio a questão do título. Pestana, quando compôs a primeira polca, em
1871, quis dar-lhe um título poético, escolheu este: Pingos de Sol. O editor
abanou a cabeça, e disse-lhe que os títulos deviam ser, já de si, destinados à
popularidade, ou por alusão a algum sucesso do dia, — ou pela graça das
palavras; indicou-lhe dois: A Lei de 28 de Setembro, ou Candongas Não
Fazem Festa.
— Mas que quer dizer Candongas Não Fazem Festa? perguntou o autor.
— Não quer dizer nada, mas populariza-se logo.
Pestana, ainda donzel inédito, recusou qualquer das denominações e
guardou a polca, mas não tardou que compusesse outra, e a comichão da
publicidade levou-o a imprimir as duas, com os títulos que ao editor
parecessem mais atraentes ou apropriados. Assim se regulou pelo tempo
adiante.
Agora, quando Pestana entregou a nova polca, e passaram ao título, o
editor acudiu que trazia um, desde muitos dias, para a primeira obra que ele
lhe apresentasse, título de espavento, longo e meneado. Era este: Senhora
Dona, Guarde o Seu Balaio.
— E para a vez seguinte, acrescentou, já trago outro de cor.
Pestana, ainda donzel inédito, recusou qualquer das denominações
compositor bastava à procura; mas a obra em si mesma era adequada ao
gênero, original, convidava a dançá-la e decorava-se depressa. Em oito dias,
estava célebre. Pestana, durante os primeiros, andou deveras namorado da
composição, gostava de a cantarolar baixinho, detinha-se na rua, para ouvila
tocar em alguma casa, e zangava-se quando não a tocavam bem. Desde
logo, as orquestras de teatro a executaram, e ele lá foi a um deles. Não
desgostou também de a ouvir assobiada, uma noite, por um vulto que descia
a Rua do Aterrado.
Essa lua-de-mel durou apenas um quarto de lua. Como das outras vezes, e
mais depressa ainda, os velhos mestres retratados o fizeram sangrar de
remorsos. Vexado e enfastiado, Pestana arremeteu contra aquela que o viera
consolar tantas vezes, musa de olhos marotos e gestos arredondados, fácil e
graciosa. E aí voltaram as náuseas de si mesmo, o ódio a quem lhe pedia a
nova polca da moda, e juntamente o esforço de compor alguma cousa ao
sabor clássico, uma página que fosse, uma só, mas tal que pudesse ser
encadernada entre Bach e Schumann. Vão estudo, inútil esforço.
Mergulhava naquele Jordão sem sair batizado. Noites e noites, gastou-as
assim, confiado e teimoso, certo de que a vontade era tudo, e que, uma vez
que abrisse mão da música fácil…
— As polcas que vão para o inferno fazer dançar o diabo, disse ele um dia,
de madrugada, ao deitar-se.
Mas as polcas não quiseram ir tão fundo. Vinham à casa de Pestana, à
própria sala dos retratos, irrompiam tão prontas, que ele não tinha mais que
o tempo de as compor, imprimi-las depois, gostá-las alguns dias, aborrecêlas,
e tornar às velhas fontes, donde lhe não manava nada. Nessa alternativa
viveu até casar, e depois de casar.
— Casar com quem? perguntou Sinhazinha Mota ao tio escrivão que lhe deu
aquela notícia.
— Vai casar com uma viúva.
— Velha?
— Vinte e sete anos.
— Bonita?
— Não, nem feia, assim, assim. Ouvi dizer que ele se enamorou dela, porque
a ouviu cantar na última festa de S. Francisco de Paula. Mas ouvi também
que ela possui outra prenda, que não é rara, mas vale menos: está tísica.
Os escrivães não deviam ter espírito, — mau espírito, quero dizer. A
sobrinha deste sentiu no fim um pingo de bálsamo, que lhe curou a
dentadinha da inveja. Era tudo verdade. Pestana casou daí a dias com uma
viúva de vinte e sete anos, boa cantora e tísica. Recebeu-a como a esposa
espiritual do seu gênio. O celibato era, sem dúvida, a causa da esterilidade e
do transvio, dizia ele consigo, artisticamente considerava-se um arruador de
horas mortas; tinha as polcas por aventuras de petimetres. Agora, sim, é que
ia engendrar uma família de obras sérias, profundas, inspiradas e
trabalhadas.
Essa esperança abotoou desde as primeiras horas do amor, e desabrochou
à primeira aurora do casamento. Maria, balbuciou a alma dele, dá-me o que
não achei na solidão das noites, nem no tumulto dos dias.
Desde logo, para comemorar o consórcio, teve idéia de compor um
noturno. Chamar-lhe-ia Ave, Maria. A felicidade como que lhe trouxe um
princípio de inspiração; não querendo dizer nada à mulher, antes de pronto,
trabalhava às escondidas; cousa difícil porque Maria, que amava igualmente
a arte, vinha tocar com ele, ou ouvi-lo somente, horas e horas, na sala dos
retratos. Chegaram a fazer alguns concertos semanais, com três artistas,
amigos do Pestana. Um domingo, porém, não se pôde ter o marido, e
chamou a mulher para tocar um trecho do noturno; não lhe disse o que era
nem de quem era. De repente, parando, interrogou-a com os olhos.
— Acaba, disse Maria, não é Chopin?
Pestana empalideceu, fitou os olhos no ar, repetiu um ou dois trechos e
ergueu-se. Maria assentou-se ao piano, e, depois de algum esforço de
memória, executou a peça de Chopin. A idéia, o motivo eram os mesmos;
Pestana achara-os em algum daqueles becos escuros da memória, velha
cidade de traições. Triste, desesperado, saiu de casa, e dirigiu-se para o lado
da ponte, caminho de S. Cristóvão.
— Para que lutar? dizia ele. Vou com as polcas. . . Viva a polca!
Homens que passavam por ele, e ouviam isto, ficavam olhando, como
para um doudo. E ele ia andando, alucinado, mortificado, eterna peteca entre
a ambição e a vocação. . . Passou o velho matadouro; ao chegar à porteira da
estrada de ferro, teve idéia de ir pelo trilho acima e esperar o primeiro trem
que viesse e o esmagasse. O guarda fê-lo recuar. Voltou a si e tornou a casa.
Poucos dias depois, — uma clara e fresca manhã de maio de 1876, —
eram seis horas, Pestana sentiu nos dedos um frêmito particular e conhecido.
Ergueu-se devagarinho, para não acordar Maria, que tossira toda noite, e
agora dormia profundamente. Foi para a sala dos retratos, abriu o piano, e, o
mais surdamente que pôde, extraiu uma polca. Fê-la publicar com um
pseudônimo; nos dois meses seguintes compôs e publicou mais duas. Maria
não soube nada; ia tossindo e morrendo, até que expirou, uma noite, nos
braços do marido, apavorado e desesperado.
Era noite de Natal. A dor do Pestana teve um acréscimo, porque na
vizinhança havia um baile, em que se tocaram várias de suas melhores
polcas. Já o baile era duro de sofrer; as suas composições davam-lhe um ar
de ironia e perversidade. Ele sentia a cadência dos passos, adivinhava os
movimentos, porventura lúbricos, a que obrigava alguma daquelas
composições; tudo isso ao pé do cadáver pálido, um molho de ossos,
estendido na cama… Todas as horas da noite passaram assim, vagarosas ou
rápidas, úmidas de lágrimas e de suor, de águas-da-colônia e de Labarraque ,
saltando sem parar, como ao som da polca de um grande Pestana invisível.
Enterrada a mulher, o viúvo teve uma única preocupação: deixar a
música, depois de compor um Requiem, que faria executar no primeiro
aniversário da morte de Maria. Escolheria outro emprego, escrevente,
carteiro, mascate, qualquer cousa que lhe fizesse esquecer a arte assassina e
surda.
Começou a obra; empregou tudo, arrojo, paciência, meditação, e até os
caprichos do acaso, como fizera outrora, imitando Mozart. Releu e estudou o
Requiem deste autor. Passaram-se semanas e meses. A obra, célere a
princípio, afrouxou o andar. Pestana tinha altos e baixos. Ora achava-a
incompleta. não lhe sentia a alma sacra, nem idéia, nem inspiração, nem
método; ora elevava-se-lhe o coração e trabalhava com vigor. Oito meses,
nove, dez, onze, e o Requiem não estava concluído. Redobrou de esforços,
esqueceu lições e amizades. Tinha refeito muitas vezes a obra; mas agora
queria concluí-la, fosse como fosse. Quinze dias, oito, cinco… A aurora do
aniversário veio achá-lo trabalhando.
Contentou-se da missa rezada e simples, para ele só. Não se pode dizer se
todas as lágrimas que lhe vieram sorrateiramente aos olhos, foram do
marido, ou se algumas eram do compositor. Certo é que nunca mais tornou
ao Requiem.
"Para quê?" dizia ele a si mesmo.
Correu ainda um ano. No princípio de 1878, apareceu-lhe o editor.
— Lá vão dois anos, disse este, que nos não dá um ar da sua graça. Toda a
gente pergunta se o senhor perdeu o talento. Que tem feito?
— Nada.
— Bem sei o golpe que o feriu; mas lá vão dois anos. Venho propor-lhe um
contrato: vinte polcas durante doze meses; o preço antigo, e uma
porcentagem maior na venda. Depois, acabado o ano, podemos renovar.
Pestana assentiu com um gesto. Poucas lições tinha, vendera a casa para
saldar dívidas, e as necessidades iam comendo o resto, que era assaz
escasso. Aceitou o contrato.
— Mas a primeira polca há de ser já, explicou o editor. É urgente. Viu a
carta do Imperador ao Caxias? Os liberais foram chamados ao poder, vão
fazer a reforma eleitoral. A polca há de chamar-se: Bravos à Eleição Direta!
Não é política; é um bom título de ocasião.
Pestana compôs a primeira obra do contrato. Apesar do longo tempo de
silêncio, não perdera a originalidade nem a inspiração. Trazia a mesma nota
genial. As outras polcas vieram vindo, regularmente. Conservara os retratos
e os repertórios; mas fugia de gastar todas as noites ao piano, para não cair
em novas tentativas. Já agora pedia uma entrada de graça, sempre que havia
alguma boa ópera ou concerto de artista ia, metia-se a um canto, gozando
aquela porção de cousas que nunca lhe haviam de brotar do cérebro. Uma ou
outra vez, ao tornar para casa, cheio de música, despertava nele o maestro
inédito; então, sentava-se ao piano, e, sem idéia, tirava algumas notas, até
que ia dormir, vinte ou trinta minutos depois.
Assim foram passando os anos, até 1885. A fama do Pestana dera-lhe
definitivamente o primeiro lugar entre os compositores de polcas; mas o
primeiro lugar da aldeia não contentava a este César, que continuava a
preferir-lhe, não o segundo, mas o centésimo em Roma. Tinha ainda as
alternativas de outro tempo, acerca de suas composições a diferença é que
eram menos violentas. Nem entusiasmo nas primeiras horas, nem horror
depois da primeira semana; algum prazer e certo fastio.
Naquele ano, apanhou uma febre de nada, que em poucos dias cresceu, até
virar perniciosa. Já estava em perigo, quando lhe apareceu o editor, que não
sabia da doença, e ia dar-lhe notícia da subida dos conservadores, e pedir-lhe
uma polca de ocasião. O enfermeiro, pobre clarineta de teatro , referiu-lhe o
estado do Pestana , de modo que o editor entendeu calar-se. O doente é que
instou para que lhe dissesse o que era, o editor obedeceu.
— Mas há de ser quando estiver bom de todo, concluiu.
— Logo que a febre decline um pouco, disse o Pestana.
Seguiu-se uma pausa de alguns segundos. O clarineta foi pé ante pé
preparar o remédio; o editor levantou-se e despediu-se.
— Adeus.
— Olhe, disse o Pestana, como é provável que eu morra por estes dias, façolhe
logo duas polcas; a outra servirá para quando subirem os liberais.
Foi a única pilhéria que disse em toda a vida, e era tempo, porque expirou
na madrugada seguinte, às quatro horas e cinco minutos, bem com os
homens e mal consigo mesmo.
FIM

 

1Fonte:
ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II.
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado por:
Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística
(http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/literat.html)
Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as
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Missa do Galo1

NUNCA PUDE entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos,
contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho
irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em
primeiras núpcias, com uma de minhas primas A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta
acolheram-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a
estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os
meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher,
a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos
quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez,
ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas
ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se,
saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um
eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e
dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência
da comborça; mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito
direito.
Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os
esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos,
nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana;
aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela
era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que
chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia
odiar; pode ser até que não soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já
devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na
Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e
pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três
chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
— Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? pergun-tou-me a mãe de Conceição.
— Leio, D. Inácia.
Tinha comigo um romance, Os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do
Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de
querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e
fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos
voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas,
mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio
acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar;
levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.
— Ainda não foi? perguntou ela.
— Não fui, parece que ainda não é meia-noite.
— Que paciência!
Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roupão branco,
mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada
com o meu livro de aventuras. Fechei o livro, ela foi sentar-se na cadeira que ficava
defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem
querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:
— Não! qual! Acordei por acordar.
Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de
dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria
alguma cousa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse
justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer Já disse que ela
era boa, muito boa.
— Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.
— Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho!
Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.
— Quando ouvi os passos estranhei: mas a senhora apareceu logo.
— Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
— Justamente: é muito bonito.
— Gosta de romances?
— Gosto.
— Já leu a Moreninha?
— Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
— Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que
você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no
espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De
vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar,
não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça,
cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo
sem desviar de mim os grandes olhos espertos.
"Talvez esteja aborrecida", pensei eu.
E logo alto:
— D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu…
— Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio, são onze e meia. Tem tempo. Você,
perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?
— Já tenho feito isso.
— Eu, não, perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja,
hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.
— Que velha o que, D. Conceição?
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e
as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da
sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com
o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não
sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu
tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina
ou concertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a
mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar
acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e
não queria perdê-la.
— É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
— Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na
Corte é mais bonita que na roça. S. João não digo, nem Santo Antônio…
Pouco a pouco, tinha-se reclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o
rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas as mangas, caíram naturalmente, e
eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor.
A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém,
a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade,
podia, contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o
livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras cousas que
me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou
tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de
brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco
e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um
pouco a voz, ela reprimia-me:
— Mais baixo! mamãe pode acordar.
E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras.
Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido: cochichávamos os dous, eu mais que
ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco
franzida. Afinal, cansou, trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do
meu lado, no canapé. Voltei-me e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo
que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram
pretas. Conceição disse baixinho:
— Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve, se acordasse agora, coitada, tão cedo não
pegava no sono.
— Eu também sou assim.
— O quê? perguntou ela inclinando o corpo, para ouvir melhor.
Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti-lhe a palavra. Riu-se da
coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.
— Há ocasiões em que sou como mamãe, acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na
cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me e nada.
— Foi o que lhe aconteceu hoje.
— Não, não, atalhou ela.
Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse Pegou das pontas do
cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as
pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em
criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem
que eu desse pela hora nem pela rnissa Quando eu acabava uma narração ou uma
explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria e eu pegava novamente na
palavra. De quando em quando, reprimia-me:
— Mais baixo, mais baixo. . .
Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos,
cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse
fechado para ver rnelhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua
pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há
impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalhome.
Uma das que ainda tenho frescas é que em certa ocasião, ela, que era apenas simpática,
ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis
levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar
sentado. Cuidei que ia dizer alguma cousa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de
frio voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista
pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da
parede.
— Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.
Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um
representava "Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares
ambos; naquele tempo não me pareciam feios.
— São bonitos, disse eu.
— Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens,
duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.
— De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.
— Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e
naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é
que não acho próprio. É o que eu penso, mas eu penso muita cousa assim esquisita. Seja o
que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha
madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está
no meu oratório.
A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo.
Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com
doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a
missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas
anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase
sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das
canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me
contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.
Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não
tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.
— Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.
Concordei, para dizer alguma cousa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer
que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação;
fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a
idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para
Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.
Chegamos a ficar por algum tempo, — não posso dizer quanto, — inteiramente calados. O
rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela
espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar
devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que
bradava: "Missa do galo! missa do galol"
— Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir
acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.
— Já serão horas? perguntei.
— Naturalmente
— Missa do galo! — repetiram de fora, batendo.
— Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus até amanhã.
E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando
mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a
missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à
conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço falei da missa do galo e da
gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a
como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera.
Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro em março, o
escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a
visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do
marido.

 

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A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
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EVOLUÇÃO1

CHAMO-ME INÁCIO; ele, Benedito. Não digo o resto dos nossos nomes por um
sentimento de compostura, que toda a gente discreta apreciará. Inácio basta. ContentemseEvolução, de Machado de Assis
com Benedito. Não é muito, mas é alguma cousa, e está com a filosofia de Julieta:
"Que valem nomes, perguntava ela ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame,
terá sempre o mesmo cheiro." Vamos ao cheiro do Benedito.
E desde logo assentemos que ele era o menos Romeu deste mundo. Tinha quarenta e
cinco anos, quando o conheci; não declaro em que tempo, porque tudo neste conto há de
ser misterioso e truncado. Quarenta e cinco anos, e muitos cabelos pretos; para os que o
não eram usava um processo químico, tão eficaz que não se lhe distinguiam os pretos
dos outros– salvo ao levantar da cama; mas ao levantar da cama não aparecia a
ninguém. Tudo mais era natural, pernas, braços, cabeça, olhos, roupa, sapatos, corrente
do relógio e bengala. O próprio alfinete de diamante, que trazia na gravata, um dos mais
lindos que tenho visto, era natural e legítimo, custou-lhe bom dinheiro; eu mesmo o vi
comprar na casa do… Já me ia escapando o nome do joalheiro;– fiquemos na Rua do
Ouvidor.
Moralmente, era ele mesmo. Ninguém muda de caráter, e o do Benedito era bom,– ou
para melhor dizer, pacato. Mas, intelectualmente, é que ele era menos original. Podemos
compará-lo a uma hospedaria bem afreguesada, aonde iam ter idéias de toda parte e de
toda sorte, que se sentavam à mesa com a família da casa. Às vezes, acontecia acharemse
ali duas pessoas inimigas, ou simplesmente antipáticas, ninguém brigava, o dono da
casa impunha aos hóspedes a indulgência recíproca. Era assim que ele conseguia ajustar
uma espécie de ateísmo vago com duas irmandades que fundou, não sei se na Gávea, na
Tijuca ou no Engenho Velho. Usava assim, promiscuamente, a devoção, a irreligião e as
meias de seda. Nunca lhe vi as meias, note-se; mas ele não tinha segredos para os
amigos.
Conhecemo-nos em viagem para Vassouras. Tínhamos deixado o trem e entrado na
diligência que nos ia levar da estação à cidade. Trocamos algumas palavras, e não
tardou conversarmos francamente, ao sabor das circunstâncias que nos impunham a
convivência, antes mesmo de saber quem éramos.
Naturalmente, o primeiro objeto foi o progresso que nos traziam as estradas de ferro.
Benedito lembrava-se do tempo em que toda a jornada era feita às costas de burro.
Contamos então algumas anedotas, falamos de alguns nomes, e ficamos de acordo em
que as estradas de ferro eram uma condição de progresso do país. Quem nunca viajou
não sabe o valor que tem uma dessas banalidades graves e sólidas para dissipar os tédios
do caminho. O espírito areja-se, os próprios músculos recebem uma comunicação
agradável, o sangue não salta, fica-se em paz com Deus e os homens.
— Não serão os nossos filhos que verão todo este país cortado de estradas, disse ele.
— Não, decerto. O senhor tem filhos?
— Nenhum.
— Nem eu. Não será ainda em cinqüenta anos; e, entretanto, é a nossa primeira
necessidade. Eu comparo o
Brasil a uma criança que está engatinhando; só começará a andar quando tiver muitas
estradas de ferro
— Bonita idéia! exclamou Benedito faiscando-lhe os olhos.
— Importa-me pouco que seja bonita, contanto que seja justa.
— Bonita e justa, redargüiu ele com amabilidade. Sim, senhor tem razão: — o Brasil está
engatinhando; só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro.
Chegamos a Vassouras; eu fui para a casa do juiz municipal, camarada antigo; ele
demorou-se um dia e seguiu para o interior. Oito dias depois voltei ao Rio de Janeiro,
mas sozinho. Uma semana mais tarde, voltou ele; encontramo-nos no teatro,
conversamos muito e trocamos notícias; Benedito acabou convidando-me a ir almoçar
com ele no dia seguinte. Fui; deu-me um almoço de príncipe, bons charutos e palestra
animada. Notei que a conversa dele fazia mais efeito no meio da viagem– arejando o
espírito e deixando a gente em paz com Deus e os homens; mas devo dizer que o
almoço pode ter prejudicado o resto. Realmente era magnífico; e seria impertinência
histórica pôr a mesa de Luculo na casa de Platão. Entre o café e o cognac, disse-me ele,
apoiando o cotovelo na borda da mesa, e olhando para o charuto que ardia:
— Na minha viagem agora, achei ocasião de ver como o senhor tem razão com aquela
idéia do Brasil engatinhando.
— Ah!
— Sim, senhor; é justamente o que o senhor dizia na diligência de Vassouras. Só
começaremos a andar quando tivermos muitas estradas de ferro. Não imagina como isso
é verdade.
E referiu muita cousa, observações relativas aos costumes do interior, dificuldades da
vida, atraso, concordando, porém, nos bons sentimentos da população e nas aspirações
de progresso. Infelizmente, o governo não correspondia às necessidades da pátria;
parecia até interessado em mantê-la atrás das outras nações americanas. Mas era
indispensável que nos persuadíssemos de que os princípios são tudo e os homens nada.
Não se fazem os povos para os governos, mas os governos para os povos; e abyssus
abyssum invocat. Depois foi mostrar-me outras salas. Eram todas alfaiadas com apuro.
Mostrou-me as coleções de quadros, de moedas, de livros antigos, de selos, de armas;
tinha espadas e floretes, mas confessou que não sabia esgrimir. Entre os quadros vi um
lindo retrato de mulher; perguntei-lhe quem era. Benedito sorriu.
— Não irei adiante, disse eu sorrindo também.
— Não, não há que negar, acudiu ele; foi uma moça de quem gostei muito. Bonita, não?
Não imagina a beleza que era. Os lábios eram mesmo de carmim e as faces de rosa;
tinha os olhos negros, cor da noite. E que dentes! verdadeiras pérolas. Um mimo da
natureza.
Em seguida, passamos ao gabinete. Era vasto, elegante, um pouco trivial, mas não lhe
faltava nada. Tinha duas estantes, cheias de livros muito bem encadernados, um mapamúndi,
dous mapas do Brasil. A secretária era de ébano, obra fina; sobre ela,
casualmente aberto, um almanaque de Laemmert. O tinteiro era de cristal,– "cristal de
rocha", disse-me ele, explicando o tinteiro, como explicava as outras cousas. Na sala
contígua havia um órgão. Tocava órgão, e gostava muito de música, falou dela com
entusiasmo, citando as óperas, os trechos melhores, e noticiou-me que, em pequeno,
começara a aprender flauta; abandonou-a logo, — o que foi pena, concluiu, porque é, na
verdade, um instrumento muito saudoso. Mostrou-me ainda outras salas, fomos ao
jardim, que era esplêndido, tanto ajudava a arte à natureza, e tanto a natureza coroava a
arte. Em rosas, por exemplo, (não há negar, disse-me ele, que é a rainha das flores) em
rosas, tinha-as de toda casta e de todas as regiões.
Saí encantado. Encontramo-nos algumas vezes, na rua, no teatro, em casa de amigos
comuns, tive ocasião de apreciá-lo. Quatro meses depois fui à Europa, negócio que me
obrigava a ausência de um ano; ele ficou cuidando da eleição; queria ser deputado. Fui
eu mesmo que o induzi a isso, sem a menor intenção política, mas com o único fim de
lhe ser agradável; mal comparando, era como se lhe elogiasse o corte do colete. Ele
pegou da idéia, e apresentou-se. Um dia. atravessando uma rua de Paris, dei subitamente
com o Benedito.
— Que é isto? exclamei.
— Perdi a eleição, disse ele, e vim passear à Europa.
Não me deixou mais; viajamos juntos o resto do tempo. Confessou-me que a perda da
eleição não lhe tirara a idéia de entrar no parlamento. Ao contrário, incitara-o mais.
Falou-me de um grande plano.
— Quero vê-lo ministro, disse-lhe.
Benedito não contava com esta palavra, o rosto iluminou-se-lhe; mas disfarçou
depressa.
— Não digo isso, respondeu. Quando, porém, seja ministro, creia que serei tão-somente
ministro industrial. Estamos fartos de partidos: precisamos desenvolver as forças vivas
do país, os seus grandes recursos. Lembra-se do que nós dizíamos na diligência de
Vassouras? O Brasil está engatinhando; só andará com estradas de ferro…
— Tem razão, concordei um pouco espantado. E por que é que eu mesmo vim à Europa?
Vim cuidar de uma estrada de ferro. Deixo as cousas arranjadas em Londres.
— Sim?
— Perfeitamente.
Mostrei-lhe os papéis, ele viu-os deslumbrado. Como eu tivesse então recolhido alguns
apontamentos, dados estatísticos, folhetos, relatórios, cópias de contratos, tudo referente
a matérias industriais, e lhos mostrasse, Benedito declarou-me que ia também coligir
algumas cousas daquelas. E, na verdade, vi-o andar por ministérios, bancos,
associações, pedindo muitas notas e opúsculos, que amontoava nas malas; mas o ardor
com que o fez, se foi intenso, foi curto; era de empréstimo. Benedito recolheu com
muito mais gosto os anexins políticos e fórmulas parlamentares. Tinha na cabeça um
vasto arsenal deles. Nas conversas comigo repetia-os muita vez, à laia de experiência;
achava neles grande prestígio e valor inestimável. Muitos eram de tradição inglesa, e ele
os preferia aos outros, como trazendo em si um pouco da Câmara dos Comuns.
Saboreava-os tanto que eu não sei se ele aceitaria jamais a liberdade real sem aquele
aparelho verbal; creio que não. Creio até que, se tivesse de optar, optaria por essas
formas curtas, tão cômodas, algumas lindas, outras sonoras, todas axiomáticas, que não
forçam a reflexão, preenchem os vazios, e deixam a gente em paz com Deus e os
homens.
Regressamos juntos; mas eu fiquei em Pernambuco, e tornei mais tarde a Londres,
donde vim ao Rio de Janeiro, um ano depois. Já então Benedito era deputado. Fui visitálo,
achei-o preparando o discurso de estréia. Mostrou-me alguns apontamentos, trechos
de relatórios, livros de economia política, alguns com páginas marcadas. por meio de
tiras de papel rubricadas assim: — Câmbio, Taxa das terras, Questão dos cereais em
Inglaterra, Opinião de Stuart Mill, Erro de Thiers sobre caminhos de ferro, etc. Era
sincero, minucioso e cálido. Falava-me daquelas cousas, como se acabasse de as
descobrir, expondo-me tudo, ab ovo; tinha a peito mostrar aos homens práticos da
Câmara que também ele era prático. Em seguida, perguntou-me pela empresa; disse-lhe
o que havia.
— Dentro de dous anos conto inaugurar o primeiro trecho da estrada.
— E os capitalistas ingleses?
— Que tem?
— Estão contentes, esperançados?
— Muito; não imagina.
Contei-lhe algumas particularidades técnicas, que ele ouviu distraidamente, — ou porque
a minha narração fosse em extremo complicada, ou por outro motivo. Quando acabei,
disse-me que estimava ver-me entregue ao movimento industrial; era dele que
precisávamos, e a este propósito fez-me o favor de ler o exórdio do discurso que devia
proferir dali a dias.
— Está ainda em borrão, explicou-me; mas as idéias capitais ficam. E começou:
No meio da agitação crescente dos espíritos, do alarido partidário que encobre as vozes
dos legítimos interesses, permiti que alguém faça ouvir uma súplica da nação. Senhores,
é tempo de cuidar exclusivamente, — notai que digo exclusivamente, — dos
melhoramentos materiais do país. Não desconheço o que se me pode replicar; dir-me-eis
que uma nação não se compõe só de estômago para digerir, mas de cabeça para pensar e
de coração para sentir. Respondo-vos que tudo isso não valerá nada ou pouco, se ela não
tiver pernas para caminhar; e aqui repetirei o que, há alguns anos, dizia eu a um amigo,
em viagem pelo interior: o Brasil é uma criança que engatinha; só começará a andar
quando estiver cortado de estradas de ferro…
Não pude ouvir mais nada e fiquei pensativo. Mais que pensativo, fiquei assombrado,
desvairado diante do abismo que a psicologia rasgava aos meus pés. Este homem é
sincero, pensei comigo, está persuadido do que escreveu. E fui por aí abaixo até ver se
achava a explicação dos trâmites por que passou aquela recordação da diligência de
Vassouras. Achei (perdoem-me se há nisto enfatuação) achei ali mais um efeito da lei
da evolução, tal como a definiu Spencer,– Spencer ou Benedito, um deles.

 

1Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado por:
NUPILL – Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística
<http://www.cce.ufsc.br/~alckmar/literatura/literat.html>
Universidade Federal de Santa Catarina
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